Roda de conversa esclarece a inclusão da mulher no mercado da área de tecnologia no CEU Parelheiros, zona sul de São Paulo

Roda de conversa esclarece a inclusão da mulher no mercado da área de tecnologia no CEU Parelheiros, zona sul de São Paulo

Roda de conversa esclarece a inclusão da mulher no mercado da área de tecnologia no CEU Parelheiros, zona sul de São Paulo

Uma designer e duas estudantes de relações internacionais. De áreas diferentes, porém a mesma vontade de debater a questão de gênero e valorizar o papel da mulher na sociedade de hoje. “Quem domina a tecnologia, consegue propor soluções”, afirma Ariane Cor, designer e uma das idealizadoras do Minas Programam.

Na sala de telecentro do CEU Parelheiros, extrema zona sul de São Paulo, 45 adolescentes conversaram com as integrantes do Minas Programam e tiveram na prática a oportunidade de pensarem em soluções digitais para pequenos empreendimentos locais na última sexta-feira, em 6 de novembro, que foi uma das atividades da programação da São Paulo Tech Week 2015.

Estudantes do nono ano do ensino fundamental debateram sobre a questão de gênero e tecnologia. Primeiro Ariane falou sobre o tema mulher e renda e as expectativas de estudos e inclusão no mercado de trabalho para o público feminino.

Para conhecerem a realidade de cada uma delas, as meninas se apresentaram e falaram com quem vivem e o que pretendem estudar e a profissão que possuem interesse Os cursos mais comentados foram pedagogia, medicina, psicologia com enfoque para a área de recursos humanos em empresas.

Após a apresentação, a designer falou da quantidade de mulheres que optam por cursos da área de exatas. “Com o aumento do uso nas redes sociais, todas elas têm fácil acesso à tecnologia”, esclarece. Para exemplificar essa inclusão na área de tecnologia, Ariane explicou as profissões de social media e de programador. Falou o que cada uma delas faz, as ações relacionadas e a formação necessária.

Bárbara Paes e Fernanda Balbino, estudantes do último ano de relações internacionais e idealizadoras do Minas Programam, contextualizaram o direcionamento das meninas para profissões das áreas de educação, da saúde, entre outras. Também pontuaram que a escolha da profissão ainda é mercada e influenciada pela desigualdade entre homens e mulheres.

Para mostrar na prática a questão da tecnologia, as idealizadoras do Minas Programam propuseram uma atividade: criarem um blog de um negócio local de Parelheiros. Divididas em grupos de cinco, muitas desconheciam a profissão de programador e de social media, porém 90% é usuária das redes sociais, seja pelo Facebook, Twitter, Instagram, WhatsApp e outros canais. Algumas não sabiam responder a escolha da profissão, outras já falavam com mais naturalidade sobre o assunto.

Com muita conversa, cada grupo pensou no tema do blog, o nome e a plataforma que usariam (WordPress ou Tumblr, indicados pelas oficineiras). Um dos grupos escolheu criar um blog de receitas caseiras para divulgar o negócio de uma das mães das jovens, que prepara salgadinhos e doces para festas. O outro recebeu o nome de Tefaké Moura, usando as inicias das adolescentes integrantes, e iria falar sobre relacionamento, moda, viagens e trabalho para o público feminino. Outro grupo optou falar de moda em seu blog, especialmente divulgar práticas de reuso de roupas.

Das quatro jovens entrevistadas, nenhuma conhecia as profissões comentadas e acharam bem interessante a fala delas sobre a questão de gênero no mercado de trabalho e na escolha da profissão. Observando elas fazendo o exercício, muitas trocaram ideias sobre o que gostavam de fazer, o que pensaram em estudar na faculdade e os blogs que costumavam acessar.

A jovem Giovanna Cerqueira da Silva não sabia das profissões da área da tecnologia. Ela quer cursar biologia e já pesquisou sobre zoologia. Procurou até as faculdades públicas que ofertam esse curso. “A mulher ainda é considerada sexo frágil e dependente do homem. Nunca tive blog, mas fiquei curiosa em como fazer um. Elas deveriam passar pelas escolas para informar outras adolescentes sobre essas possibilidades. Muitas iriam mudar de ideia”, opinou.

Com o sonho de ser jornalista, Ana Carolina de Moura Prata, 14 anos, gostou da atividade por ter aprendido um pouco mais. Leitora de romances e livros sobre relacionamentos, ela adora os da escritora Isabela de Freitas, autora do Não se Apega e Não se Iluda.

Já a jovem Fernanda Lopes dos Santos, 14 anos, também considerou bastante interessante o conteúdo da roda de conversa e a atividade prática. “Mostra para nós, mulheres, que temos que nos posicionar na sociedade. Há profissões em que são direcionados mais para homens do que para mulheres”.

Jéssica Feitosa, 14 anos, comentou que adoraria estudar educação física, por adorar jogar handball e vôlei. Sobre a roda de conversa, a adolescente opinou: “isso mostra que nem todo mundo pensa igual”.

