Publicação revela a produção de pessoas que atuam à margem da sociedade e possuem um novo olhar

dicleit-interna-economiadesajustadosHistórias de egressos estadunidenses empreendedores, moradores da zona rural com compromisso de reconstruir cidadezinhas e produtores da indústria de leite de camelo. O que eles têm em comum? São pessoas que atuam de forma diferente na economia. Todas essas histórias estão contadas no livro A Economia dos Desajustados – Alternativas informais para um mundo de crise, de Alexa Clay e Kyra Maya Phillips, pela editora Figurati.

Em 265 páginas, a publicação possui oito capítulos e seu foco central é explicar o que é a economia dos desajustados, explicar este movimento contemporâneo e quem faz esse tipo de produção diferenciada. Mas o que é um desajustado? Logo na introdução, as autoras explicam que : “uma pessoa cujo comportamento ou atitude a separa dos demais de modo desconfortável e conspícuo”. Sejam marginais, gângsteres e até ermitões. Elas deixam claro e trazem diferentes exemplos que há pessoas com esse perfil em todos os lugares do mundo, que atuam de forma mais criativa desenvolvendo soluções a desafios que os negócios tradicionais não conseguem fazer. São habilidosos e criativos, leais e astutos, pessoas que vivem em favelas, dissidentes e até foras da lei. Também são conhecidos por atuarem no mercado cinza, ou mercado negro, ou economia informal.

dileit-interna-alexaclaySegundo as autoras, essas pessoas costumam ser os pioneiros em novos modos de pensar e operar, mantendo novas práticas mais eficazes que podemos todos aprender e aplicar nos mercados formais.

É importante esclarecer que as autoras são especialistas que estudam o tema da inovação e empreendedorismo. Alexa Clay é uma contadora de histórias e especialista em subcultura. Também é cofundadora da League of Intrapreneurs, um movimento para criar mudanças partindo de dentro de um grande negócio, e fundadora do Wisdom Hackers, uma incubadora para a investigação filosófica. Através do grupo Human Agency, Alexa inicia projetos que visam criar comunidades com propósito em todo o mundo. Ela é graduada pela Universidade de Brown e Universidade de Oxford. Já Kyra Phillips Maya é escritora e estrategista de inovação. Ela é cofundadora do The Point People, um grupo de inovadores, pensadores, artistas e empresários comprometidos com a condução da mudança sistêmica para uma sociedade mais justa. Anteriormente, Kyra trabalhou como jornalista do The Guardian, onde se concentrou em relatórios ambientais, e como consultora na SustainAbility, uma instituição de consultoria com sede em Londres. Cresceu em Caracas, Venezuela, e agora reside em Londres, com o marido e o filho. É formada pela Escola de Economia de Londres.

Foram mais de cinco mil casos estudados e escolhidos os 30 melhores, que abrangiam empreendedores sociais e inovadores da economia informal, atuantes do mercado negro e comunidades artísticas e ativistas, assim como desajustados e infiltrados. O principal critério foi analisar a inovação de cada caso.

Quando questionada sobre olhar para os benefícios esse assunto, Alexa Clay comentou que é justamente olhar além dos hábitos suspeitos e explorar modelos diferentes e ao mesmo tempo empreendedores. Ainda ressaltou que se examinar como os hackers e gangsters, piratas e outras pessoas dessa área estão inovando, é possível encontrar algumas chaves para a transformação da economia principal e se libertar do legado do capitalismo para o comando e controle.

“O ponto é olhar para como nós podemos usar instintos subterrâneos para transformar a economia formal para se tornar um lugar onde as pessoas possam ser plenas, com seus valores no local de trabalho, que darão sentimento de pertencimento, de segurança. Pode até parecer um pouco irônico que nós precisemos olhar para o “lado negro “ da inovação para reiniciar encontrar formas do capitalismo”, observou.

A pesquisadora ainda chamou atenção que em certos países mais de 70% de uma economia é informa e, dessa forma, se esta é a principal fonte de atividade econômica, é bom prestar atenção e reconhecer esses talentos empresariais.

