Publicação pretende reunir práticas de economia colaborativa de SP

 

Compartilhar, alugar e emprestar são ações da economia colaborativa. O que é isso? Quem está nesse movimento? Com objetivo de reunir essas práticas, foi lançado no final do mês passado o Guia de São Paulo Cidade Colaborativa 2015, publicado no site Cidade Colaborativa e idealizado pelo empreendedor Alexandre Frankel em parceria com a Global Intelligence Group (GIG), a Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e o jornalista Leão Serva, em que reúne 100 iniciativas da chamada economia compartilhada na cidade de São Paulo.

A publicação traz 100 iniciativas. Essas práticas foram selecionadas pelos critérios de tempo de atividade e abrangência de atuação e organizadas em 10 setores: consumo (11 experiências), educação (9), mobilidade (13), cultura (15), alimentação (6), meio ambiente (8), serviços (10), trabalho (10), moradia (5) e ações promovidas por ONGs e poder público (13).

Esse levantamento foi realizado em duas etapas: a primeira, entre 15 e 31 de julho, com um software de busca na internet que localizou projetos e ações baseados em compartilhamento que atuam na cidade de São Paulo, e a segunda, realizada entre os dias 4 e 12 de agosto, com uma equipe de jornalistas que averiguou as informações obtidas por meio da busca digital.

Segundo o levantamento do Movimento Cidade Colaborativa, o compartilhamento aumentou em 10 setores da economia, em especial na cultura, mobilidade, ONGs e poder público. No quinto capítulo, são apresentadas as iniciativas separadas por temáticas, com breve resumo, acompanhadas de sites e endereços, além de telefones e e-mails.

A plataforma Cidade Colaborativa pretende ser um ponto de encontro virtual entre empresas, pessoas e projetos que trabalhem de forma compartilhada. A publicação ficará disponível gratuitamente e será atualizado a cada seis meses. O objetivo é oferecer um cadastro atualizado com o maior número de projetos de compartilhamento existentes na capital paulista.

Para entender como funciona esse tipo de movimento, o Setor3 conversou com Flávio Azevedo, publicitário, pós-graduado em gestão do conhecimento e sócio-diretor da GIG. Ele falou sobre os critérios para seleção dos projetos, cases de inspiração fora do país, os desafios e as oportunidades da área de economia colaborativa. “Acredito que todos nós temos que pensar juntos com empresas, sociedade civil organizada e governo sobre o que podemos compartilhar para tornar nossa economia mais eficiente, usar menos os recursos naturais e nos direcionar para uma cidade menos poluída, para uma geração com recursos menos escassos”, defendeu.

Portal Setor3- Quando surgiu a ideia da criação dessa publicação?

Flávio Azevedo- Desde quando lançamos uma publicação chamada Como Viver em São Paulo Sem Carro. Começamos a investigar sobre mobilidade moderna, ações da economia colaborativa e o que está aparecendo lá fora. Alguns anos já notamos que esses negócios são maiores que os tradicionais. Pelo porte econômico de São Paulo, essa cidade vai liderar isso aqui no Brasil. Nunca foi feito um mapa para mostrar o que compõe esse tipo de economia. Não estamos apenas interessados na capital paulista, por isso, nosso projeto se chama Cidade Colaborativa, porque temos interesse nas cidades brasileiras. São Paulo foi a primeira a analisarmos.

Portal Setor3- A ideia é partir a outras cidades? Receberam convites mapeamentos em outros locais?

FA- A iniciativa é bem recente. Recebemos uma ótima receptividade da mídia e até de órgãos públicos aqui em São Paulo para conhecer. Neste primeiro momento, queremos focar em São Paulo. Há questões que vão nos obrigar para olhar fora de São Paulo. Nesses primeiros seis meses, será revista a publicação para atualizarmos já que é uma área muito dinâmica. A ideia é acompanhar atentamente primeiro a capital paulista e começar o diálogo em outras cidades. As grandes capitais são bem interessantes, como Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Queremos ainda fazer uma série histórica para a cidade de São Paulo para possibilitar as comparações com períodos anteriores e até com outras cidades de outros países.

Portal Setor3- Vocês se inspiraram em alguma publicação fora do Brasil?

FA– Muitas iniciativas nos chamaram atenção. Há um encontro de economia colaborativa em formato de palestras na França chamado OuiShare Festival. Funciona como um TED com palestras sobre economia colaborativa. Isso nos inspirou a perceber que havia esses encontros; embora sem a intenção de mapeamento dessas ações. Outra ação bem interessante é dos Estados Unidos: o Crowd Companies. É uma plataforma bem interessante e é o que queremos fazer aqui, porque eles mapeiam os setores onde ocorrem o movimento de economia colaborativa. Nós ainda nos baseamos também em Amsterdã, que acabou de ser eleita a cidade da Europa mais colaborativa.

Aqui algumas prefeituras já possuem iniciativas para a própria população denunciar buracos na rua, por exemplo. Aos poucos vão aparecendo uma série de serviços públicos que possibilitará fiscalizar, avaliar os serviços e a infraestrutura da cidade. Isso pode incentivar o melhor uso da verba pública. A ideia é trazer essas ideias de fora também.

