Relações entre a natureza e as comunidades locais para a segurança hídrica

Profissionais defendem usar recursos naturais de forma estratégica para prolongar a vida da água.

Soluções da natureza para segurança hídrica
Crédito Susana Sarmiento

Três diferentes especialistas mostraram soluções baseadas na natureza para melhorar a vida natura na Terra. Um falou de fundos de água, outro focado em sistemas de financiamento de projetos hídricos e a terceira palestrante sobre agrofloresta. Todos esses assuntos foram debatidos no painel da tarde do quinto dia do 8º Fórum Mundial de Água no Centro de Convenções Ulysses Guimarães em Brasília (DF).

O foco central desse encontro foi mostrar as necessidades dos indivíduos e da natureza intimamente relacionadas, levando em consideração que toda a vida no planeta depende de sistemas naturais funcionais e saudáveis. O coordenador e moderador dessa atividade foi Samuel Barreto, especialista de água e da The Nature Conservancy (TNC), já outros palestrantes foram: Fabiana Penereiro, da Agrofloresta Brasil, Mutirão Agroflorestal; e Fábio Barbieri, biólogo e economista e atua em projetos de restauração, infraestruturas naturais e mudanças no uso da terá da WRI Brasil.

O mediador ressaltou a importância de visão sistêmica para soluções estruturantes em segurança hídrica. Levantou ainda ações relacionadas com isso: desmitificar as soluções baseadas na natureza, geração de serviços ecossistêmicos, contribuição para segurança hídrica e outros benefícios; a coalizão Cidadão pela Água –  com foco em áreas prioritárias para o abastecimento das regiões metropolitanas; e instrumentos econômicos. Ainda compartilhou a radiografia do país com suas reservas hídricas. “Mais de 80% da água está na região costeira, com 16% de água doce”.

Ainda comentou que o relatório da Nações Unidas traz quantas pessoas vivem em regiões que já sofrem de estresse hídrico e ainda envolve quatro elementos sobre o olhar da água e gestão de riscos: 1) físico/operacional; 2) regulatório; 3) reputação; e 4) financeiro.

Samuel ainda disse que atualmente há tecnologias de reuso da água, como tornar o uso da água doméstico mais eficiente para atividade da agricultura. Ainda há muitas pessoas sem saneamento básico e esse problema tem previsão de ser solucionado a partir de 2040. Citou o programa Produtor de Água, em que melhora a atividade produtiva para gerar serviços ambientais. “Para cada dólar investido na área de saneamento, quatro ou cinco dólares deixam de ser gastados na parte de saúde. Essa contabilidade é bem importante”.

O mediador exemplificou com o caso de Nova York, que investiu $ 1,5 bilhão com projeto de proteção aos mananciais para não gastar com tratamento de água poluída. “Quando falamos de escala para gerar resultado, que é outro desafio, também passa por um período”, analisou e ainda listou os objetivos de fundos de água: melhorar ou manter a qualidade da água e quantidade; manter os fluxos regulares de água ao longo do ano; manter ou aumentar a biodiversidade do ecossistema natural, tanto de água doce e terrestre; melhorar ou manter o bem-estar e qualidade de vida para as comunidades humanas a montante humano; reduzir custos no tratamento de água investindo na natureza; e cria um mecanismo de financiamento sustentável a longo prazo.

Para ele, é importante observar esses mecanismos e modelagens para gerar processos de tomada de decisão. Para isso, é fundamental buscar dados sobre crescimento populacional, qualidade de água e juntar todos os dados estruturados numa linguagem desse tipo. Ele ainda calcula um aumento de 45% nos próximos anos e outros

“Para a água, não tem uma solução única, é preciso ver o cardápio que se integra melhor naquela paisagem, da restauração, de irrigação e da questão de instrumentos financeiros econômicos”, afirmou. Compartilhou ainda com o público monitoramento, pesquisa e mapa digital com dados do município olhando a propriedade, as bacias daquela região, daquele local e o proprietário que irá recuperar, aonde vai esse recurso hídrico, capacitação e parceiras. O grande desafio é aumentar a escala e ajudar os proprietários rurais e que ele dobre seu rendimento junto com a melhor prática produtiva olhando a parte social.

Nos últimos slides, Samuel ainda mostrou mecanismos financeiros de alavancagem: comitês de bacias investido em Pagamento por Serviços Ambientais (PSA); arcabouço legal para criar condições ao estabelecimento do PSA; grandes usuários de água avaliando o seu risco em relação para a segurança hídrica e tomando medidas de conservação para além de suas plantas de produção; compradores voluntários dos serviços ambientais (grandes usuários) investem em PSA para garantir qualidade de água e regularização de vazões; tarifas de água (preço de água na coleta, tratamento, distribuição e conservação das bacias); recursos provenientes da compensação ambiental ou conversão de multa; e grandes investimentos.

