“Quem Manda Aqui” estimula o diálogo com crianças sobre política

“Quem Manda Aqui” estimula o diálogo com crianças sobre política
Desde 19 de outubro, quando foi publicado na internet, o livro Quem Manda Aqui já obteve mais de 400 leituras on-line na plataforma ISSU. Lançado em São Paulo em 6 de dezembro

Desde 19 de outubro, quando foi publicado na internet, o livro Quem Manda Aqui já obteve mais de 400 leituras on-line na plataforma ISSU. Lançado em São Paulo em 6 de dezembro, traz uma história simples, porém com especificidades que visam um grande objetivo: dialogar sobre política com crianças, especialmente entre cinco e sete anos.

Diante de tamanho desafio, os quatro amigos André Rodrigues, Larissa Ribeiro, Paula Desgualdo e Pedro Markun elaboraram um processo para ir além de simplesmente colocar ideias no papel. Conversaram com as próprias crianças, concretizaram o projeto por meio de uma campanha de financiamento coletivo no Catarse e disponibilizaram o resultado em licença Creative Commons (CC-BY-NC), permitindo que qualquer um copie, compartilhe e modifique o material, desde que não seja para fins comerciais.

Paula, jornalista e apaixonada pelo universo infantil, acredita que a literatura voltada a esse público serve “para qualquer pessoa que se deixe encantar”. Ela foi a principal responsável pelos textos do livro e conta o que mais a marcou: “A possibilidade de criar junto com tanta gente, de desconstruir a ideia de autoria, de não ter controle sobre os processos e de dar voz às crianças. A gente tem muito para aprender com elas”. Tudo começou quando ela sugeriu a ideia de trabalhar o tema com os pequenos para Pedro, presidente do Lab Hacker, e ele imediatamente a aceitou por ter uma longa trajetória trabalhando com novas maneiras de discutir e fazer política.

“Eu sempre quis escrever um livro para criança, mas eu não sei fazer isso”, diz Pedro. No início, em 2014, ele era o único dos quatro que já era pai (André acabou virando ao longo do processo). Suas filhas Maria, de três anos, e Tereza, de um ano e meio, são suas grandes influenciadoras. “No dia que a primeira nasceu, eu pensei ‘nossa, que linda’, e o segundo pensamento foi ‘como é que eu vou explicar política pra ela? ’. Trabalho com isso e vivo isso, se eu não conseguir falar com a minha filha, temos um problema de comunicação grave”, conta ele.

Ao começar a elaborar o processo que viria a seguir, Paula e Pedro se juntaram aos designers gráficos André e Larissa, criadores do Estúdio Rebimboca, também por possuírem interesse em projetos de cidadania, direitos humanos, política e transparência de informação. “São temas que sempre norteiam o nosso trabalho”, afirmam eles.

“Quem Manda Aqui” estimula o diálogo com crianças sobre política
Ao começar a elaborar o processo que viria a seguir, Paula e Pedro se juntaram aos designers gráficos André e Larissa, criadores do Estúdio Rebimboca, também por possuírem interesse em projetos de cidadania, direitos humanos, política e transparência de informação.

Com o grupo reunido, o próximo passo foi pensar em maneiras de financiar a ideia, de modo que o conteúdo pudesse ser desenvolvido com autonomia e independência – foi aí que optaram pela campanha de crowdfunding. “A gente queria pegar a grana para fazer duas coisas: as impressões, porque independente de qualquer coisa seria uma garantia de o livro existiria, e para fazer as oficinas prévias”, explica Pedro. Sem ter ideia exata de como construiriam uma narrativa, conseguiram o dinheiro necessário e partiram para o contato com as responsáveis por mostrar o que precisaria ser dito no material final: as próprias crianças.

Como os pequenos lidam com a política?

“A gente quer discutir política com as crianças e isso não é fácil, é tabu, então geralmente não falamos com elas porque achamos que são idiotas e não vão entender. Isso não é verdade”, afirma Pedro. Foi para entender a relação entre esse público específico e o tema escolhido que os autores desenharam uma proposta de oficina que foi aplicada em seis lugares. Quatro deles são em São Paulo: em um Centro Educacional Unificado (CEU), no Centro Cultural São Paulo, em uma Fábrica de Cultura e no Lab Hacker. As outras duas foram em escolas municipais (uma em região serrana e outra em região rural) de Ouro Preto, Minas Gerais, a convite do Fórum das Letras.

