Setor3 entrevista economista que colaborou com a publicação de guia sobre os impactos ambientais da pecuária no Brasil

14203223_1188013917936552_5918620003044529306_nEm maio deste ano, a Fundação Heinrich Böll lançou o Atlas da Carne, uma publicação que contém informações sobre a pecuária no Brasil. Entre os pesquisadores que colaboraram com o guia, está o economista e consultor da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (Fase), Sergio Schlesinger. O Portal Setor3 conversou com ele para saber um pouco mais sobre sua atuação na área e participação no manual.

Setor3: De onde veio a iniciativa de participar da produção do Atlas da Carne?

Sergio Schlesinger: Foi um convite da Fundação Heinrich Böll. Minha área de pesquisa, hoje, é sobre impactos socioambientais do agronegócio. Eu participei da versão brasileira e nela fiz três capítulos: o primeiro deles é sobre considerar a cadeia produtiva como um todo. Ou seja, entender a indústria da carne desde a plantação de rações, que aliás, é gigante no Brasil. Isso também é um problema e o estudo trata justamente disso. Em seguida, escrevi sobre o problema da carne bovina em si e a relação com as grandes empresas. Por último, abordei os impactos nos biomas Amazônia e Cerrado.

Setor3: Como foi o processo de pesquisas e levantamento de dados para o Atlas da Carne?

SS: A soja tem comigo uma história longa de trabalho. Comecei pesquisando o comércio internacional e o impacto da exportação de commodities no meio ambiente. Eu tenho uma experiência acumulada nessa questão de informações sobre a soja, não só no Brasil, mas sim também no Paraguai e na Bolívia. Acabei de fazer um texto da Oxfam, confederação de organizações que atuam em 94 países pelo fim da pobreza e desigualdade, sobre isso.

Não gosto de fazer trabalho só de pesquisa, prefiro ir a campo e falar com a população local. Sendo assim, viajei até os biomas. Lá foi possível ouvir relatos de pessoas que são atingidas por essa produção. A soja é a maior cultura do Brasil, ocupa 33 milhões de hectares e causa muito impacto. A carne bovina, mesma coisa. São 200 milhões de hectares desmatados pela criação do gado. As minhas escolhas são essas: trabalhar com o que causa mais impacto ambiental.

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Setor3: Em sua opinião, mesmo com tantos impactos negativos, porque ainda se consome tanta carne e soja no Brasil?

SS: As pessoas são sabem que comem muita soja. Cerca de 95% da produção é destinada a alimentação de animais criados em confinamento. Não consumimos diretamente, mas indiretamente come-se muito. Acredito que as pessoas não sabem tanto sobre impactos ambientais. Pouca gente reflete sobre isso na hora de fazer suas compras e nem todo mundo está disposto a abrir mão de suas preferências alimentares para preservar o meio ambiente.

Além do cultural, também muito forte na nossa região. As Américas Latina e do Sul mantém um padrão de consumo de carne bovina muito alto.

Devemos lembrar que existe uma propaganda fortíssima por trás da indústria. Eu estudei o caso do Japão, que depois da Segunda Guerra Mundial ficou sob domínio dos Estados Unidos. O Japão, que consumia arroz aos montes, passou a comprar muito mais carne do que produtos locais. Cheguei a ver estudiosos que localizaram propaganda direcionada ao público infantil, por exemplo.

Há artigos de antropólogos que relacionam o consumo de carne com a vontade de manter um status elevado. São muitas questões.

Setor3: Ao longo da pesquisa, teve algum dado que te surpreendeu?

SS: Eu trabalho nessa área há dez anos, e ao longo desse tempo algumas coisas me chocaram. Uma delas é o fato de que quase ninguém sabe como a produção de soja está ligada à de carne. Quase toda a soja vai para isso.

Você precisa saber qual o nível de estrago que causa na natureza. Isso tem que ser trabalhado. É impossível obrigar as pessoas a não comerem carne, mas têm algumas coisas que você pode fazer. Trabalhar para mostrar a elas como isso causa problema, inclusive na questão do aquecimento global, é um exemplo.

Setor3: Em sua opinião, as indústrias têm se tornado mais conscientes com o passar dos anos?

SS: Eu acredito muito em empresa consciente. A pressão que elas recebem da sociedade civil faz com que se tornem cada vez mais humanitária. Isso tem progredido muito, principalmente na Europa. Conforme os frigoríficos e essas indústrias do setor brasileiro se internacionalizam, elas cedem essa cobrança, principalmente na questão do bem-estar animal. A JBS, por exemplo, comprometeu-se a não enjaular mais os animais antes do abate. As ONGs de proteção animal me procuram para comemorar o fato de terem conseguido o compromisso dessas empresas.

Com relação ao desmatamento, eu não vejo nenhuma prática funcionar. Até hoje temos trabalho escravo sendo descoberto. Inclusive é comum ver o Ministério Público acionando essas empresas.

Setor3:
Você acredita que é possível reverter todo o dano ambiental causado pela criação de gado?

SS: A longo prazo nós temos como reverter o dano causado pelas indústrias no meio ambiente. Acredito que seja possível, só não sei quanto tempo leva. Nós vimos o que aconteceu com a água aqui em São Paulo, por exemplo. Os locais onde nascem as principais bacias têm seus arredores desmatados para a plantação de soja para carne, para criação do gado. Se vai mudar, eu não sei. Mas uma coisa é certa, caso isso não aconteça, nós vamos sofrer as consequências, e são graves.

Setor3:
Como nós, cidadãos comuns, podemos ajudar a minimizar esses impactos?

SS: Diminuir o consumo é o que ajuda. Essa é a nossa parte. Na hora de votar, devemos pensar nisso também – apesar de quase nenhum dos governantes parecer se importar com isso. Em primeiro lugar, devemos nos informar sobre o quanto realmente custa consumir carne, depois rever hábitos e não tolerar atrocidades. Além, é claro, de se organizar como sociedade civil e pedir auxílio para ONGs.

Setor3:
A repercussão do Atlas da Carne tem sido com você imaginava?

SS: Sim, nós temos feito lançamentos no Rio de Janeiro. Além disso, foi feito um em São Paulo. Recentemente fomos para São Luís, no Maranhão, e agora vamos para Cuiabá (MT), no final de novembro. A receptividade é muito boa. Sempre tem muita gente interessada, auditório cheio. Vários tipos de público estão preocupados com as questões ambientais e sociais envolvidas na produção de carne. Ou seja, respondendo a sua pergunta: a receptividade tem sido muito boa sim.

O Atlas da Carne está disponível para download no site da Fundação Heinrich Böll. Essa e outras publicações podem ser encontradas em:https://br.boell.org/pt-br/publicacoes


Crédito do texto: Gabriela Lira Bertolo
Data de publicação: 28/11/2016