Publicação pretende envolver leitores sobre sustentabilidade com histórias inspiradoras de diferentes ativistas ambientais

O pesquisador levantou as histórias mais representativas e selecionou os temas que gostaria de abordar, como áreas protegidas, alimentação, caça predatória e outras.

Publicação pretende envolver leitores sobre sustentabilidade com histórias inspiradoras de diferentes ativistas ambientais
Imagine-se em um planeta com recursos naturais cada vez mais escassos, sofrendo com

Imagine-se em um planeta com recursos naturais cada vez mais escassos, sofrendo com aquecimento global, desmatamento e extinção de espécies. Se você é uma pessoa atenta, deve reconhecer muito bem o lugar com essa descrição. Apesar do intenso debate sobre sustentabilidade nos últimos anos, as mudanças necessárias para reverter o quadro atual ainda não ocorreram. Prova disso é a recente crise de abastecimento de água no Estado de São Paulo, a pior em 80 anos.

Diante desse cenário, governantes, ativistas ambientais e cidadãos começam a se perguntar e debater quais foram as origens do problema. Mas a parte difícil mesmo é encontrar as soluções. Racionamento? Captação de água em outras fontes? Dar desconto para quem economizar? Quais dessas opções poderia resolver o problema de maneira efetiva com os menores tempo e gastos públicos possíveis?

O biólogo e pesquisador Rafael Chiaravalloti mostra que pode haver uma solução ao contar uma história um pouco semelhante, mas que aconteceu no outro hemisfério. Em época de crise hídrica paulista, ele escreveu o livro O homem que salvou Nova York da falta de água – e outros 11 mestres da sustentabilidade, da Matrix Editora. O primeiro capítulo fala sobre Albert Appleton, aquele que ajudou a grande cidade estadounidense a não ficar com as torneiras secas. Na época ele foi escolhido como comissário responsável pelo assunto.

Publicação pretende envolver leitores sobre sustentabilidade com histórias inspiradoras de diferentes ativistas ambientais

A 200 km de Nova York havia um sistema de lagos nas montanhas Catskills, que era responsável pelo abastecimento da cidade. A situação se complicou com a poluição das águas. Ao longo do tempo, produtores rurais se instalaram ao longo das áreas captadoras do recurso, desmatando-as em nome da expansão da pecuária, e o volume diminuiu por conta dessa ocupação.

A única saída possível parecia ser a construção de estações de tratamento e de novos dutos de captação, mas Albert encontrou uma possibilidade nunca antes pensada: fez um acordo com os fazendeiros de Catskills, oferecendo compensação financeira para quem preservasse sua área e deixasse de sujar os lagos. Além disso, implementou uma série de medidas contra o desperdício na metrópole, desde sistemas de detecção de vazamento nos encanamentos até a adoção de vasos sanitários de baixo fluxo em todas as casas.

Albert conseguiu resolver a questão gastando muito menos do que o previsto e sem construir uma obra sequer. Rafael, que escreveu o livro na intenção de divulgar trajetórias inspiradoras, afirma que sua ideia não era conquistar leitores simplesmente pelo lado emocional e sim mostrar ações concretas e práticas. “São dois caminhos: tem um caminho que é desmatar tudo e construir uma canaleta para depois trazer a água, e um caminho que é plantar árvores. As pessoas precisam entender que existem outras alternativas”, diz.

Sobre o processo de coletar as informações, ele conta que fez uma lista inicial com 50 nomes. Aos poucos foi selecionando as histórias mais representativas para os temas que ele queria abordar, como áreas protegidas, alimentação, caça predatória, entre outras questões. Mesmo já conhecendo várias pessoas da área do meio ambiente, o biólogo entrou em contato com seus escolhidos para ir mais fundo na vida de cada um: “A história deles foi o que eu tive que pesquisar. O que eu sempre buscava era saber os detalhes, como no caso do Cláudio, que a mulher dele ficava brava porque ele pegava carrapato”.

O homem citado pelo autor é Claudio Padua, fundador do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), no qual Rafael também contribui realizando estudos. Mas não é pela parceria que Claudio entrou no livro, sua história é realmente de arrepiar: vindo de uma família com boas condições financeiras – assim como sua esposa – tinha uma vida confortável e bem estabelecida, com filhos, até decidir recomeçar tudo do zero para fazer biologia e encontrar uma maneira de ajudar o meio ambiente. Sua companheira, Suzana Padua, embarcou na aventura.

