Seminário apresenta estudos sobre comportamento de crianças na internet e redes sociais

e6c780a0597a0c41956243e04a6c9a53Elas ensinam a preparar receitas doces e salgadas, brincadeiras e jogos com brinquedos de marca e até com receitas caseiras, avaliam e dão sua opinião. Essas são algumas ações de youtubers mirins, cada vez mais presente na cultura digital de muitas crianças. Para discutir esse assunto, a ESPM Media Lab lançou o estudo Geração YouTube: um mapeamento sobre o consumo e a produção infantil de vídeos para crianças de zero a 12 anos no Brasil, de 2015 a 2016, na manhã de ontem (05/10), no auditório Renato Castelo Branco, na ESPM, no bairro da Vila Mariana na zona sul de São Paulo.

Coordenado por Luciana Corrêa, pesquisadora e coordenadora da ESPM Media Lab, ela explicou o estudo que propõe contribuir com a reflexão sobre as culturas infantis contemporâneas e ao debate social relacionado com infâncias, comunicação e consumo; observar e mapear o conteúdo em vídeo produzido por e para crianças no Brasil; e incluir a participação da criança brasileira pequena, especificamente na faixa etária de zero a 12 anos, em estudos no campo da comunicação social.

Esse estudo foi apresentado pela primeira vez em novembro do ano passado, quando o mapeamento somava 110 canais e as visualizações atingiam 20 bilhões. Em menos de um ano, essa audiência saltou para 50 bilhões de visualizações e o número de canais está em 230.

Em seu estudo, a pesquisadora relata que o avanço das redes sociais impactou na cultura infantil e estimula até no consumo de conteúdo digitais e a produção de vídeos feitos por crianças e veiculados na internet. E quais são os principais impactos desse consumo? E nas relações familiares? Essas foram algumas questões que nortearam o mapeamento.

As categorias desse levantamento são: Minecraft (gameplays e vlogs de games), TV (programação disponível na TV com desenho e musical, teleficcões e seriados), Não TV (desenho infantil e musical), Youtubers Teen ( meninos e meninas), Youtubers mirins (meninos e meninas), Unboxing (propaganda de brinquedos -videobrincadeiras) e educativos (experimentos). Essas plataformas foram divididas em sete categorias.

O público mais presente é entre 3 e 4 anos com 31,8%, depois 5 e 6 anos com 20% e 14,3% de sete e oito anos de idade. Em relação ao gênero, as meninas ficam com 50,1% e os meninos com 49,9%, pouca diferença. Para entender melhor os hábitos e preferências desse público, é possível observar o tipo de categoria mais consumida: 31,5% para MINE; 15,2% com TV, 12% com UNBX, 11,8% para não TV, 10,2% YTInft, entre outros. Os itens diferenciais nesse tipo de serviço: originalidade, bom humor e linguagem.

A categoria dos youtubers mirins teve um crescimento expressivo, de 564%. Já a categoria Unboxing também é a que mais apresenta crescimento quando analisados os números de inscritos por canal, com um índice de 855%, seguindo dos youtuber mirins, com 550% e dos canais com conteúdo da TV, com 175%.
Esse levantamento cruza dados dos maiores canais, com resultados de 776 questionários respondidos por mães e pais de crianças de zero a 12 anos de idade, que confirmaram o consumo feito por seus filhos. Ela ainda comparou e analisou dados de mais duas bases e avaliou cada um destes canais ao longo dos últimos anos. Seu primeiro estudo foi feito de 2012 a 2014 sobre o consumo e a produção de crianças no Instagram.

Maria Eugênia Sozio, da Cetic.br, falou sobre o estudo Kids OnLine Brasil, que possui o objetivo central de mapear possíveis riscos e oportunidades no ambiente virtual e gera indicadores sobre os usos que crianças e adolescentes de 9 a 17 anos de idade fazem da internet. Tem a função de entender a percepção de jovens em relação à segurança on-line, bem como delinear as práticas de mediação de pais e responsáveis relacionadas ao uso da internet.