Soluções da natureza para segurança hídrica
Crédito Susana Sarmiento

Aspectos financeiros de restauração

Fábio Barbieri focou sua apresentação no projeto de três bacias no Rio de Janeiro, São Paulo (Sistema Cantareira) e Espírito Santo (Jucu). Ele ressaltou que hoje há possibilidades de restaurar algumas bacias em áreas prioritárias comparando o efeito para o tratamento e a produção de água. Ainda explicou que a própria floresta pode fornecer sedimentação sistêmica para fornecer esse recurso tão vital. Portanto, ela vai conseguir absorver mais e devolver mais água aos rios.

Em São Paulo, o palestrante esclareceu que a iniciativa está incorporada com o trabalho da Nascentes, um programa que irá restaurar 40 mil nascentes do Estado paulista. No Sistema Cantareira, a externalidade positiva é conter sedimentos. Vão simular quatro mil hectares para restauração de 12. Foi preciso negociar muito para usar as áreas que possuem sedimentação. “Se restaurar em 10 anos, somente vai ter o resultado 100% daqui uns 44 anos. Cada pedaço de floresta com respectiva idade consegue fornecer de zero a 80% de uma floresta madura”, explicou.

Fábio ainda comentou que o resultado de 38 milhões de dólares para a redução da sedimentação foi de 33% para terminar o trigésimo ano (com 30 anos de financiamento). “Não chegaríamos a 100% da floresta mais velha e seria aquele pedaço todo plantado no primeiro ano. Por isso usamos uma equação matricial para restringir o custo evitado de drenagens e riscos de quase 100 milhões de dólares. Para cada um real investido, retorno dois dólares”.

Outra questão avaliada foi a quantidade de água baseada na neblina. A floresta pode captar e tem superfície absurda por conta de decantação nas folhas de condensação. “O resultado traz que 1,25% da água produzida nesse sistema consegue abastecer 120 mil pessoas durante um ano”, disse animado.

No Sistema Jucu, a água vem do mar bem diferente do sistema Cantareira. “Lá com reservatório começou em 2013 a fazer 1.200 hectares e com um banco de proprietários e estão aderindo a região Jucu. Sai de uma turbidez próxima de 30 e cai para 10 e isso aqui com reservatório custa um pouco menos”. Ele ainda explicou que esse processo em 30 anos custa em torno de 217 milhões e, se fizerem reservatório, sobre para 221 milhões. Se fizerem 1.200 hectares, reduz também e o resultado final de reflorestamento sai por US$ 11 milhões. E ainda se antecipar os seis anos para um, há um custo de US$111 milhões. Ele ainda sinaliza que o principal desafio é obter dados. Os dados não são fornecidos diretamente do sistema de abastecimento público e parcerias.

Ações agroflorestais podem ser saídas

Fabiana Peneireiro, agrônoma e mestre em ciências florestais pela ESALQ da Universidade de São Paulo, coordenou projetos com pesquisa e educação agroflorestal no contexto amazônico. A palestrante já iniciou sua fala se dizendo agricultora e atualmente entrega cestas orgânicas a 20 famílias. Ela acredita que a produção é resultado de recuperação de áreas degradantes em solo bem degradado com premissas agroflorestais. “Os nossos antepassados já sabiam de técnicas para deixar a terra de repouso e após anos ela ia se tornaria produtiva novamente”.

Ela defendeu um tipo de agricultura voltada para a saúde das pessoas e do planeta. Por isso questionou o papel da sociedade e ressaltou que vê a humanidade cada vez mais parasita do planeta. “Importante lembrar que as nossas ações impactam na felicidade e na vida das outras pessoas. Não temos direito de degradar a água”.

Soluções da natureza para segurança hídrica
Crédito Susana Sarmiento

Ela comentou que a agricultura moderna conta o solo, consequentemente as pessoas e os agricultores. Esse tipo de produção expulsa a água. E ao contrário, a sociedade precisa de muita biomassa para dinamizar a vida no solo. “A lógica da natureza é da complexificação da vida. Essa estratificação traz otimização da energia solar dos nutrientes para criar muita biomassa e isso ajuda a engordar a mãe terra”.

A agrônoma ainda disse que quando cumprimos nosso papel, por outro lado a natureza faz o trabalho dela. “Quando a biodiversidade trabalha, você nota os processos de equilíbrio. Nós precisamos trabalhar em conjunto com a fotossíntese. Quando cubro o solo, precisamos de bastante matéria orgânica. Todos os seres desempenham seu papel para deixar o solo mais poroso, ele se torna uma esponja e assim as nascentes podem correr”.

Sua fala foi contextualizada por inúmeras fotos para ilustrar a recuperação de um sítio com mistura de sementes. Ela defende os conceitos de agroecologia, dessa forma, pratica o reuso da água, o consumo das PANCs, montar as hortas perenes, valorizar os quintais e plantas que não demandam tanta água. Por isso, ela apresentou algumas plantas que não demandam tanta irrigação. “É importante também aproveitar a matéria orgânica. A madeira no solo também segura a água na terra. As ações múltiplas ajudam a tratar esse solo. Essencial pensar no planejamento a partir da bacia hidrográfica de forma solidária”.

Acesse o site do evento: http://www.worldwaterforum8.org/

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