Representantes de museus e espaços culturais ressaltam importância de pesquisas

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Especialiaras trocam suas experiências em pesquisas culturais (Crédito da imagem: Lilian Romão)

Diferentes profissionais da área cultural se reuniram para falar sobre a importância e o desafio de construir pesquisas culturais. No auditório da Biblioteca São Paulo, representante do poder público, do poder privado e outro da economia mista mostraram o que fazem no dia a dia para avaliar a área cultural, como construir indicadores culturais e mensurar a mudança cultural, como as políticas culturais influenciam a construção e o uso dos indicadores e os principais desafios na avaliação nesse segmento. Este foi os pontos centrais da palestra O Desafio na Construção e o Uso de Indicadores Culturais, organizado Rede Brasileira de Monitoramento e Avaliação e Instituto Fonte.

Para dialogar essas questões, foram palestrantes: Liliana Sousa e Silva, socióloga, doutora em cultura e informação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo e é assessora técnica na Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo; Gabriela Aidar, especialista em estudos de museus de arte pelo Museu de Arte Contemporânea e em museologia pelo Museu de Arqueologia e Etnologia, da Universidade de São Paulo, e atualmente coordena os programas educativos inclusivos da Pinacoteca de São Paulo; e Mauricio Trindade da Silva, doutorando em sociologia da cultura pela Universidade de São Paulo e gerente adjunto do Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo.

O evento faz parte da programação no Brasil da Semana de Avaliação na América Latina e Caribe, promovido pelo CLEAR-LA: http://www.clear-la.org/home/eval2017-brasil/

A primeira a falar é Liliana, que defendeu a importância de realizar pesquisas para captar as especificidades de cada objeto cultural. “Pensar para cada tipo de objeto cultural os temas transversais envolvidos é uma das questões. Um exemplo é a contação de histórias, que não é somente uma atividade literária”, afirmou. Ela defendeu a construção de indicadores que dessem contam de avaliar os projetos culturais, considerando sua diversidade. “Temos que pensar na diversidade de público, na qualidade da experiência, e ainda é difícil avaliar o impacto cultural, porque em geral sempre precisamos defender a importância da cultura e ainda pensamos em impactos econômicos e sociais. O nosso próximo foco é qualificar as pesquisas e referências para melhorar essas ações”.

Lilian, da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo (Crédito da imagem: Liliam Romão)

Gabriela, da Pinacoteca, explicou o curso Ações Multiplicadoras voltado à formação de educadores sociais. Nessa capacitação, o público-alvo é formado por educadores atuantes em órgãos públicos ou privados que desenvolvam projetos e programas socioeducativos. O curso possui 50 horas divididos em 17 aulas semanais. São em geral 28 participantes por edição. É anual desde 2005 é oferecido. Ela compartilhou como foi feito a pesquisa avaliativa sobre esse curso.

A ideia desse levantamento foi responder quem participa dessa formação, o que ele desenvolve, em que contexto ele atua e com que públicos estão envolvidos, em quais organizações sociais e o que ele vem buscar nessa capacitação. Também perguntaram quais mudanças em suas práticas socioeducativas se originam a partir da sua participação no curso. O objetivo desse curso é oferecer ao participante subsídios para a elaboração, execução e avaliação de projetos educativos em arte e cultura voltados à inclusão sociocultural dos grupos com os quais atuam para potencializar sua atuação socioeducativa. Essa pesquisa foi baseada nos anos de 2005 até 2015, com 306 participantes e 225 projetos educativos.

Educadores, gestores e outros profissionais da cultura participaram do evento (Crédito da imagem: Liliam Romão)

A primeira etapa foi a análise das fichas de inscrição dos participantes, segundo a análise dos projetos educativos elaborados, e, em terceiro, a aplicação. Com os dados levantados, houve uma experiência prévia, fichas, projetos educativos e levantamento de indicativos. A equipe da Pinacoteca conseguiu levantar três tipos principais de impacto: impacto do curso com os educadores/participantes – eles começaram a compreender melhor sobre arte e cultura; desmitificação do museu como espaço a todos e aproximação com conceito de arte em geral. Outro dado foi que o educador passou a organizar melhor e se sentir mais seguro para debater arte e cultura.