Seus indicadores são divididos em dois grupos: crianças e adolescentes e pais e responsáveis. No grupo de crianças e adolescentes, o estudo levanta as seguintes informações: perfil de uso da internet; atividades realizadas na rede; habilidades para o uso seguro das TIC; redes sociais; percepção sobre a mediação de pais e responsáveis. Já em pais e responsáveis, abrange: perfil e frequência de uso; percepção sobre riscos on-line; mediação dos pais; fontes de educação, conselho e apoio sobre o uso seguro da internet.

O perfil dos jovens usuários de internet no Brasil é formado por 77% de 10 a 17 anos, 76% de 18 a 24 anos e 66% de 25 a 34 anos, entre outros. A região do país que mais acessa é a Sul com 87%, depois Sudeste com 86%, o Centro-Oeste com 81%, 68% no Nordeste e 54% no Norte. A consulta foi feita de outubro de 2014 a fevereiro de 2015. Foram entrevistadas 2105 crianças/adolescentes.

81% todos os dias ou quase todos os dias, 13% uma ou duas vezes por semana, 4% uma ou duas vezes por mês. Os equipamentos utilizados são: celular no topo do ranking com 82%, depois computador de mesa/PC/Desktop (56%), laptop/notebook (36%), tablet (32%), videogame (12%) e televisão (5%). Onde acessam? 81% sala da casa ou outro espaço coletivo da casa, 73% próprio quarto ou outro quarto privativo da casa, 60% casa de parentes, 54% casa de amigos, 49% enquanto se deslocar, entre outros.

A maioria acessa pela rede social (73%), trabalho escolar (68%), pesquisas coisas na internet (67%) e usar mensagens instantâneas para conversar com amigos (64%). As principais atividades na internet foram: 35% baixaram músicas ou filmes, 33% enviaram ou receberam e-mails, 32% ler ou assistir as notícias na internet, 31% criou um personagem, ou bicho de estimação, entre outros. Em relação ao perfil próprio em rede social: de 15 a 17 anos lidera o ranking com 95% e de 13 a 14 anos com 88%. Sobre a classe social, 85% são da classe AB, 80% da classe C e DE com 69%.

Rodrigo Paiva, diretor de licenciamento da Maurício de Sousa Produções, contextualizou as primeiras tiras de Maurício, dos anos 1950 até os dias de hoje, o tipo de desenho, personagens, veículos de comunicação. Nos anos 200, a empresa focou em VoD, redes sociais, Apps e YouTube. Possuem 380 vídeos disponíveis e 1,2 milhões de inscritos. Também investem no mercado japonês e inglês. Oferecem ainda 16 Apps e jogos com 10 milhões de downloads.

Já o psicólogo Pedro de Santi, líder da área de humanidades e direito da graduação da ESPM-SP, falou sobre a mediação dos pais no processo de educação e formação dos filhos e o impacto da tecnologia. “Temos uma evolução muito grande com o crescimento da cultura digital. O papel da escola e da família estão bem modificados. A tarefa está em intermediar”, ressaltou.

O psicanalista ainda comentou que a transformação não quer dizer decadência. “A hora do intervalo nas escolas não tem mais sentido, não há mais separação dos mundos”, afirmou. E ainda ressaltou que a internet não pode ser vista como um objeto alienador como a TV. “A gente não está entendendo esse processo e isso não quer dizer que ela está doida”, alertou o professor que ainda pediu para o público não avaliar com o olhar catastrófico os dados e o atual cenário.

Quando questionado sobre o impacto do uso frequente das redes sociais por crianças, o psicanalista comentou que os pais querem delegar suas responsabilidades para os outros há décadas. Antes era com os livros e enciclopédias, depois para a escola, e atualmente para o psiquiatra. O problema, na opinião dele, é quando ninguém a exerce nessa criança.

“Mídia educa, mas não é só isso. Os alunos de hoje vêm com uma bagagem maior”, afirmou a pesquisadora Luciana, que sugeriu o documentário Torre de Marfim em que aborda os modelos de educação.


Data original da publicação: 07/10/2016