Rede transforma filtros de cigarro, a popular bituca, em papel

Aparentemente uma ponta de cigarro parece inofensiva, mas essa única junta com outra e outra… No final do dia temos 34 milhões de filtros, ou como são popularmente conhecidos bitucas, ou guimbas de cigarros, acumulados na capital paulistana, de acordo com Rafael Henrique Siqueira Rodrigues, presidente da S.O.Sustentabilidade gestora da Rede Papel Bituca (RPB). Diz ainda que uma bituca de cigarro possui aproximadamente quatro mil e 300 substancias tóxicas, que, em contato com água, a torna imprópria para consumo, entopem as bocas de lobo, e, por demorarem cerca de dois anos para se decomporem, afetam a flora e a fauna. Também são responsáveis por cerca de 25% das causas de incêndio urbano. Você poderia imaginar que um objeto tão pequeno causaria tanto impacto social e ambiental?

Pensando nesse viés, em 2003 o aluno, Marco Antônio, junto com a professora de artes visuais da Universidade de Brasília (UNB), Therese Hosmann, idealizaram um destino adequado para os filtros de cigarro: transformar em papel reciclado. “Nós atualmente fazemos produtos, como capa de cadernos, a partir dos cigarros apreendidos pela polícia federal e das perdas da Fábrica Souza Cruz. Porém não temos estrutura para uma produção em larga escala”, diz a professora.

Por possuírem algo em comum, a correta destinação da ponta do cigarro, a Rede Papel Bituca, um conjunto de iniciativas não governamentais sem fins lucrativos e empresas, comprometidas com o meio ambiente, em conscientizar os fumantes e gerar renda para comunidades de baixa renda, propuseram uma parceria aos envolvidos desse projeto da universidade.

Já, em 2008, a Rede Papel Solidário, uma das integrantes da Rede Papel Bituca, recebeu um cliente que queria transformar bituca em papel e, para isso, foram realizados diversos estudos. “A pesquisa foi desenvolvida a partir de um modelo semelhante visto na Europa, porém o cliente percebeu que o projeto deveria ficar nas mãos das ONGs, pois esse tinha finalidade de melhorar o meio ambiente e não gerar renda. Então, ele nos doou a patente dessa tecnologia social”, diz a diretora da Rede Papel Solidário, Leila Novak.

Atualmente, a S.O.Sustentabilidade é responsável pela gestão da RPB . Ela e outros integrantes da rede fazem parte da Rede Papel Solidário, que possui diversas tecnologias sociais, e uma delas é o papel bituca. A Rede Papel Solidário reúne vários negócios sociais com a oferta diversa de produtos eco-solidários. A ideia é atuar como rede referência em empreendedorismo solidário sustentável ativa e autogerida.

“Queremos com esse projeto dar a conscientização ambiental por meio de uma investigação dos impactos que esse micro-lixo traz, mostrar para o fumante que o mal não é só para ele, mas ,sim, para o resto. A gente faz isso incluindo esse item na cadeia seletiva de uma forma que gere inclusão social e renda como premissa a sustentabilidade”, diz Rafael Henrique.

Quem faz o que

Por ser uma rede, a Papel Bituca envolve atores e ações diferenciadas. Suas atividades são distribuídas igualmente entre os parceiros, assim como o dinheiro arrecadado por meio do serviço prestado para as empresas. O programa funciona da seguinte forma: a S.O.Sustentabilidade é a ONG responsável pela gestão que oferece o serviço de coleta e conscientização ambiental dos seus funcionários e clientes da empresa, assim que a rede é contratada, o estabelecimento compra um coletor de filtros e recebe um reservatório de aproximadamente 20 litros.

Quando os reservatórios ficam cheios, a rede é acionada para que a empresa responsável pela coleta encaminhe os reservatórios aos Postos de Entrega Voluntária (PEV), locais de armazenamento. O outro passo é destinar esse material coletado para um local de reciclagem como a Seed Paper, empresa onde produz o papel bituca e os produtos que usam como matéria prima a bituca reciclada, como cadernos, calendários e crachás.

“O papel é usado no acabamento dos produtos. Quem irá consumí- los no fim é o próprio estabelecimento que se ofereceu a recolher os filtros. Quando o cliente escolhe um cardápio, ou caderno, ele não está comprando apenas um objeto, e sim a história da ONG, das pessoas que produziram aquilo”, diz o presidente da S.O.Sustentabilidade.

O preço do serviço depende de localização geográfica, da quantidade de vezes que serão recolhidas as bitucas, da quantidade de fumantes que existe no estabelecimento. O gestor ainda alerta para os fumantes que desejam contribuir com a causa “os filtros podem ser entregues nas PEVS. Mas, isso é apenas para um munícipe”.

Segundo a diretora da Rede Papel Solidário, ainda é preciso incluir o catador no processo e mostrar que essa também é uma fonte de dinheiro, porém o que dificulta isso é que poucos conhecem o processo de produção do papel bituca.

Já Rafael Henrique ainda comenta que a ideia é capacitar novos pólos produtivos, ou seja, multiplicar essa tecnologia social, para que ela possa ser implantada e gerar renda e inclusão localmente em diversos locais.

Como é feito o papel bituca

Segundo Sergio Martinho, presidente da Seed Paper, o processo de transformação da bituca em papel é demorado, pois o tempo para ficar pronta uma folha do tamanho de 66 centímetros por 96 centímetros é de aproximadamente uma semana.

No processo de fabricação, a bituca é lavada e colocada em molho junto com alguns produtos químicos durante um período para desintoxicação. Quando livre de suas toxinas, os filtros serão batidos no liquidificador que resultará em uma massa. Essa será colocada novamente em um tanque com água em que mergulharão os bastidores de náilon para moldar os futuros papéis. E, por último, são estendidos para secar.

Serviço:

Rede Papel Bituca
www.redepapelbituca.org.br

Veja pelos vídeos como funciona essa rede: http://bit.ly/OA64b5