Voz das florestas Yanomamis

Em Primeira Pessoa, do Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo, Davi Kopenawa Yanomami e seu filho compartilham a situação de povos indígenas.

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Sala cheia, Davi falou da situação atual do povo Yanomami. (crédito da imagem: Susana Sarmiento)

De fala mansa, séria e preocupada. Com 63 anos, uma das principais lideranças indígenas Yanomami conversou com um público bem diverso na última sexta-feira (26 de abril) à noite, na sala do Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo. Sala cheia, as pessoas eram de diferentes idades e profissões. O silêncio tomou conta do espaço, quando Davi fez a fala de defesa sobre seu povo, a importância da luta pelas florestas e como nós, da cidade, podemos contribuir com a luta indígena.

Davi Kopenawa é reconhecido internacionalmente como uma importante liderança brasileira. Pajé, fundador e presidente da Hutukara Associação Yanomami, ele exerceu papel de destaque na demarcação da terra Yanomami e ganhou o prêmio ambiental Global 500 das Nações Unidas, além ter sido intérprete da Funai. Já discursou em diversos fóruns internacionais, incluindo a da Nações Unidas (ONU).

“Existe sim índio de verdade, com sua própria língua, sua própria cultura. Meu sangue é yanomami. O branco nos chama de indígena. Índia é outro país, outra terra. Yanomami tem direito e fala originária Mãe Terra. Eu sou Davi Kopenawa Yanomami. Se eu não tivesse lutado, você não me conheceria”, afirmou a liderança. Ele explica que a floresta é uma casa grande que protege a terra, como se essa fosse uma grande pele. Explicou seu papel como pajé na comunidade, na cura de doenças. Também contextualizou a criação da Hutukara Associação Yanomami, que ajudou e até hoje atua na defesa dos direitos dos povos, inclusive na luta da demarcação de terras. “Sou uma liderança tradicional, como vocês homens da cidade chamam. Aprendi apanhando e ainda aprendo sofrendo. Os indígenas que falam português conseguem ocupar cargos de autoridade. Hoje meu filho me acompanha, porque quero repassar tudo para ele para depois deixar minha flecha e minha bandeira”.

Davi compartilhou que grande parte das terras dos yanomamis está contaminada, porque foi invadida por garimpeiros. Além de substâncias químicas, ele também se recordou do aumento de doenças, como a malária. As pessoas estão ficando doentes e o governo está cortando remédios para meu povo. “Estamos sem equipamentos, nem médicos bons. Estamos numa época com chefes ruins, porque coordenador bom é aquele que cuida do povo”, enfatizou e ainda comentou que estão atualmente 20 mil garimpeiros em terras yanomamis e água suja. “O garimpeiro é como cupim. Ele sai e volta de novo nas terras. São pessoas que não vão ficar ricas com a exploração dos mineiras e do solo, é o empresário de São Paulo que fica rico. E nossa riqueza está saindo para fora do Brasil”.

Ele ainda pede para o público: “Você são muitos, e nós poucos. Se eu não falar nada, vamos morrer calados. Nós somos protegidos pela vacina. Quem não estiver, corre risco. O Plano de Trabalho de Saúde não é feito. Como é caro ir aonde estamos, são horas de vôo de avião, o governo atual está cortando aviões para nos atender lá. As doenças vão nos matar. Essa é a jogada do governo”.

O filho da liderança

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Dario enfoca sua fala na luta necessária sobre demarcação de territórios e identidade indígena. (crédito da imagem: Susana Sarmiento)

Dario Yanomami é o filho mais velho do Davi e vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami e recebeu certificado de professor indígena yanomami em 2009, o ano da primeira formatura. Com seu pai, ele ajudou a brigar pela volta do curso de magistério. No final do ano passado ele entregou diplomas para cada um dos 16 novos professores certificados, confira aqui notícia no site do Instituto Socioambiental: https://bit.ly/2GQ1ae0

Ele acompanha seu pai em alguns debates e fez a segunda fala do bate-papo. Estuda Gestão Territorial Indígena e atua ativamente em debates sobre reivindicações indígenas. “Estamos sofrendo muitas ameaças. Nossa população cresce muito com poluição e morte. É necessário refletir nossos problemas que estão acontecendo e reconhecer nossas identidades. Hoje em dia estamos no acampamento Terra Livre em Brasília. Meu governo é a terra. Temos um plano de pensar o futuro. Ele (referindo-se ao atual governo) não tem governabilidade para fazer gestão do nosso país”.

Dario comentou sobre a situação confusa de alguns comentários dos territórios indígenas, que houveram muitas informações equivocadas: “Não temos saúde, moradia com qualidade, nem território demarcado a todos os povos indígenas. Queremos apoio de vocês para pensar e que reconheçam nossas identidades para formular um plano B. A Claudia Andujar (fotógrafa que ajudou a mostrar a realidade desse povo) nos ajudou nesse processo de reflexão. Ela nos abriu as portas. Sempre meus pais me ensinaram a nos organizar e saber defender nossos direitos indígenas. A gente denunciava para Ministério Público, Ibama e alguns sites. Hoje em dia estamos vivendo para denunciar as violações. Até agora o governo não denunciou”.

“Minha religião tem pajé. Nossa identidade continua, que inclui minha língua, meu conhecimento sobre o sistema da floresta. Alguns representantes indígenas ocupam espaços na ONU, mas não falam dos nossos problemas. A gente não consegue chegar na casa de vocês”, alertou Dario que pediu para o público levar o recado na defesa da agenda de direitos indígenas.

Veja também fala de Ailton Krenak para Nexo Jornal:
https://www.youtube.com/watch?v=urjJJwpGMJQDavi Kopenawa