Tião Rocha e agricultoras da Acolhida da Colônia inspiram moradores de Parelheiros em SP

14889Na última quinta-feira, dia 14 de julho, diferentes profissionais e a comunidade local de Parelheiros se reuniram na biblioteca comunitária LiteraSampa para ouvir os trabalhos do educador Tião Rocha, antropólogo, idealizador e presidente do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), e das mulheres da Associação de Agricultores da Acolhida na Colônia para compartilharem suas experiências e inspirarem moradores da região com o diálogo intitulado de Agroecologia e Permacultura: transformações locais.

Em um campo arborizado na parte da frente da biblioteca da comunidade, um grupo de pessoas ouviu atentamente as histórias de Tião Rocha e seu processo de construção do CPCD e um novo jeito de educar e ouvir as pessoas. “Para mim, a educação só ocorre no plural. No mínimo preciso de duas pessoas para a troca, essa pluralidade e processo de aprendizagem. Será que a educação precisa ser chata? E pesado? As crianças podem aprender brincando”, pontuou. Também comentou que o ponto de partida foi sair sem objetivos para criar objetivos, olhar o outro como diferente, considerando os saberes do 14888outro para a construção de uma sociedade mais justa.

Com essa lógica, o antropólogo buscou educadores que pensavam semelhante para construir sua rede e trabalhou em diferentes cidades, como Vale São Francisco, Vale do Jequitinhonha, Maputo, capital de Moçambique, entre outros. “Projetos isolados não transformam realidades. As redes também não transformam, porque as pessoas entram e saem de acordo com seus interesses. As redes precisam ter sentido, construir causas e bandeiras, as ideias tem que determinar isso”, enfatizou.

14887No Vale do Jequitinhonha, na época em que Tião iniciou seus trabalhos com sua equipe, era uma região conhecida como o vale da miséria e da fome. Ele contou que desenvolveram o projeto Ser Criança, porque a ideia principal era oferecer outras perspectivas aos jovens da região para não irem no trabalho de corte de cana de açúcar – para ganhar um salário mínimo, o jovem precisava cortar até 14 toneladas de cana por dia.

O educador reforçou a importância da construção da causa do projeto. “Nossa causa era não perder os meninos para o corte da cana. Quebrar essa lógica, é direcionar para outro lado. Quando olhamos o território, precisamos observar não somente o lado vazio, mas o lado cheio do copo”, defendeu o antropólogo ao defender em ver as oportunidades de cada região.

14886Com nove anos de trabalho em Moçambique, Tião compartilhou a situação de tristeza de crianças sobreviventes de guerras e ficou surpreso com uma cidade em que era também muito pobre, porém feliz. Falou que nessa comunidade o Seu Antonio construiu uma escola e passou de casa em casa para saber o que cada um poderia contribuir com seus saberes, já que não havia professor. Aquela escola era ocupada todos os dias da semana e todos cuidavam desse espaço. O Seu Antonio confirmou ao educador brasileiro: “É preciso toda uma aldeia para cuidar de uma criança”.

14885Após esse depoimento, Tião reuniu a comunidade de Araçuaí (MG) para ver como as pessoas interessadas poderiam contribuir com seus saberes para tirar o analfabetismo das crianças. “Olhamos todos os espaços como de aprendizagem. Também prestei atenção nos jovens, que tem seus sonhos e interesse pela área de tecnologia, importante refletir sobre como fazer essa transformação e não tratar como mais um”, atentou. A organização está contribuindo para a construção de uma fábrica de software para inserir esses jovens da região no mercado de tecnologia, a Fabriqueta de Softwares – Cooperativa Dedo de Gente. Essa ação foi viabilizada pelos recursos doados pelos colaboradores da Natura. Esse grupo de jovens quis agradecer e organizou um coral para cantar em festa de fim de ano aos seus financiadores, receberam capacitação musical e já participaram de vários eventos e coletaram mais recursos. Com o dinheiro captador, o grupo desenvolveu um programa de computador para distribuir melhor as cestas básicas a famílias de baixa renda da região. Por essas ações, conseguiram a verba de 40 mil reais e fizeram uma ação coletiva para saber a opinião da comunidade em como investir esse dinheiro e a resposta foi: uma sala de cinema em Araçuaí. É a única sala de cinema na região do Vale do Jequitinhonha.