O primeiro capítulo foca A Filosofia do Desajustado. Para ilustrar como essas pessoas pensam, a autora compartilha que os desajustados de verdade não procuram só fornecer um substituto para um serviço existente: “eles questionam se tal serviço é necessário, para começar”. Ela citou o caso do movimento de antiescolarização, em que questiona a base de educação formal como um todo e procuraram transformar radicalmente a prática da aprendizagem em si. Um exemplo foi o Dale Stephens que funcou o UnCollege (DesFaculdade, em tradução), cujo objetivo é oferecer currículo para aprendizagem autodidata. A ideia é ser ensinado por mentores e os estudantes buscariam o que gostariam de aprender. Também falou de plataformas, como Skillshare e Coursera, que oferecem alternativas para as graduações tradicionais.

Outro fato curioso narrado na publicação foi sobre um ex-instrutor da Skillshare que fundou sua própria startup chamada One Month Rails e aprendeu a programação sozinho e quis tornar o processo de aprendizagem mais fácil e intuitivo para outros. Com a plataforma Skillshare, conseguiu angariar mais de 15 alunos e ganhou mais de 30 mil dólares ensinando uma única disciplina.

E o que motiva um desajustado? O segredo está na busca por reputação e estima. Elas observaram que muitos ligam sim para seu reconhecimento e reputação: “artistas de grafite tentam impressionar uns aos outros ao escolher locais de risco, hackers vivem mostrando suas habilidades e comprometimento postando suas vitórias on-line para os outros verem. Um manifestante do movimento Occupy Wall Street pode ter interesse tanto em se rotular como um agitador e procurar reconhecimento da comunidade de manifestantes como em causar transformação social”.

Além de terem uma postura empreendedora, os desajustados são contracuturais, autoquestionadores e vulneráveis. São conhecidos ainda por avançarem limites e desafiarem sistemas. A informalidade também é um dos principais itens para motivar esse público. Nesse caso, as autoras ressaltam que essa característica tem relação com o incentivo à espontaneidade, libertar as pessoas para que dependam da motivação intrínseca e instintos em vez de ficarem submetidos a regras, códigos e incentivos, com os aumentos e as promoções impostos por autoridades exteriores.

Alexa também comentou que fica impressionada com a quantidade da cultura de códigos abertos aqui no Brasil. Ela vem observando como o país tem regulamentado coisas que servem ao bem público e possuem regimes de patentes mais flexíveis. “A cultura do DIY (do it yourself, em tradução livre) também é impressionante. E, claro aqueles que trabalham nas favelas e o crescente negócio informal que mostra muita agitação”, analisou.

No final do primeiro capítulo, há cinco sugestões para libertar o “desajustado interior”, que são: jeitinho, cópia, hack, provocação e giro. A ideia é encorajar o leitor a aplicar as percepções que poderia reunir sobre si e sobre os casos contidos nesta publicação em sua própria indústria, empresa, carreira ou comunidade. O segundo capítulo explora cada item citado para libertar seu desajustado interior. O primeiro deles é o jeitinho e traz a história de ruiz, que foi preso por ter cometido um crime. Durante seu período na prisão, ele estudou diferentes publicações e participou de um programa chamado Defy Ventures, destinado apoiar egressos para começarem seus próprios negócios. Ele criou a Infor-Nation, uma startup que funciona como ferramenta de pesquisa que se compra por e-mail, com objetivo de conectar os prisioneiros com informação legal on-line e resultados de sites de buscas. Dessa forma, ele contribuiu com os outros com as apelações, monções para escrever e organizar relatórios.

Com tantos estudos e pesquisas sobre esse segmento e os atores envolvidos, Alexa respondeu que aprendeu como apressar. Ela notou como a inovação pode contribuir a ambientes de escassez e de frugalidade, observando como os desajustados artísticos, por exemplo, provocam os sistemas e as audiências, e com os desajustados informantes conseguem conduzir e mudar furtivamente.

A especialista em subcultura também ressaltou que a economia está em um grande momento de crise e de transição e por isso precisamos de abordagens mais radicais e energia para explicar as alternativas do que as burocracias tradicionais, já que os sistemas tradicionais não levam em conta o impacto ambiental e social das empresas. “Aquelas pessoas que trabalham para trazer este novo mundo precisam de uma quantidade enorme de apoio pessoal e emocional para permanecerem resilientes”, afirmou.


Serviço:

Título: A Economia dos Desajustados – Alternativas Informais para um Mundo em Crise
Autoras: Alexa Clay e Kyra Maya Phillips
Editora: Figurati
Número de páginas: 272
R$ 31,40


Imagem: Divulgação

Data original da publicação: 11/01/2016