Setor3 conversa com a diretora da Global Designing Cities Initiative

A arquiteta explica o papel da publicação Guia Global de Desenho de Ruas, lançado na Semana da Mobilidade em São Paulo, entre os dias 16 e 22 de setembro de 2018.

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Publicação foi lançada durante a programação da Semana da Mobilidade em São Paulo na metade de setembro de 2018. (crédito da imagem: divulgação)

A Editora Senac São Paulo e Itaú Unibanco lançaram a publicação Guia Global de Desenho de Ruas (GGDR), versão em português do Global Street Design Guide, conhecida como uma referência internacional para a disseminação dos princípios de ruas seguras e sustentáveis. Este livro também contou com o apoio da Bloomberg Philanthropies e a versão em português contou com a revisão técnica da SP Urbanismo.

Uma das organizadoras do livro é Skye Duncan, diretora de uma entidade norte-americana ligada à área de mobilidade, a Global Designing Cities Initiative, da National Association of City Transportation Officials (Nacto). Ela lidera um programa financiado pela Bloomberg Philanthropies e desenvolve o Guia Global de Desenho de Ruas, além de fornecer assistência técnica para cidades de todo o mundo sobre desenho de ruas seguras e sustentáveis. No Brasil, ela atua por meio da Iniciativa Bloomberg para a Segurança Global no Trânsito, programa que está sendo implementando nas cidades de São Paulo (SP) e Fortaleza (CE), mas inclui ações em várias outras partes do mundo, como Bogotá (Colômbia), Mumbai (Índia) e Adis Abeba (Etiópia).

A publicação traz ferramentas e táticas bem-sucedidas definidas no Guia de Desenho de Ruas Urbanas e no Guia de Desenho de Ciclovias Urbanas, abordando uma variedade de tipologias de rua e elementos de design encontrados em vários contextos ao redor do mundo. Foi realizado com o apoio de consultores de renome internacional e uma rede global de especialistas com representação de 68 cidades e 39 países em todo o mundo, o GGDR foi criado por e para cidades globais. A diretora da organização conversa com o Setor3 para explicar o conteúdo do Guia, a ocupação do espaço público, os diferentes tipos de mobilidade e até os projetos em outros países.

Portal Setor3 – Como você imagina que a publicação contribuirá para os gestores públicos e a sociedade civil no planejamento de suas cidades e mobilidade urbana?
Skye Duncan – O GGDR define uma nova linha de base global para projetar vias urbanas ao redor do mundo. Reconhecendo que as cidades são lugares para as pessoas, o GGDR muda os parâmetros de projetar vias urbanas do ponto de vista típico de movimento e segurança de automóveis, para incluir acesso, segurança e mobilidade para todos os usuários; qualidade ambiental; benefício econômico; valorização do lugar; saúde pública e, sobretudo, qualidade de vida. A tradução para o português disponibilizou o guia para mais 215 milhões de pessoas que tem esse idioma nativo e esperamos que esta publicação inovadora inspire líderes, informe os profissionais e capacite as comunidades a desenvolverem esse potencial em suas redes de trabalho. Ao tratar as ruas como espaços públicos que integram funções e usos variados, o GGDR ajudará as cidades a liberar o potencial das ruas como lugares seguros, acessíveis e economicamente sustentáveis.

Portal Setor3- Quais cidades você conhece no Brasil? O que os gestores públicos deveriam estar atentos na questão de mobilidade das cidades daqui?
Skye Duncan – No Brasil, sob a Iniciativa Bloomberg para Segurança Global no Trânsito,  Global Designing Cities Initiative trabalha em estreita colaboração com as cidades de São Paulo (SP) e Fortaleza (CE), nas quais eu já estive pessoalmente várias vezes. Além disso, visitei as cidades de Recife (PE), Brasília (DF), Belo Horizonte (MG) e Rio de Janeiro (RJ). As cidades brasileiras são incríveis, quando se trata de cultura de rua e pessoas se apropriando do espaço público, no entanto, como todas as outras cidades globais vibrantes, elas compartilham desafios semelhantes. Há uma necessidade urgente de reverter décadas de investimentos voltados para carros e atualizar suas ruas para uma abordagem orientada para as pessoas.