Esses jovens contribuíram a população contribuir um plano de desenvolvimento sustentável, conhecido como AraSempre para construir uma cidade boa a todos. “Nossa ideia era mostrar que é possível viver na região do semi-árido”, defendeu.

Para ajudar o desenvolvimento local, também foi desenvolvido um espaço para permacultura que contribuir na produção de alimentos de forma orgânica e sustentável. Conhecido como o Sítio Maravilha, é um centro de permacultura do Vale do Jequitinhonha. Lá possui viveira de mudas, casa de sementes, floresta de alimentos, lago de água de chuva, vegetação em volta de lagos, barragens e olhos d’água, composto orgânico, banheiro seco compostável, adubação verde, café sombreado, galinheiro móvel, curvas de nível, caixa de captação de água de chuva, filtro de purificação, círculo de bananeiras, telhado verde, entre outros.

Essa mesma lógica foi construída um espaço de permacultura na cidade de Arari, no Maranhão, chamado Estação do Conhecimento. O território é dividido em zonas, cada uma com tipo de plantação específico, captação de água, galinheiro, horta espiral de ervas e limpeza de açudes e captação de água, banheiro seco, entre outros.

A organização possui diferentes projetos em Minas Gerais, Maranhão, São Paulo e exterior. Para conhecer outras iniciativas, acesse o site da CPCD: http://www.cpcd.org.br/

Valorizar o campo

Cinco mulheres de Santa Catarina contaram suas histórias com a agricultura, produção orgânica e empreendedorismo com cooperativismo. Cada uma possui uma trajetória, mas o ponto em comum é a valorização do campo no dia a dia e participam da Associação Agricultoras da Colónia.

Thaise Guzzatti, uma das idealizadoras da Associação e empreendedora da Ashoka, contou como foi a criação desse grupo, como escolheram a cidade que seria sede do projeto e buscar as riquezas do local. “O que é necessário ter na Acolhida da Colônia: pousadas simples, bem cuidada, com hospedagem confortável e culinária. É importante ter fotos das pousadas que ensinam o dia a dia do campo, com roteiros de ecoturismo”, esclareceu.

Esse trabalho também possibilitou algumas propriedades se estruturassem mais e organizassem seu trabalho, para receber os turistas. “As decisões são sempre em reuniões e decididas em assembleias e seguem seus princípios e se reúnem para decidir isso”.

Além de Thaise, algumas agricultoras e proprietárias de fazendas falaram de seu dia a dia e do trabalho após a Acolhida da Colônia, a importância de valorizar a profissão de agricultor e até de aproximar cidadãos urbanos para o cotidiano do campo.

“A mulher que cida da pousada tem conseguido reconhecimento e pagamento para melhorar a autoestima. Está num processo de divisão mais justa para ser uma parceria mais durável e precisa avançar. Hoje é notável que a autoestima está mais alta e é importante trabalhar e te ter seu reconhecimento”, defendeu uma das agricultoras.

Para inspirar…

Bel Santos Mayer, coordenadora do programa de direitos humanos do IBEAC, contou que esse encontro foi organizado para estimular a população local a investirem em seus projetos agrícolas na região. Essa troca com as mulheres da Associação Agricultoras da Colónia foi viabilizado pelo apoio financeiro da Brazil Foundation, uma das organizações parceiras do grupo Sementeiras de Direitos, um grupo de mulheres que debatem ideias e formas para desconstruir estereótipos e preconceito de gênero em Parelheiros. Esse grupo também conta com apoio do Consulado da Alemanha e Centro Britânico.

“Há um mês e meio cinco mulheres de Parelheiros foram visitar a Acolhida da Colônia, conheceram algumas das propriedades e conversaram com as agricultoras da associação. Queríamos ouvir delas e entender como foi o caminho de construção desse grupo e eles também entender nossos encontros e temas debatidos”, explicou Bel.


Serviço:

Site do Ibeac: http://www.ibeac.org.br/
Site do CPDC: http://www.cpcd.org.br/
Acolhida na Colônia: http://acolhida.com.br/


Imagens: Divulgação/Ibeac
Data original da publicação: 20/07/2016