Realidade distintas, mas desafios atuais e pertinentes no Brasil e Finlândia

O 2º debate do Fórum Internacional de Educadores reúne gestores de escolas técnicas dos dois países em contexto da pandemia.

Foto de criança negra usando notebook para ensino a distância.
Gestores falam das adaptações e superações de professores no processo de ensino-aprendizagem em tempos de pandemia de dois países distintos. (crédito da imagem: Seventyfour/AdobeStock)

Com o tema A realidade educacional antes, durante e pós-pandemia: Brasil e Finlândia, o 2º dia de debate do Fórum Internacional de Educadores, na última terça (04 de agosto), mostra como está a educação na escola técnica da Finlândia e no Senac São Paulo, considerando o protagonismo dos sujeitos e o trabalho por projetos, o que está sendo feito e proposto para as ações no retorno dos alunos aos espaços escolares pós-pandemia nesses tão distintos contextos.

Para mostrar essas duas realidades diferentes, o encontro conta com a participação de: Aime Virkkila Accorsi, reside na Finlândia desde 2007 e é mãe de uma adolescente de 17 anos que foi alfabetizada lá e está iniciando o 3º ano do ensino médio em um curso técnico de negócios, atuou em eventos culturais, empresariais e educacionais em parceria com as iniciativas pública, privada e de ONGs, coordenadora e co-fundadora do Instituto Isokoti, em Penedo (RJ); Hanna Azevedo, formada em Design Gráfico pela Lahti University of Applied Sciences (Finlândia) e em Design de Mídia pela Faktia, Vocational College for adults, master of Art pela University of Art and Design (Finlândia) e possui formação pela Escola Superior Artística do Porto (Portugal) e pelo Institute of Art (Finlândia), professora de mídia e design gráfico em curso técnico; e Gilberto Garcia da Costa Jr, mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, trabalha no Senac há 24 anos e há 15 atua como Gerente de Operações responsável pela coordenação de unidades do Senac no interior do Estado de São Paulo. A mediação ficou com Márcia Cristina Fragelli, pedagoga, especialista em Gestão Escolar e Recursos Humanos, Psicopedagogia e Educação Especial, estre e doutoranda em educação, coordenadora educacional no Senac São Paulo, pesquisadora e autora de livros na área educacional.

A palestra integra as discussões do Fórum Internacional de Educadores, um evento promovido pelo Senac São Paulo que ocorrerá até dia 08 de agosto com uma programação diversa sobre educação em um contexto pandemia, caminhos e troca de práticas, soluções criativas e efetivas e novas formas de trabalho para aprendizagem no século 21. Os próximos temas abordados serão: políticas públicas educacionais – desafios e dilemas e diálogo entre família e escola e a sensibilidade do não visível. Confira programação completa aqui: http://www1.sp.senac.br/hotsites/blogs/covid19/forum_educadores/

Hanna inicia sua fala pontuando que a escola não é somente fazer números e diplomas, mas quer que o aluno se sinta mais preparado para a vida de trabalho e que a motivação venha dentro dele. Ela esclarece que as escolas da Finlândia nesse segmento possuem parâmetros para organizar sua aula e dar motivação ao aluno. “Quando começou o coronavírus, ninguém estava preparado em nenhuma parte do mundo. Aqui preparamos muito para a responsabilidade e autonomia por parte dos professores. Aqui sentimos muito orgulho de sermos professores e você quer ver como seu aluno está aprendendo. No começo, cada professora com seu conhecimento e responsabilidade foi descobrindo. Ninguém comunicou o que teria que fazer, cada um com seu jeito e que faria nessa situação. Depois o diretor da escola começou a ver que eles precisavam comunicar e perguntavam como estavam lidando com seus alunos”, conta.

Após duas semanas de paralisação, o diretor da instituição aonde Hanna atua marcou reuniões uma vez por semana para escutar esses professores e eles tinham espaço para expor suas ideias, seus problemas e cada encontro contava com quatro apresentações. Depois de dois meses desses encontros os diretores e supervisores já sabiam que os professores lidavam com a situação e toda equipe atenta com as dificuldades.

Hanna explica que os professores usam programas pesados e os alunos com seus notebooks muitas vezes não conseguem carregar. A instituição liberou o uso de outros programas mais acessíveis. Ela possui duas filhas, uma no primeiro grau e outra no segundo grau, e contou com apoio do suporte da instituição escolar. Em relação ao contrato do aluno para atuar em empresas, como estágio, ela conta que em geral as instituições dão autonomia ao aluno negociar que tipo de trabalho querem e o formato do tipo de contrato, sempre acompanhado da supervisão da instituição escolar. “A educação aqui é pública a todos e vivemos um país democrático. No primeiro grau, os primeiros seis anos, os alunos têm acesso a todas as aulas, somente no segundo grau eles vão para a área que possuem interesse”, revela e ainda conta que com a mudança no plano de educação feita nos últimos dois anos a tecnologia faz parte de todas as disciplinas, que prevê o fornecimento de labtop para cada aluno levar para sua casa e acompanha-lo em seu trabalho. Já na escola, antes da pandemia, as avaliações são feitas sempre ao lado do estudante na sala de aula.

Aime compartilha a sua experiência da educação da sua filha na escola primária lá e depois no ensino técnico. “Tive maior impacto na adaptação da sala de aula era como se fosse nossa casa, a decoração e a mobília remetiam muito e os trabalhos manuais. Cada bairro possui uma escola. Até o nono ano o ensino é obrigatório e os alunos não pagam pelos livros. Depois os estudantes optam por ensino médio direcionado para a universidade ou ensino técnico”, esclarece. Sua filha optou pelo ensino técnico e informa que entre abril e maio se dá a busca por estágio para os estudantes colocarem em prática o que aprenderam, eles mesmos buscam seus empregos e contrato. Na turma contam com uma diversidade grande de faixa etária de estudantes e muitas aulas já são on-line, o aluno pode escolher como faz a tarefa dele e assiste suas aulas. “Muitas pessoas de fora sentem que as crianças são bem autônomas. A conversa é entre aluno e professor, o pai é testemunho”, ressalta.

A co-fundadora do Instituto Isokoti ainda fala da grade curricular a todos os alunos para alcançarem os mesmos objetivos e fazem provas a cada dois anos. Também conta da diversidade de atividades feitas pelos professores junto com os alunos, como teatro na aula de História e criação de tabuleiro, por exemplo.

Gilberto atenta para diferença regional e socioeconômica entre os dois países. “Finlândia é um dos países que mais se destacaram no combate da pandemia. Tem uma média de 7.500 casos confirmados e 330 mortes. Em relação ao Rio de Janeiro (Estado com população mais próxima à Finlândia), há 168 mil casos, com 13.600 mortes”, pontua.

O gerente de Operações do Senac São Paulo explica o movimento Pontes, iniciado no final de 2012 e perpassa por toda instituição no seu modo de ensino e internamente entre os funcionários, que são quase 7 mil no Estado de São Paulo. Com o lema Somos todos Educadores, o movimento faz diferença para uma instituição criada em 1946 por ter envolvido todos os setores da organização em suas 60 unidades. Reforça que todos têm papel de educadores e se sentem envolvidos e orgulhosos em trabalhar num local que pode transformar o país de algum jeito. “São muitas diferenças entre os dois países, mas é interessante ver pontos em comum”, afirma.

Assista aqui o debate na íntegra: https://www.youtube.com/watch?v=ZMVUAZO6W6w&t=927s

*Notícia atualizada no dia 10 de agosto de 2020.