Outra iniciativa que nos inspira muito é PIC NIC, de Amsterdã, que recebe apoio do governo holandês e trouxe o pensamento de startups que não era tão forte para empresas e universidades há 10 anos. Oferece ainda uma série de workshops e atua como uma incubadora a projetos com ideias, conceitos, produtos e serviços inovadores, além de contribuir em aplicar a tecnologia de forma criativa para atender as necessidades sociais, ambientais e econômicas atuais. Nos últimos anos, eles viajam em diferentes países para contribuir com essa mensagem colaborativa.

Portal Setor3- Quais foram os critérios para escolher as iniciativas do Guia? Qual ator está mais avançado nesse debate aqui no Brasil? E qual setor do governo está mais aberto?

FA- Por ser um trabalho muito novo, não tínhamos uma base acadêmica. A primeira coisa foi estabelecer um critério de abrangência. Pegamos projetos que atuam em mais de um bairro. No início, fizemos uma busca por um robô mais rápida na rede. Após essa peneira, entrevistamos as iniciativas selecionadas. Percebemos que 100 seria um número bom. Em relação aos atores, esse tema é novo e estamos em uma época polêmica. O Brasil ainda não se posicionou sobre isso e as lideranças de alguns Estados sim.  Por exemplo, a questão do Uber tem sido chamada de uma ação pirata. Em Paris e Londres, uma série de ações foram vistas e negociadas. No Brasil, isso não tem ainda clareza. As empresas brasileiras andam muito mais na frente. Esse é um mundo digital que altera muito rápido. Ao mesmo tempo estamos conversando com muitos especialistas sobre isso. Embora os Estados Unidos seja Meca da inovação, eles não conseguem falar para aonde isso vai caminhar, por isso, defendem o papel empírico de dialogar e menos preocupados em fazer estudos acadêmicos. Se investirmos nessas práticas, vamos colher frutos de uma forma mais rápida. Fiquei impressionado em observar que essas ações foram criadas durante a crise na Europa, como espaços de coworkings e o Airbnb. São mais acessíveis e rápidos do que os meios tradicionais. Consequentemente as relações se tornam mais ágeis. Então, onde alguns vêem a crise, outros enxergam oportunidades de dar um passo além.

Estou participando de alguns eventos e observo que as organizações do Sistema S e do setor privado estão promovendo debates e abertas para ações inovadoras. Precisamos andar juntos. Se você buscar, há uma série de vídeos na internet do presidente dos Estados Unidos com discursos a favor de coworking. Isso está se tornando um pilar importante para essa nova economia americana. Considera ainda que as empresas estejam um pouco antigas, porque quando o jovem sai da faculdade perde aquele ambiente de troca de ideias. Com o coworking, você tem o resgate disso, facilita o diálogo com outras empresas e pessoas de outras áreas. Algumas startups estão indo nessa direção. A Prefeitura Municipal de São Paulo mostra apoio para esse tipo de ações. Por outro lado, há filósofos importantes que estão defendendo que o colaborativo se tornará uma alternativa, como uma evolução do capitalismo com possibilidades de aprimorar, controlar e compartilhar.

Portal Setor3- Na publicação, é citado que o público mais envolvido com esse tipo de movimento é da geração milênio, nascidos entre 1989 e 2000. Há dificuldade de dialogar com outros públicos?

FA– Sabemos que temos uma questão geracional nessa economia. Cada geração tem característica diferente. A atual nasceu na realidade virtual há muito pouco tempo. Por exemplo, minha filha já usa programas que não sei usar e me ensina coisas que não tenho noção. Ela está me influenciando. Você tem a famosa geração Y, socialmente evoluída para algumas questões e o colaborativo é muito mais cotidiano. O carro não é mais símbolo de status e, se puder, você poder ir a pé ao trabalho. Você pode ainda ter uma bicicleta que possa dividir com outra pessoa e ir ao trabalho. Não é mais status ter carro, porque tem que pagar impostos para mantê-lo. Há pessoas que estão trocando tudo isso por morar perto do trabalho e ir a pé e vivem em apartamentos compactos, por exemplo. Toda essa modernidade é mais percebida pelas gerações mais novas. A vida nas grandes cidades está se tornando um fardo. O trânsito é um dos principais problemas. 63% dos jovens responderam que gostariam de viver mais perto do trabalho em uma pesquisa no Dia Mundial Sem Carro.

Portal Setor3- Quais foram as principais dificuldades da publicação?

FA- Não tivemos dificuldades. As pessoas da economia colaborativa são aquelas que praticam o associativismo, a troca de ideias e não têm medo de partilhar. O colaborativo é uma filosofia também, não apenas uma prática econômica. É um predicado aos indivíduos que decidiram seguir esse caminho. Acredito que logo mais não teremos mais uma divisão entre economia tradicional e a colaborativa. Existem muitas pessoas colaborativas e em breve vamos ver essa totalidade.


Para conhecer o guia, acesse aqui: http://goo.gl/fYfawz
Site da Cidade Colaborativa: http://www.cidadecolaborativa.org/


Data original de publicação: 15/09/2015