A sociedade tem consciência, mas falta atitude mais sustentável

Um grupo de especialistas debateram os resultados do Panorama do Consumo Consciente no Brasil, feito pelo Instituto Akatu.

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Pesquisadores da área de sustentabilidade e de pesquisa falam suas principais observações do estudo. (crédito da imagem: divulgação)

Quatro diferentes especialistas apresentam o que avaliam e questionam questões fundamentais para reflexão na área de sustentabilidade. Após lançamento dos resultados da pesquisa Panorama do consumo consciente no Brasil: desafios, barreiras e motivações, produzido pelo Instituto Akatu, os especialistas participaram da mesa de debates: Aron Belinky, mestre em administração pública e coordenador do Programa de Produção e Consumo Sustentáveis do Centro de Estudos em Sustentabilidade da GVces da Fundação Getúlio Vargas (FGV); Kavita Hamza, graduada, mestre e doutora em administração de empresas e professora de disciplinas de gestão de preços, estratégias empresarial e marketing e sustentabilidade na Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA/USP;) Sofia Ferraz, professor e pesquisa das universidades FEA/USP e Escola Superior de Propaganda e Marketing; e Karla Mendes, mestre em estatística pela Universidade Estadual de Campinas, atua há mais de 20 anos com pesquisas quantitativas e é sócia-diretora da Quantas.

O estudo pretende analisar a evolução e aprofundar a compreensão em relação à: consciência e comportamento do consumidor brasileiro rumo ao consumo consciente; percepção e expectativa do consumidor brasileiro quanto às práticas de sustentabilidade e responsabilidade social das empresas. Pretende ainda avaliar quantitativamente os resultados da pesquisa qualitativa do Akatu (2015) chamada Barreiras e Gatilhos para o Comportamento Sustentável do Consumidor. Ainda identifica o direcionamento para a priorização das ações de sustentabilidade das empresas, de forma a aumentar a valorização de tais ações pelos consumidores e pelos líderes de opinião.

Karla ressalta que ¾ da população ainda possui presença forte na medida baseada no fazer. “As pessoas adotam ou não em seu dia a dia esse comportamento”. Ela também chama atenção que a população em geral tem sim o desejo de seguir o caminho da sustentabilidade, pela afetividade, pela mobilidade, resíduos sólidos, entre outros assuntos. Ao mesmo tempo, quando mede as ações tem uma distância grande com suas ações diárias.

A pesquisadora ainda levanta duas questões importantes: 1ª) desemprego alto, atingindo 300 milhões de pessoas no início deste ano – pouco dinheiro e uma preocupação com quem está com medo e e 2º) mudanças dos hábitos diários – porque não cabe mais no orçamento. “A pesquisa mostra que a consciência é importante, mas só ela não é suficiente. E nos perguntar: o que nós podemos fazer para vencer no dia a dia?”

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Aron ainda explica que o preço é uma informação condensada e incompleta. (crédito da imagem: divulgação)

Para o professor Aron, a sociedade brasileira vive uma época de mau humor. Isso impacta diretamente a disposição das pessoas se engajarem. “Os mais jovens estão sendo despejados. Estão observando líderes difíceis. Há um ceticismo pensando no momento. A maré contra é muito difícil”. Aron ainda indica que há uma demanda reprimida e três questões pertinentes nesse cenário: 1º) as pessoas não entendem bem o conceito de sustentabilidade, 2º) ainda se pegam com o conceito mais ambiental e 3º) percepção normativa – essa visão é interessante, que requer certo caminho e as empresas não apresentam saídas levantadas pela sociedade com discurso nessa direção.

“O brasileiro ainda culpa as empresas e as instituições de terem que se comportarem além da sua própria atuação”. Aron ainda avalia se os especialistas e profissionais desse segmento não estão ficando velhos e chatos. “Temos que pensar os estímulos aonde os jovens estão vindo e os influenciadores digitais o que falam”, reflete.

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A professora da FEA/USP fala sobre o movimento que ocorre nos últimos oito anos de muitas crianças influenciarem os pais a tomarem posturas mais sustentáveis. (crédito da imagem: divulgação)

A professora da FEA/USP Kavita Hamza ressalta que o público mais consciente está centrado no perfil de ser mais velho e mais feminino no mundo. Ela cita um estudo feito em 211 com jovens e lá apresenta que eles se sentem falta de informação para saber o que consumir de forma mais saudável. “Eu tenho discurso, mas na prática, por que não consumimos de forma mais consciente? Muitos falam que é por causa do preço”: 42% nos Estados Unidos colocaram a barreira do preço para aqueles que possuem menos renda. No estudo do Instituto Akatu,no ranking das barreiras para adoção de práticas sustentáveis, surge como segundo fator dúvidas sobre a qualidade. Ainda as pessoas não conseguem identificar esse quesito por meio da informação que tem acesso e em terceiro há uma falta de conhecimento e expertise – se não tiver indicativo não sabem identificar qual é mais sustentável. A pesquisadora ainda comenta outros itens, como: o ceticismo e a falta de disponibilidade em regiões, como Centro-oeste, Norte e Nordeste. Também se recorda da falta de infraestrutura para reciclagem, com falta de apoio de alguns governos de outras regiões exceto Sudeste que apresenta mais avanços.

A docente ainda explica uma pesquisa americana em que um negócio oferece dois tipos de álcool gel: um regular e outro ecosustentável. Quando havia uma pessoa anotando a escolha do público: 72% escolheram pelo álcool sustentável. Mas quando o observador é retirado da situação, o resultado muda: 76% optam pelo álcool regular. “Temos o fator ainda da visibilidade social. As pessoas querem mostrar aos outros o estilo de vida e não querem ser repreendidas. Há uma ideia de relacionar força com produtos regulares e suavidade com produtos sustentáveis. O desafio para as empresas é como se comunicarem e mostrar que essas marcas são boas e têm efeito”.

Sofia Ferraz cita primeiramente o quesito do carro próprio no Nordeste para se deslocar rápido e com conforto. Em seguida, também ressalta que o conceito de sustentabilidade ainda conectado com questões ambientais. “Ao mesmo tempo que valorizam a sustentabilidade, não conseguem ver que está tudo num pacote só”, afirma.

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Além de especiaslistas, os patrocinadores da Pesquisa Akatu 2018 falam os insights para as suas empresas. (crédito da imagem: divulgação)

Dos gatilhos emocionais, a pesquisadora ressalta que os indivíduos ainda se apresentam egoístas e ainda comenta sobre alguns estudos falam sobre a cultura coletiva. Outras publicações ainda falam da relação com amigos e família como extensão do self, segundo observações da professora. Pelas respostas da pesquisa, muitos optam pelas experiências que fazem bem por reforçar a valorização da autoestima.

Em relação aos gatilhos concretos, os entrevistados optam muito por respostas relacionados com saúde. “A saudabilidade traz benefícios para minha saúde e de toda vida. Por isso veio o boom dos orgânicos. Os benefícios individuais podem ser ponte para o bem do coletivo”, defende.

Acesse a pesquisa aqui: https://goo.gl/BfFS4A