Pedro conta que gostaria de ter explorado mais diversidade, com grupos quilombolas e comunidades ribeirinhas, por exemplo, mas que mesmo dentro dessa amostra já encontraram resultados diferentes de acordo com o lugar. Paula considera que esses espaços de troca foram essenciais: “Foi a maneira que encontramos de, em vez de escrever um livro para crianças a partir de ideias nossas, nos reunirmos com elas para escrever junto. Eu me refiro principalmente aos conceitos e à lógica”.

Sempre que possível, os quatro amigos participavam desses momentos. Em papéis de provocadores, se apresentavam e diziam que iriam escrever um livro. A metodologia das oficinas consistia, primeiramente, em apresentar espaços de poder, como diversos castelos, aldeias, cidades, casas, entre outros, por meio de imagens. A primeira pergunta feita era “o que é isso? ”, seguida de “quem manda aqui? ”. “Quando a gente afunilou o tema, entendemos que antes de discutir democracia era preciso conversar sobre como se dão as relações de poder entre as pessoas”, explica Pedro. A partir das respostas que surgiam, os quatro amigos questionavam, por exemplo, por que o rei mandava no castelo, até as crianças construírem linhas de raciocínio que as permitissem refletir sobre a origem do poder de cada um daqueles agentes. Depois, elas desenhavam suas próprias versões desses personagens.

O objetivo era tentar entender como elas encaravam essas representações. Alguns padrões nos desenhos chamaram atenção, como o fato de quase todas as princesas serem loiras – tirando as que eram desenhadas com canetinha vermelha. Quando os autores problematizaram a questão, inclusive nos grupos em que a maioria das meninas eram negras, perguntaram se havia princesas negras e, diante da resposta negativa, ouviram a explicação: “porque elas são feias”.

Na segunda etapa das oficinas, o exercício era testar diferentes processos políticos para escolher os desenhos feitos na hora que entrariam no livro. Selecionavam, por exemplo, o aluno mais agitado da sala e o declaravam rei. Sendo assim, ele poderia escolher qualquer desenho de acordo com sua vontade. Isso, é claro, despertava nos colegas a vontade de ter aquele poder também. “Eu perguntava: ‘você é filho da rainha? Não? Então você nunca vai ser rei’”, narra Pedro, mostrando o quanto aquela situação poderia ser restritiva. Diante do descontentamento da maioria, era necessário fazê-los pensar outras maneiras de decisão. “Foi numa dessas que surgiu uma ideia maravilhosa que a gente nem tinha considerado antes: uma menina levantou a mão e disse ‘uni-duni-tê’”, afirma ele.

Rapidamente, surgia também a opção do voto. Esse momento se desdobrou de maneira impressionante para os oficineiros. “Percebemos a formação de ‘partidos’ com suas respectivas torcidas, boca de urna, polarizações complexas dentro de um grupo de crianças tão pequenas e inexperientes”, afirmam Larissa e André, acrescentando que também ocorreram votações em massa em desenhos sem que houvesse nenhuma combinação prévia. “Acreditamos ser um desejo de criar uma atmosfera de pertencimento ao grupo. São suposições, mas com certeza notamos aí um padrão que merecia ser investigado”, dizem.

“Só para encerrar, eu vou falar para vocês de uma outra forma de decisão, que é a anarquia. Cada um é responsável pela sua decisão perante o coletivo”, dizia Pedro no final do exercício. Ele propunha a possibilidade de qualquer um selecionar qualquer desenho. Ele conta que a bagunça se espalhava: “boa parte dos desenhos ia para o livro, mas alguns resolviam levar o desenho para casa e até dos outros”. No final, os desenhos escolhidos eram encadernados com uma capa decorada com um desenho em estêncil e presos com barbantes coloridos.

“Quem Manda Aqui” estimula o diálogo com crianças sobre política
Desde 19 de outubro, quando foi publicado na internet, o livro Quem Manda Aqui já obteve mais de 400 leituras on-line na plataforma ISSU.