As ruas precisam ser lugares que priorizem os pedestres e que permitam uma variedade de atividades. Como nossa rede mais fundamental de espaço público aberto, as ruas de nossas cidades precisam permitir que as pessoas vivam, brinquem, se encontrem com vizinhos, jantem, aprendam a andar de bicicleta e andem, andem de bicicleta e transitem com segurança para acessar serviços essenciais como escolas, hospitais, parques, playgrounds, empregos e áreas de compras. Isso significa limites seguros de velocidade, como 30 km/h, para que todos os modos e usos diferentes das ruas possam coexistir confortavelmente juntos. Uma infraestrutura pedestre inclusiva e de qualidade também deve ser a principal prioridade. O que isso significa: calçadas livres de obstáculos, frequentes travessias de nível, rampas para pedestres, ilhas de refúgio, árvores para sombreamento e assim por diante, tornam-se fundamentais para que nossos usuários mais vulneráveis, como crianças, idosos e pessoas com deficiências, acessem a cidade com segurança. Ciclovias seguras que estimulem tanto uma criança de seis anos quanto uma de 60 anos a subir em uma bicicleta e faixas de trânsito dedicadas que permitem que as pessoas se movimentem de maneira eficiente e direta para seus destinos também contribuem para um design de rua de qualidade. Eles devem servir não somente para propósitos de mobilidade, mas devem fazer sentido para o contexto imediato em que estão inseridos e também devem ajudar a manter um ar mais limpo, gerenciar nossos sistemas de água, melhorar as economias locais e contribuir para uma vida segura e saudável a todos. Como nossas cidades estão cada vez mais urbanizadas em todo o mundo, isto coloca apenas mais pressão sobre como usamos o precioso espaço de nossas ruas para servir a múltiplos propósitos e já se foram os dias em que podíamos nos dar ao luxo de dar todo esse espaço para o automóvel particular.

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Skye Duncan em evento de lançamento da publicação. (crédito da imagem: divulgação)

Portal Setor3 – Em geral, as pessoas em diferentes países estão mudando sua relação com a ocupação do espaço público? O que nota e quais são esses lugares? Por quê?
Skye Duncan – Cidades em todo o mundo estão provando que se as ruas foram projetadas como lugares para as pessoas, elas podem não apenas ajudar a garantir um futuro de transporte mais seguro, mais equitativo e mais eficiente, mas também ser uma plataforma para reunir comunidades e vizinhos em espaços públicos de qualidade. Não precisamos procurar muito. Fortaleza (CE), por exemplo, comprometeu-se a melhorar o acesso a modos de transporte sustentáveis e a segurança nas vias. Apesar dos recursos limitados, nos últimos quatro anos, a cidade expandiu drasticamente sua rede de bicicletas, adicionou sistemas de compartilhamento de bicicletas e introduziu novas abordagens de projeto de ruas para melhorar a segurança nas vias. Programas conduzidos pela comunidade, como o Cidade de Gente, estão recuperando estacionamentos para oferecer espaços públicos animados. Por meio de várias intervenções como essa, a capital do Ceará reduziu as fatalidades no trânsito em aproximadamente 35% desde 2010, alcançou o maior número de passageiros em bicicletas da América Latina e mais importante conquistou 94% de aprovação em programas de segurança pública e espaço comunitário.

Já as cidades como Copenhague (Dinamarca), Madri (Espanha) e Oslo (Noruega) têm áreas dedicadas de seu centro para não ter carros, enquanto Londres (Inglaterra) e Cingapura desincentivam o uso de carros, aplicando estratégias de preços para cobrar aqueles que dirigem nas áreas mais congestionadas. Auckland (Nova Zelândia) está implementando ruas compartilhadas, onde o pedestre é a rei do espaço e os carros são convidados a usar o espaço de forma muito lenta e cautelosa. Pequenas vielas estão sendo reinventadas e repletas de obras de arte e instalações criativas em Melbourne (Austrália) para fornecer atalhos convenientes para caminhadas e encantar as pessoas em seus safáris urbanos. Programas de cidades como Nova York (Estados Unidos – EUA), São Francisco (EUA), São Paulo e agora Bogotá (Colômbia), como o programa Plazaleta, estão tirando o espaço dos carros e dando ao povo, propondo uma nova mentalidade sobre a geometria dentro da rua. As cidades estão coletando métricas e descobrindo que esses projetos não apenas estão tornando suas ruas mais seguras, mas melhorando a qualidade do ar, melhorando as empresas locais e descobrindo que é isso que as pessoas preferem.