Depois da atividade, as adolescentes anotaram os contatos das jovens da iniciativa para esclarecerem outras dúvidas sobre como criar um blog e outras ações das redes sociais e na cultura digital.

O início

Incomodadas com essa falta de inclusão das mulheres na área de tecnologia, as estudantes de relações internacionais já compartilhavam as situações de desigualdade que vivem várias mulheres, seja no ambiente familiar, no trabalho, na sociedade. Nenhuma delas têm interesse especial por tecnologia, mas se questionaram se sua falta de interesse era por ser genuína, ou foi condicionada por uma cultura. Pesquisaram várias iniciativas dos Estados Unidos em que valorizavam meninas com ações de tecnologia, como o Girl Geek Academy.

Bárbara conheceu Ariane numa das oficinas da organização Casa de Lua e compartilharam a ideia de trabalhar com um projeto relacionado com a questão de gênero na tecnologia. A partir daí criou o Minas Programam em maio deste ano. A primeira ação foi criar um debate de lançamento em agosto.

“Desde janeiro sou freela, vive isso de perto. Em muitos projetos, a maior parte dos digitais possuem uma boa parte para a programação, isso significa 70% do orçamento. Eu fazia captação, vendas, prospectava clientes e metade do dinheiro ia para outra pessoa. Sempre tive vontade de aprender programação e acabei aprendendo na raça. Nunca fiz curso, fui fazendo, ligando para amigo e pedindo ajuda, derrubando site sem querer”, recorda-se a designer.

Além dessa experiência, Ariane compartilhou ainda que em sua vivência com a Agência Iara, em que é uma das idealizadoras, sempre se preocupou em contratar mulheres programadoras, mas tinha dificuldade em encontrá-las. Com o curso, pensei que poderia criar uma rede de programadoras que depois poderiam trabalhar com ela nos projetos.
Diferente de Ariane, Bárbara e Fernanda tinham o interesse da programação como mais um conhecimento e a possibilidade de saberem como criarem plataformas próprias para divulgarem suas ações.

A designer também ressaltou que hoje em dia as coisas possuem internet e saber como elas se estruturam até para entender questões de cidadania, acesso à informação. “As meninas ainda são bem afastadas desse conhecimento”. O caso da Malala (a jovem Malala Yousafzai) foi citado por Ariane como exemplo de acesso à tecnologia para defender a educação a meninas no Paquistão.

Bárbara lembrou que as redes sociais estão sendo muito úteis para contribuir com as denúncias de assédio e violência a mulheres. “Para combater a violência contra as meninas, um dos jeitos de combatê-las é incluir mais mulheres na área da tecnologia. Quem pensa a tecnologia, muda como ela é”, defendeu.

O curso do Minas Programam começou há três semanas. Houve 67 pré-inscritas e 30 selecionadas, no final. Os critérios utilizados foram: com menor escolarização formal, idades diversificadas, e que residiam em regiões periféricas. As interessadas responderam questões dissertativas. Na formação, elas são divididas em dois grupos, um de sete que é direcionado para tutoria de projetos, e outro mais para mercado de trabalho e com conhecimento de tecnologia. Ainda há um grupo iniciante formado por 23 meninas que fazem o básico de programação e desenvolvimento web. A formação é composta por seis encontros e à tarde as oficinas são livres, que os temas variam desde história de software livre até a transparência hacker.

“O curso não é só empoderamento técnico, mas político, para entender que isso é uma demanda. Esse comportamento não é natural”, ressaltou Ariane, que ainda contou que uma das aulas foi com a professora de sociologia da Universidade Estadual de Campinas que pesquisa a história da mulher no mercado de tecnologia do Brasil. “A ideia é incentivá-las, para se envolverem com o tema. Há muita mulher nessa área, mesmo que sejam invisibilidades”, afirmou Fernanda.

As três jovens ainda compartilharam que muitas estudantes da faculdade de ciências da computação comentam situações de constrangimento e assédio moral em suas aulas. “Elas se emocionam e lá é um espaço somente para mulheres. Muitas acham que não sabem nada, mas possuem bom conhecimento técnico. O ambiente ainda é hostil desses cursos e predominantemente marcado por homens”, comentaram.

Todos os professores dessa formação do Minas Programam são voluntários. Para atingir mais mulheres, as idealizadores estão inscrevendo o projeto em editais e desenhando um aplicativo para compartilhar as criações dessas aulas. Para isso, estão buscando recursos. “A aula de hoje foi diferente do que as meninas costumam ter lá na Casa de Lua, porque elas tiveram acesso a plataformas prontas. Nós, na formação, ensinamos por trás da plataforma, pelo código bruto mesmo”, esclareceram.

Para conhecer o trabalho do Minas Programam, acesse: http://minasprogramam.com/
Casa de Lua: http://casadelua.com.br/


Data original de publicação: 11/11/2015