A partir disso aconteceu uma sequência de reviravoltas. Claudio conseguiu um estágio para ganhar muito menos do que em seu antigo emprego e conheceu o mico-leão-preto, animal com risco de extinção que ele foi incumbido de salvar. Para isso, foi fazer um mestrado nos Estados Unidos, para onde se mudou com Suzana e os três filhos.

Após três anos, retornou ao Brasil para morar em uma cabana no Morro do Diabo, um parque estadual na região do Pontal do Paranapanema, em São Paulo, local onde se encontravam os últimos sobreviventes da espécie. Foi exatamente nessa época que Suzana sofreu com os carrapatos do marido, porém não desanimou. Ela, que também deixara pra trás a profissão de designer de interiores para ingressar nos estudos ecológicos, desenvolveu uma série de programas de educação ambiental nesse local.

E, afinal, o mico-leão-preto foi realmente salvo. Para explicar a resolução desse e de outros conflitos, o autor apostou em organizar as informações (mesmo as técnicas) de maneira que fossem facilmente compreensíveis. “A ideia é que essa linguagem simples seja usada pra mostrar que existe conhecimento baseado em métodos científicos que mostram caminhos mais sustentáveis”, diz Rafael. Ele garante que cada informação e dado são completamente confiáveis e podem ser usados por qualquer um. E completa: “É tão legal essa coisa de divulgar o conhecimento, tentar deixar mais divertido, principalmente quando a gente faz o que gosta”.

Fazer com que cada vez mais gente conheça essas referências da sustentabilidade pode ajudar a população a repensar também seus próprios atos. O autor menciona o caso da geração de alimentos: “A questão não é aumentar a produção no mundo para dar conta dos bilhões de habitantes, porque na verdade um terço dela é desperdiçada por ano”. O número citado por ele representa 1,3 bilhão de tonelada. Enquanto isso, no planeta há 3,5 bilhões de pessoas com sobrepeso (metade da população) e um bilhão de subnutridas.

Esse grande impasse tem relação com toda a cadeia produtiva. Uma das pessoas que tenta quebrar esse ciclo é Teresa Coração, chef de cozinha que luta para valorizar produtores e alimentos locais, como uma forma de produzir de maneira mais sustentável e ainda evidenciar a cultura e a memória dos povos. Teresa já salvou várias comunidades e usou seus resultados para convencer mais profissionais da área que eles também poderiam fazer parte dessa mudança. Com mais 17 aliados ela fundou o Instituto Maniva, que segue apoiando grupos tradicionais no país.

Albert, Claudio, Suzana e Teresa são apenas algumas das personalidades que Rafael apresenta na publicação. Segundo ele, “O olho brilhando é o que define um mestre da sustentabilidade nesse tema do meio ambiente. Essas pessoas têm realmente uma vontade de fazer as coisas andarem, de deixar o mundo um pouquinho melhor do que está”. Mesmo realizando projetos no Pantanal, sendo um dos 22 jovens visionários finalistas do prêmio Rolex Awards e estudando seu doutorado na University College London, ele não esconde a admiração que tem por essas pessoas.

Aos poucos, o retorno desse trabalho vai aparecendo. Albert Appleton ligou recentemente para o autor e biólogo para contar que havia sido procurado por um jornalista de São Paulo que lera o livro e estava interessado em entender melhor a questão da água em Nova York. “Só por isso já ganhei o dia… não, ganhei os próximos dez anos!”, conta Rafael, empolgado.

Ele espera que os leitores saibam a existência de diversas possibilidades de ação. Algumas dicas são comprar comida orgânica, desperdiçar menos, não lavar a calçada com água. “Se eu quero deixar a ida para o trabalho mais sustentável, mas o ônibus é ruim e demorado, então lutar pelo transporte público da cidade talvez seja uma solução. Ao fazer parte de associações locais, isso é espalhado para outras pessoas e começa a acontecer uma mudança global”. E você, está esperando o que para se inspirar?

Texto: Natália Freitas

Data original de publicação: 20/08/2015