Saúde integral e empreendedorismo foram eixos do segundo dia do III Fórum Internacional de Comunicação e Sustentabilidade

“Todos somos agentes de mudança. De que forma podemos fazer isso?”, interroga Vera Cordeiro, médica e fundadora da Associação Saúde Criança, uma das participantes da mesa Justiça Social e Econômica do segundo dia do III Fórum de Comunicação e Sustentabilidade, que aconteceu entre os dias 19 e 20/05, no Vivo Rio, no Rio de Janeiro. Para estimular os participantes para o movimento de desenvolvimento, participaram também: Muhammad Yunus, fundador do Grammen Bank, o banco dos pobres, e prêmio Nobel da Paz em 2006; Seu Jorge, cantor e compositor brasileiro; Silvio Vaz Almeida, administrador e diretor presidente da Fundação Vale e diretor da área de responsabilidade social, corporativa e comunicação regional da Vale S.A.; Rodrigo Santos Nogueira, economista especialista na área de administração financeira e gestão financeira para bancos e gerente geral do Banco do Brasil da unidade desenvolvimento sustentável de Distrito Federal; Janice Helena de Oliveira Dias, gerente setorial de programas sociais na área de responsabilidade social da Petrobras.

Vera valoriza a saúde integral como eixo fundamental para o verdadeiro desenvolvimento. Em sua entidade, ela explicou que os programas atuam com a família e não apenas com o “enfermo”. “No começo não tínhamos nada. Eu me sentia como uma drogada por uma ideia, como tantos empreendedores sociais. Aprendemos de baixo para cima. Rifava as minhas coisas de casa para fazer dinheiro ao projeto. Assim foi criado o Plano de Saúde Familiar, depois de 18 meses com a ajuda de funcionários e voluntários. Hoje nossa metodologia é replicada em muitos centros de saúde por meio do Centro de Assistência Social, influenciando políticas públicas”, conta.

Fundada em 1991, a Associação atua no ciclo internação-reinternação das crianças atendidas no Hospital da Lagoa, no Rio de Janeiro, que recebiam alta sem estrutura básica para continuação de tratamento em casa. Cansados com o estado grave dessas crianças, profissionais da saúde e sociedade civil se mobilizaram e criaram a Associação. O Plano de Ação Familiar envolve cinco áreas importantes: saúde, profissionalização, moradia, educação e cidadania. Hoje a entidade atua com cerca de 140 voluntários e mais de 38 funcionários que dão atendimento a 250 famílias e 850 crianças e adolescentes por meio de três unidades de atendimento: Sala de Recreação do Hospital da Lagoa; sede, no Parque Lage e Casa das Oficinas/Administração, no Jardim Botânico.

Para ter um trabalho diferenciado, Vera sugere que o empreendedor tenha a capacidade de trabalhar em grupo, seguindo uma lógica de cooperação. Primeiro é necessário uma modificação pessoal. A grande crítica que sofria era justamente seu trabalho multidisciplinar, mas ela rebate: “a pobreza é multilateral”. A médica ainda questiona o papel da sociedade de consumo e estimula os participantes a ingressarem na atuação de empreendedores sociais. “Não passem suas vidas no porão do barco. Seja capitão de seus ideais, de seus sonhos.”

Da Índia para o Brasil

Um dos participantes mais esperados foi Muhammad Yunus. Idealizador do “Banco dos Pobres”, ele comentou que no início do projeto emprestava 100 mil dólares por mês sem receber nenhum dinheiro externo. Criada em 1976, a iniciativa fornece microcréditos a miseráveis, principalmente a mulheres. Elas são 97% dos 6,6 milhões de beneficiários. O indiano também produziu uma série de companhias com a franquia Grameen com o objetivo de viabilizar serviços e alimentos mais em conta para a população menos favorecida, entre elas uma joint venture com a Danone para vender iogurte mais barato a crianças da zona rural de Bangladesh.

“A gente recebia os depósitos e fazia os empréstimos. Quem pedisse teria que levar seus filhos na escola. Os maridos e mães eram analfabetos. As várias gerações anteriores a eles nunca foram alfabetizadas. Queríamos criar uma geração diferente, uma quebra do ciclo. Conseguimos colocando várias crianças na escola. O que nos surpreendeu foi que eles foram até o ensino médio, até nas universidades. Aí apareciam os problemas, porque eles não tinham como se sustentar na faculdade, já que o ensino era privado”, relata Yunus.

Para resolver essa situação, o indiano introduziu uma lei para deixar os estudos não pagos a esses jovens. Hoje muitos deles são médicos e engenheiros. Alguns estão nas universidades e se questionam: E onde vamos trabalhar depois? Yunus responde: “Esqueça esse negócio de emprego. Sua mãe tem um banco, porque essa iniciativa é de propriedade dos próprios credores. Esse banco, cuja a propriedade é da sua mãe, não tem que se preocupar. Você tem que fazer esse compromisso: nunca irei procurar emprego com ninguém. Você não vai procurar, porque irar criar. O seu desafio cresce em oferecer empregos. No começo, todos ficam assustados e olhando para minha cara, porque pensam: se não tenho emprego, como vou oferecer aos outros. Aí falo: Olha para a sua mãe, ela também não sabia fazer negócio. O primeiro empréstimo dela foi de 35 dólares e tinha achado uma grande quantia naquela época. Quando ela segurou pela primeira vez esse dinheiro, ela tremia e chorava de emoção. E hoje ela conseguiu te colocar na universidade. Se não tem boas ideias, busque com sua mãe. Você tem conhecimento e ela tem experiência”, relata o economista indiano.

Uma das saídas apontadas por Yunus é a criação de uma iniciativa chamada Gramen Intel, em que emprestará dinheiro a mulheres comprarem telefones. Isso ajudaria a criar uma rede social, para desenvolver serviços de marketing e novos negócios. Além disso, também recomendou a criação de empreendimentos sociais, com parceria com grandes empresas, para solucionar problemas sociais, como uma empresa que ajuda a trazer água limpa a comunidades, produtos químicos para combater a malária, entre outras ideias. “Fazer empreendimento social é divertido. Você não deve perder isso. Se fizerem bem isso, todos saem da pobreza. Aí criaremos o Museu da pobreza para levar nossos filhos e mostrar como era no passado. É isso que eu quero”, defende.

Serviço:

III Fórum Internacional de Comunicação e Sustentabilidade
http://comunicacaoesustentabilidade.com/2010/

Associação Saúde Criança
http://www.saudecrianca.org.br

Grammen Bank
www.grameen-info.org