Situação de crianças e adolescentes se agravou após nove meses de pandemia, segundo pesquisa do Unicef

Redução de renda, insegurança alimentar e escolas fechadas impactam cada vez mais crianças e adolescentes.

foto de duas crianças negras pousando de máscas uma de costas para a outra.
A renda das famílias caiu e aumenta número de famílias que não conseguem se alimentar adequadamente. (crédito da imagem: divulgação)

13% das famílias com menores de 18 anos deixaram de comer porque não havia dinheiro para comprar comida, 92% residem com crianças ou adolescentes que continuam realizando atividades somente em casa e 55% mencionaram que o rendimento do seu domicílio reduziu desde o início da pandemia. Estes foram alguns dos resultados alarmantes da segunda rodada da pesquisa do Unicef: Impactos Primários e Secundários da Covid-19 em Crianças e Adolescentes, realizada pelo Ibope Inteligência, lançada na última sexta-feira (11/12).

O levantamento apresenta que as famílias morando com pessoas menores de 18 anos estão sofrendo cada vez mais os impactos econômicos e sociais da crise sanitária, impactando ainda mais as populações mais vulneráveis. Foram realizadas 1.516 entrevistas nas duas rodadas, organizadas para representar a população alvo do estudo. As entrevistas dessa rodada foram realizadas por telefone de 29 de outubro a 13 de novembro. A margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos. A primeira etapa da pesquisa foi realizada de 3 a 18 de julho de 2020 e está disponível aqui no site do Unicef.

O estudo ainda traz que a renda das famílias com crianças e adolescentes caiu; aumentou o número de famílias que não conseguiram se alimentar adequadamente porque a comida acabou e não havia dinheiro para comprar mais; menos estudantes tiveram acesso a atividades escolares; e há um receio das famílias de deixar que os filhos retornem à escola de forma presencial.

A pesquisa aponta que 55% dos entrevistados declararam que o rendimento de seu domicílio diminuiu desde o início da pandemia, estima-se que eles representem cerca de 86 milhões de brasileiros. Entre as pessoas que residem com crianças ou adolescentes, 61% declararam que a renda da família diminuiu. Os impactos dessa queda são, particularmente, maiores nas famílias mais pobres. Dos entrevistados com renda de até um salário mínimo, 69% afirmaram que tiveram cortes em sua renda. Entre eles, 15% afirmaram ter perdido toda a fonte de renda.

A insegurança alimentar tornou-se uma preocupação ainda maior no Brasil. De julho a novembro, o percentual de respondentes que declararam que deixaram de comer, porque não havia dinheiro para comprar mais comida passou de 6% para 13%. Isso é ainda mais grave entre pessoas de classe D e E, em que 30% deixaram de comer em algum momento, porque não havia dinheiro para comprar mais comida.

A situação se torna ainda mais preocupante quando se fala em crianças e adolescentes. Segundo a pesquisa, 8% dos entrevistados que moram com pessoas menores de 18 anos declararam que as crianças e os adolescentes do domicílio deixaram de comer por falta de dinheiro para comprar alimentos. Entre aqueles de classe D e E, a proporção chega a 21%.

A pesquisa mostrou que a redução da renda das famílias está impactando cada vez mais na alimentação de crianças e adolescentes. Na pesquisa de novembro uma proporção maior da população (54%) identificava que os hábitos alimentares em casa mudaram durante a pandemia. Na pesquisa de julho, o índice ficou em 49%. Os entrevistados declararam um aumento do consumo de alimentos industrializados e refrigerantes, pobres em nutrientes e ricos em gorduras, sódio e açúcares. O aumento no consumo desses tipos de alimentos segue maior entre residentes com crianças e adolescentes.

O levantamento mostra uma alta hesitação das famílias de que suas crianças voltem a frequentar as salas de aula presencialmente. Enquanto 9% dos entrevistados declararam que as escolas de crianças e adolescentes residentes no domicílio reabriu, somente 3% declararam que algum deles voltou a frequentar a escola. Da mesma forma, apenas 15% dos entrevistados disseram que as crianças e os adolescentes voltarão às salas de aulas assim que a escola reabrir.

A preocupação com o direito à educação aumenta uma vez que a proporção dos residentes com crianças ou adolescentes que continuam com atividades escolares em casa e receberam atividades nos cinco dias da semana anterior à pesquisa diminuiu de 63% em julho para 52% em novembro. Além disso, 13% das famílias responderam que crianças e adolescentes não haviam recebido atividades escolares na semana anterior à pesquisa. Isso corresponde a 7 milhões de meninas e meninos.

Todos esses desafios afetaram a saúde mental de crianças e adolescentes. 27% dos respondentes relataram que adolescentes no domicílio apresentaram insônia ou excesso de sono. Além disso, 29% relataram que os adolescentes tiveram alteração no apetite e 28% disseram que os adolescentes tiveram diminuição do interesse em atividades rotineiras. No total, 54% das famílias relataram que algum adolescente do domicílio apresentou algum sintoma relacionado à saúde mental.

Acesse aqui a pesquisa da segunda rodada na íntegra do site do Unicef: https://uni.cf/3nqTKRw