Palavras e imagens contam a história 

As criações das crianças não inspiraram o estilo da arte gráfica no livro final, mas serviram para trazer questões específicas, como gênero e representatividade. Por isso, a quantidade de personagens femininos e masculinos foi estrategicamente equilibrada e, para representar a cor da pele, Larissa e André apostaram em azul, verde, rosa e amarelo.

A utilização abundante de formas geométricas também foi uma tentativa de aproximação com o universo infantil. Os criadores do estúdio Rebimboca contam que a simplificação, como a ausência de perspectiva, se assemelha à “representação gráfica que as crianças dominam”. Porém, esse não foi o único objetivo: “Como desde o princípio a ideia foi construir tudo de maneira colaborativa, pensamos em criar ilustrações que pudessem ser facilmente reproduzidas”, dizem. Há possibilidades de modificar e ampliar a história.

Nas palavras, a influência das oficinas também aconteceu. “Você até vê algumas expressões que foram ditas pelas crianças, mas acho que o principal foi nós quatro termos experienciado aquilo para, então, construir uma linguagem e uma narrativa”, declara Paula. Ela também optou por textos sintéticos, que se tornaram versos com rimas – outra decisão direcionada ao público-alvo. “A gente queria mesmo falar pouco e abrir espaço para a reflexão, para o diálogo, para as interrogações e reticências”. Para atingir a raiz dos conceitos, ela diz terem pensado muito bem sobre o emprego de palavras como “mandar”, “decidir” e “escolher”.

Da internet às livrarias

Uma vez tendo o livro financiado, produzido e impresso, era hora de tentar uma alternativa pouco comentada, mas que esteve nos planos desde o início do projeto: lançar o “Quem Manda Aqui” por meio de uma editora. Graças à mediação da coordenadora de uma das escolas de Ouro Preto (MG), conseguiram o contato da Companhia das Letrinhas.

“A gente já tinha tudo pronto, eles não precisavam se preocupar com nada. Nossa única exigência era que o livro fosse licenciado em Creative Commons, porque a gente tinha prometido isso na campanha”, conta Pedro. A exigência foi aceita, junto com a capa branca – que o grupo descobriu ser uma espécie de tabu. Uma questão de gênero gerou um pouco mais de resistência: no texto, prevalecem os termos no feminino, mesmo aqueles que designam coletivos, contrariando a gramática. Sob alegação da editora de que as pessoas não entenderiam, foi criada uma página explicativa passando a mensagem de que se tratava de uma escolha, não de um erro.

A parceria com a Companhia das Letrinhas proporcionou uma tiragem de três mil exemplares que podem ser adquiridos em qualquer local do Brasil e também pela internet. As impressões ficaram prontas a tempo de o livro ser lançado no Fórum das Letras 2015, em Minas Gerais, para as mesmas crianças que participaram das oficinas anteriores.

André, Larissa, Paula e Pedro já começaram a ouvir comentários de educadores que fizeram experiências com o Quem Manda Aqui? em sala de aula com resultados positivos. Para Paula, é importante estar aberto aos questionamentos que podem surgir. “Uma pessoa adulta me disse que foi o livro que mais lhe ensinou sobre política. Fiquei contente. Espero que não só ensine, mas que facilite a compreensão de mundo, a autonomia e a liberdade, independente de quantos anos você tenha”.

A reflexão parece ser o foco da produção, que não oferece respostas prontas, mas incentiva o diálogo. “Eu não tenho dúvida de que esse livro não explica política para crianças, porque o papel de fazer isso é do pai, do mediador. Essa pessoa tem que pegar a página da prefeita e conversar sobre democracia, alternância de poder, gênero”, afirma Pedro. As interpretações são livres de acordo com o interlocutor e com o leitor. Apesar de acreditar que o amplo debate sobre o tema também seja de responsabilidade do governo e da sociedade em geral, ele considera um problema grave não discutí-lo dentro de casa com maturidade.

“Quem Manda Aqui” estimula o diálogo com crianças sobre política
Diante de tamanho desafio, os quatro amigos André Rodrigues, Larissa Ribeiro, Paula Desgualdo e Pedro Markun elaboraram um processo para ir além de simplesmente colocar ideias no papel.

 

Link da publicação:http://goo.gl/8oGCNI

Texto: Natália Freitas

Data original de publicação: 15/12/2015

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