Os principais resultados da pesquisa foram: 1) perfil dos participantes – a maioria dos participantes é do sexo feminino concentrada numa faixa entre 20 e 40 anos e com curso superior completo; em geral, são pessoas formadas nas áreas de ciências humanas; maioria atua como educador, professor ou oficineiro, de forma remunerada; 2) perfil das organizações sociais – a maioria das organizações dos quais os participantes fazem parte são da sociedade civil (OSCs) e atuam na área de assistência social; 3) perfil dos públicos das organizações – 75% das instituições dos quais estão inseridos os participantes do curso lidam com jovens e adultos em situação de vulnerabilidade social.

Esse estudo também constatou que os impactos nos educadores foram: fortalecimento suas identidades pessoais e profissionais e melhorar sua autoimagem, vínculos de sociabilidade, dificuldade de aspectos subjetivos (71% é o número mais alto), e após o curso a instituição respeitou mais o trabalho do educador social e essas organizações começaram a buscar novas parcerias com órgãos culturais e essa formação ainda estimula muito os estudantes a conhecerem diversos espaços públicos de São Paulo.

Quem frequenta o Sesc?

Mauricio, gerente adjunto do Centro de Pesquisa e Formação do Sesc São Paulo, compartilhou a pesquisa sobre o que desenvolveram o perfil do público frequentador, o que é feito, vivenciado e praticado por ele. Para levar adiante, foi contratado duas instituições: Laboratório do Núcleo de Antropologia Urbana, da Universidade de São Paulo, e o Centro de Estudos de Cultura Contemporânea. Esse levantamento foi baseado nas seguintes unidades: Belenzinho, Consolação, Itaquera, Pompeia, Santana, Santo Amaro e Vila Mariana. O período avaliado foi de janeiro a setembro de 2015 de forma qualitativa e no aspecto quantitativo foi de junho a agosto de 2015.

A pesquisa foi baseada numa expedição etnográfica, que possui as seguintes características: pesquisa prévia sobre as características das unidades do Sesc, a programação e o entorno; conversa prévia com funcionários do Sesc de cada unidade (para ter percepção de singularidade); verificação das regras do Sesc; observação sistemática e permanência intensiva em campo – olhar de perto e de dentro; vários pesquisadores revezando em campo, com compartilhamento de olhares e relatos; e aproximação com o público por meio de identificação pessoal e institucional.

Em um segundo momento, essa expedição possibilitou: conversas longas – acompanhando participante nas atividades; elaboração de relatos de campos densos; ao todo são 2500 horas de observação como participante e 2000 páginas de relatos; utilização do software de análises qualitativas, conhecida como MaxQDA, que permite verificar categorias recorrentes (em forma de vocabulário controlado), correlacionado dados e indicando exceções; estabelecimento de quatro eixos temáticos: 1) o Sesc e a cidade (circuitos), 2) temporalidade/férias, 3) gerações e 4) pertencimento/acolhimento.

Do público consultado, foram identificados: 44% credencial plena, 24% sem credencial, 23% dependentes, 7% credencial em atividade e 2% credencial MIS. “O Sesc tem um instrumento de estatístico reformulado há dois anos. Tudo é registrado e existe uma maneira de qualificar para entender o atendimento. Foi observado que as mulheres frequentam mais esses espaços do Sesc do que homens. Nas unidades Itaquera, Santos e Vila Mariana, os idosos frequentam mais do que os jovens. 56% são do sexo masculino e 42% do feminino. Já as pessoas brancas predominam mais nas unidades: Vila Mariana, Araraquara e Santos. Escolaridade superior fica em alta na Vila Mariana e Consolação.
Um dado surpreendente foi a frequência em atividades esportivas: 26% vão de um a dois dias por semana para a academia, 22% vão para natação, 19% em hidroginástica e 9% para corrida e/ou caminhada. 51% dos frequentadores realiza uma atividade cultural.

Na pesquisa qualitativa, constatou-se que o Sesc é considerado uma instituição muito regrada e o público fica o tempo todo negociando as regras; há grupos (por exemplo, time de vôlei e xadrez) circulam nas unidades da cidade para usarem espaços; Sesc Verão não traz tanto público novo para a instituição. Com esse levantamento, não teve campanha dessa iniciativa no ano passado, porque não estava aumentando usuários de atividades esportivas e contribuiu para os recursos financeiros irem para a programação da unidade.
Outro dado bem importante é que os grupos de terceira idade possuem índice alto de sociabilidade. “Todo mundo se conhece e se ajuda mutuamente”, afirmou. A pesquisa ainda não está publicada.