Há uma série de estratégias que podem nos ajudar a priorizar as opções de mobilidade sustentável e espaços favoráveis a pedestres em detrimento do uso de automóveis pessoais, e vemos cada vez mais exemplos de sucesso em todo o mundo. Embora seja muito controverso, a principal maneira de fazer isso é tornar a ação de dirigir mais difícil e fazer escolhas alternativas para caminhar, pedalar ou usar o transporte de forma mais segura, fácil, acessível e confortável.

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Designer e diretora da Global Designing Cities Initiative fala com imprensa brasileira em evento de lançamento na Semana de Mobilidade de São Paulo. (crédito da imagem: divulgação)

Portal Setor3 – Como ruas mais sustentáveis e opções de mobilidade podem contribuir para a saúde das pessoas? Quais exemplos poderia explicar?
Skye Duncan – Depois de décadas projetando ruas para movimentar um grande número de veículos da maneira mais eficiente possível, as cidades estão finalmente redescobrindo os benefícios de projetar ruas seguras e habitáveis que equilibram as necessidades de todos os usuários. É hora de mudar as práticas e redefinir o que constitui ruas de sucesso. Essas vias não devem ser avaliadas isoladamente, ou apenas como projetos de transporte. Em vez disso, cada projeto apresenta uma oportunidade para perguntar quais benefícios gerais podem ser obtidos. Quando se trata de saúde pública, sabemos que a cada ano, milhões de pessoas morrem desnecessariamente de causas evitáveis, como a violência no trânsito ou doenças crônicas relacionadas à baixa qualidade do ar e à falta de atividade física. Um projeto de rua deve promover ambientes seguros para todos os usuários e oferecer escolhas saudáveis que facilitem o transporte ativo, como caminhar, andar de bicicleta e usar o transporte público. As ruas devem melhorar o acesso a opções de alimentos saudáveis, mitigar os níveis de ruído e fornecer paisagismo e árvores que melhorem a qualidade do ar e da água.

Portal Setor3- Que tipo de programas a Global Designing Cities Initiative atende e com quais países ela se relaciona? Quais países já participaram?
Skye Duncan – Sob a Iniciativa da Bloomberg para a Segurança Global no Trânsito, nossa equipe tem prestado assistência técnica a cinco cidades, como mencionei antes, duas delas no Brasil, São Paulo e Fortaleza. Além disso, temos trabalhado em estreita colaboração com as cidades de Bogotá, na Colômbia, Adis Abeba, na Etiópia, e Mumbai, na Índia. Nosso trabalho com essas cidades inclui capacitação por meio de treinamento e oficinas com funcionários e profissionais locais, orientação e revisão de projeto para iniciativas de transformação de ruas, envolvimento da comunidade e avaliação de projetos e atualização de políticas e orientações para garantir a sustentabilidade dos projetos.

Além disso, no início de 2018, a NACTO Global Designing Cities Initiative (NACTO-GDCI) lançou o programa Streets for Kids. Nos próximos meses, a equipe do programa desenvolverá um guia de design focado na criança para complementar o Global Street Design Guide. O suplemento destacará estratégias, programas e políticas que cidades do mundo todo usaram para projetar espaços que permitam que crianças e seus cuidadores utilizem o mais abundante recurso das cidades – suas ruas. Na segunda fase do programa, o NACTO-GDCI trabalhará diretamente com os profissionais para reimaginar e redesenhar suas ruas para implantar ambientes confortáveis, saudáveis e inspiradores e com cidades internacionais selecionadas para projetar e implementar projetos de demonstração, usando orientação e especificações do suplemento Streets for Kids.

Valor sugerido R$ 52,65
Acesse o site da Editora Senac São Paulo: https://goo.gl/oshpqx