Quem são as mulheres negras e indígenas na inovação e tecnologia?

Levantamento da organização Olabi reúne entrevistas, dados, vídeos, histórias e um panorama geral do Brasil sobre representatividade de gêneros e etnias na área de inovação.

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O levantamento entrevistou 570 histórias de mulheres negras e indígenas de 17 a 67 anos, das cinco regiões do país. (crédito da imagem: divulgação)

Onde estão as mulheres negras e indígenas usando a tecnologia para inovação social? Essa foi a questão central do estudo realizado pela organização social Olabi chamado Pretalab, homônimo de um dos projetos. Trata-se de um mapeamento criado a partir de um formulário respondido pelas entrevistadas de forma on-line. Realizado de março até dezembro do ano passado, foram 570 histórias de mulheres negras e indígenas de 17 a 67 anos, das cinco regiões do país.

A ideia do estudo é falar sobre a necessidade e a pertinência de incluir mais mulheres negras na inovação e na tecnologia. Para isso, o estudo mostra dados dessa realidade feminina nesse segmento: 20% das entrevistadas conheciam alguma iniciativa que ligava mulheres negras à tecnologia, somente 22% entraram na área por meio de centro formal de ensino (como escola técnica e universidade) e pouco mais da maioria: 52% acreditam que a internet, grupos informais de apoio ou outras formas autodidatas são o melhor caminho para aprender assuntos ligados à tecnologia.

Silvana Bahia, diretora do Olabi e coordenadora do Pretalab, comenta que todos nós consumimos tecnologia, mas quem produz é um grupo seleto, em geral, formado por homens e brancos. Observava a pouca quantidade de mulheres negras nos eventos em que frequentava de tecnologia e inovação. “A partir daí pensamos em como estimular mais negras e indígenas nesses ambientes. Criamos a Olabi em torno de uma causa e com o mapeamento queremos levantar e discussão sobre inclusão delas”, afirma.

Quem são essas mulheres? 96% negras e 4% indígenas. A maioria (95,2%) se identifica com o gênero feminino. Sobre a faixa etária: 36% possuem de 17 a 24 anos de idade, 24% de 25 até 29, 28% de 30 até 35 anos e 17% de 36 até 45 anos de idade. 60% delas são jovens e 40% são adultas.

Em relação à ocupação delas, estudante sem especificação de área está no topo (18,6%), em seguida aparecem: TI/tecnologia (12,8%), comunicação (10%), design (5,8%), administração (5,3%), área de educação (5,3%), e outros. A maioria está ocupada com 985,5% e 4,5% estão desempregadas. 78,8% não tem filhos, 20% afirmaram ter pelo menos um. Entre as mulheres negras, 18,8% disseram ter pelo menos um filho, enquanto no grupo das mães, as indígenas foram 43,5%, isto é, 10 do grupo de 23 respondentes.
O Sudeste é a região de onde vêm 57,7% das mulheres negras e indígenas que atuam na área de tecnologia. Se consideradas em separado, as primeiras são 58,3% do Sudeste e as segundas são 43,5% da mesma região. O Norte é das cinco regiões brasileiras com menos representantes negras (4,4%) e o Centro-Oeste ao lado do Sul são as regiões que menos têm indígenas no levantamento.

A diretota do Pretalab ainda afirma que é importante criar novas narrativas e espaços para essas mulheres ocuparem em várias partes do país. Esse empoderamento contribui diretamente ao fortalecimento da autoestima delas.

O estudo mostra como se deu o contato delas com essa área. Em primeiro lugar, o contato foi em centros de ensino formal, como escola ou faculdade e, em seguida, pela internet. 22% na escola, na faculdade ou em outro centro de ensino formal; 18% pela internet; 17% em grupos de apoio com pessoas parecidas comigo; 14% no mercado de trabalho; 11% em pequenas escolas especializadas em temas específicos; 11% informalmente, autodidata ou com amigos e 6% em iniciativas sociais, centros comunitários ou outros espaços de livre formação.

A forma como elas entraram em contato com a área tem relação com a faixa etária. As jovens entre 17 e 24 anos se referiram em primeiro lugar aos centros de ensino formais como portas de entrada para o universo tecnológico. Em segundo lugar, assim como o total de mulheres que participaram do levantamento, as jovens negras até 24 anos indicaram a internet como o seu ponto de contato com o campo. Também dá para observar que quanto menor a idade delas maior é seu contato informal com a área de tecnologia e inovação e o que há o interesse desde cedo por este campo do conhecimento entre as mulheres.

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Estudo traz dados, vídeos, entrevistas, histórias e panorama da área. (crédito da imagem: divulgação)

E como se dá esse envolvimento? Seu campo de atuação está relacionado com comunicação digital, empreendedorismo digital (inovação) e do ativismo (também ligado com temas de inovação). Já aquelas que se envolveram com a área a partir das Engenharias, Ciências Exatas e do Desenvolvimento de Hardware são minoria.
Silvana também chama atenção para a importância o acesso e permanência desse público nas faculdades. Ressalta ainda o papel de políticas públicas inclusivas.

Outras perguntas foram: Você se sente confortável em aprender com professores/tutores homens? 46,3 responderam sim e 39,5% não. Você tem algum projeto em desenvolvimento ou que deseja desenvolver em alguma área da tecnologia? 52,3% afirmaram que sim. E conhece outros projetos que trabalham com mulheres negras ou indígenas e tecnologia para nos indicar? 58,9% responderam que não.

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A diretora do Pretalab defende que o empoderamento e criação de espaços para essas profissionais contribui para fortalecimento da autoestima. (crédito da imagem: divulgação)

29,1% responderam que se sentiram atraídas pela inovação, 14,6% pela transformação, 123,9% devido ao alcance, 11,2% outros motivos, 10,5% pelo conhecimento, 9,6% pela carreira, 4,2% dinamismo, 3,2% paixão, 2,5% promoção da igualdade racial e 1,2% não responderam.

Silvana fala ainda que a Olabi, por meio do projeto Pretalab, presta consultoria a empresas interessadas em terem equipes diversas. Contribuíram com as seguintes iniciativas: Minas de Dados, uma imersão focada em mulheres negras sobre dados, narrativas, tecnologia e governo aberto; e a plataforma digital Mulheres Negras Decidem, com objetivo de ajudar com dados os movimentos de mulheres negras que buscam maior representatividade na política por meio de processos eleitorais: http://mulheresnegrasdecidem.org/. Também a criação de um projeto de recrutamento de programadoras negras, chamado Enegrecer a Tecnologia: https://www.thoughtworks.com/pt/enegrecer

Criado em 2014, o Olabi conta com uma série de projetos sociais e já trabalhou com empresas, fundações e institutos, entre eles a Fundação Ford (principal mantenedora), Museu do Amanhã, Shell e Instituto Nacional de Tecnologia. A organização trabalha em favor da inovação na educação, empoderamento feminino e sustentabilidade, estimulando mudança de cultural em prol da diversidade e da redução das desigualdades sociais. Integra a rede global dos fab labs, conhecidos como laboratórios de fabricação, criado no MIT pelo Global Innovation Gathering, nos Estados Unidos.

Acesse aqui o estudo: https://www.pretalab.com/
Site da Olabi: https://www.olabi.org.br/

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