Qualificação do debate político e fortalecimento de diálogo foram os pontos principais na abertura do 9º Congresso GIFE

12932866_1323854890961864_4232231519572641584_nCom o tema O Sentido Público do Investimento Social Privado, na tarde da quarta passada (30 de março) iniciou mais uma edição do Congresso GIFE na Fecomercio no centro de São Paulo. “Vivemos em um tempo em que a proporção do público ao privado passa pelo papel das organizações em cima da contribuição pública. Não há clareza e se veem como parte dos problemas ou das soluções sobre os desafios que enfrentamos”, ressaltou André Degenszajn, secretário geral do GIFE.

Conectado aos episódios atuais do cenário nacional, a plenária de abertura O Brasil que temos, o Brasil que queremos. Visões a partir da política, justiça e sociedade sobre a conjuntura atual reuniu diferentes especialistas, uma militante da área da educação, outro representante de uma grande organização de direitos humanos e outro do segmento acadêmico e jurídico. O mediador Ricardo Henrique, superintendente do Instituto Unibanco, comentou que o evento era uma oportunidade de projetar no campo político e para ser trazido como elemento de médio a longo prazo e precisa ser desenvolvido de quem vem do campo privado. “As soluções técnicas não trazem informações críticas consolidadas e têm baixa aderência no mundo real”, ressaltou. Ainda sugeriu: “Há uma possibilidade de construir plataformas para esses dois mundos a partir da diferença e se torna necessária para aproximá-los. E precisa de foco, escuta atenta e equilíbrio”, defendeu o economista sobre a tendência de polarização do debate político nacional do Brasil.

Racista e violento, sim!

Átila Roque, historiador e atual diretor executivo da Anistia Internacional no Brasil, já iniciou sua fala questionando a leitura e o papel das organizações neste momento e a ênfase com o tema de direitos humanos. “Num momento de tanto calor, como pensar sem se deixar levar do imediato? O mais importante é o cotidiano, que está mudando tanto. Sempre tento pensar a partir do que tenta ser permanente do ponto de vista da igualdade. O grande desafio é como escapar da longa duração. E como resgatar os 30 anos se vivemos num momento que se resolve no instante?”, refletiu.

14536O historiador ressaltou dois aspectos, em que para ele o Brasil se nega e criou habilidades sofisticadas de ser: racista e violento. “Nós somos profundamente violentos. Sempre gostamos de nos vermos pacíficos e tranquilos”, afirmou. Para ele, a agenda de mudança pede para radicalizar a questão do racismo e da violência e como conforma as questões do poder, como a distribuição de recursos: simbólico e material.

Em relação à desigualdade, Átila comentou que houve um processo de naturalização aqui no Brasil. “Fomos ensinados a cada um e coloca em seu lugar, fomos educados para não se ver como sujeitos detentores de ter direitos. A agenda de direitos humanos como parte de uma mesma”, sinalizou. Ainda comentou que várias iniciativas que apostaram no desejo de igualdade e está se sentindo ameaçado e voltaram a tonar com debates das cotas. “E é tão importante a igualdade racial e quantos de nós nos declaramos negros? Somos sempre poucos em espaços de recursos e poder”, enfatizou.14537

O historiador comentou que na promoção da agenda da desigualdade houve uma certa fascinação do Estado e do poder. Para ele, é necessário reconhecer o novo, não apenas atores que estavam, mas resgatar nós todos dessa situação. “Reconhecer novos protagonistas. Ouvir mais novos atores que estão reivindicando seu lugar de fala”, ressaltou.

Qualificação do debate

Já a militante na área da educação Maria Alice Setubal, socióloga e presidente da Fundação Tide Setubal, disse que a polarização do debate político está bem acirrado: “ Além de ser do mundo contemporâneo, nós somos ainda democracia nova, há pouca experiência de participação. Eu me surpreendi com as pessoas que foram pela primeira vez nas ruas e já queriam mudanças. A qualificação do debate tem a ver com o desconhecimento sobre como funcionam as instituições”.

A educadora ainda analisou que as redes sociais estão potencializando em muitos casos discursos de ódio e contribuindo com a desqualificação do debate político. “O diálogo com maior reflexão é fundamental para avançar. Não vamos construir nada novo em direção de algo mais justo e sustentável. Por isso, é preciso ter humildade na escuta”, sugeriu.

A mestre em ciências políticas ainda comentou que há uma arrogância na área de investimento social privado, porque os atores deste segmento acham que sabem a necessidade da comunidade. E ainda questionou o público como continuar com as ações de investimento mesmo com a crise econômica e política. Ela defende que é essencial manter esses recursos e ir além da geração de resultados. “O objetivo nosso é a equidade, um desafio enorme das desigualdades sociais de riscos de perdas desses ganhos, lembrar e ter clareza da gestão de resultados – dar mais para quem têm menos”, disse.

Neca Setubal também atentou a complexidade das fundações empresariais, comunitárias e independentes em assumirem um papel político e até questionarem o papel do empoderamento da sociedade civil. Com a redução dos investimentos internacionais em ações sociais no Brasil, o desafio da captação de recursos aumentou e se tornou cada vez mais difícil de lidar no diálogo com diferentes atores, porém garante resultados melhores e expressivos.

“Exigimos do governo transparência e temos que ser transparentes, pensar a longo prazo. Falamos de políticos nos projetos e será que temos isso em nossos relatórios? Precisamos do fortalecimento da sociedade civil”, incitou ao público.

E o que esperar do judiciário?

Oscar Vilhena, diretor da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, já começou afirmando que o Brasil se estruturou na desigualdade em suas relações, especialmente na identidade e condição. “Eu sei até aonde posso ir”, disse.
O professor lembrou que a Constituição de 1988 repactua com o projeto utópico de uma sociedade mais justa e solidária e os projetos são autônomos que nesses 30 anos caminhou e compartilhou a reflexão. Também refletiu que há um processo de mudança. Sobre os padrões éticos, o grau de agressividade está alto em uma reivindicação por direitos básicos a educação, saúde e numa mesma relação ética entre um mundo privado e público.

“As práticas continuam as mesmas, mesmo com tantos avanços de leis, como Ficha Limpa e a Lei da Transparência. Essas novas ferramentas de 2013, quando apropriadas na nova geração de promotores, nota-se um descompasso no país: de pessoas que querem espaço por direito, com uma cultura empresarial surda e uma sociedade em processo de mudança”, observou. Ele ainda chamou atenção que quando as leis estão sendo aplicadas, aparecem erros no processo de consolidação do Estado de Direito.

O professor da FGV também analisou que o Estado passa responsabilidades para a sociedade civil, que passou a ser pautada por ele. “O papel das fundações não é ditar o que é bom, mas ver junto com a comunidade”, defendeu a importância da área de investimento social privado.


Serviço:

Confira o site do evento: http://congressogife.org.br/2016/
Veja aqui cobertura dos debates: http://gife.org.br/

Confira a cobertura completa:

Investidores, especialistas e representantes de organizações da sociedade civil se reuniram na plenária final para verem as propostas finais da área de investimento social privado

Em atividade prática, participantes falaram de desafios, atividades do dia a dia e diálogo entre atores do investimento social privado e organizações

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Debate fala sobre papel e atuação de aplicativos e plataformas que contribuem na inovação da política

Presidente da Fundação Ford ressaltou a importância da honestidade nas relações entre atores sociais


Foto: Divulgação

Data original da publicação: 04/04/2016