Professora alerta impactos do plástico

Coordenadora e professora do curso de Engenharia Ambiental e Engenharia Civil do Centro Universitário Senac conversa com equipe Setor3.

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Cerca de oito a 13 milhões de toneladas desse material impactam os oceanos, segundo dados da ONU do Meio Ambiente. (crédito da imagem: kotangens/GettyImage)

Milhões de garrafas de plástico são produzidas por minuto, cerca de oito a 13 milhões de toneladas desse material impactam os oceanos, mais de 40% de todo o plástico produzido durante 150 anos foi usado apenas uma vez antes do descarte e somente 9% foi reciclado. Esses são alguns dos dados da Organizações das Nações Unidas (ONU) do Meio Ambiente. O plástico é um dos principais desafios do século XXI a ser combatido e, por conta dessa emergência, a National Geographic lançou uma campanha em meados do ano passado chamada Planeta ou Plástico? Conheça aqui: https://www.nationalgeographicbrasil.com/planeta-ou-plastico

O Setor3 conversou com Emilia Satoshi Miyamaru Seo, engenheira química, com mestrado em Tecnologia Nuclear e doutora em Ciências pela Universidade de São Paulo, professora titular do Centro Universitário Senac e pesquisadora colaboradora da Comissão Nacional de Energia Nuclear, do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares SP, sobre o impacto desse tipo de material no meio ambiente.

A pesquisadora ainda esclarece que, segundo a ONU, a melhor gestão do plástico, com maior cuidado com a origem da matéria-prima, eficiência na linha da produção e mais reciclagem, pode economizar às companhias pelo menos US$ 4 bilhões ao ano. Emília também avalia importante: acompanhar com mais cuidado a produção e a destinação dos materiais plásticos e embalagens, com a produção de inventários e documentos de acesso público; se comprometerem a reduzir os impactos ambientais do plástico, com a adoção de metas práticas; buscar a inovação de suas cadeias produtivas, para que seja produzido com menos energia e resíduos; colaborar com os governos no desenvolvimento de legislações que ajudem a reduzir o descarte indevido dos plásticos; fornecer informações corretas para órgãos de controle, para que sejam conhecidos os impactos reais ao planeta; e investir em novas tecnologias, como materiais biodegradáveis. Leia a entrevista abaixo:

Portal Setor3 – Primeiro gostaria de saber tua análise breve sobre a gravidade do plástico hoje no nosso dia a dia?

Emilia Satoshi Miyamaru Seo – Atualmente, o uso de produtos, materiais, brinquedos, garrafas, entre outros produtos, têm como base o plástico, trazendo uma gravidade enorme no nosso dia a dia. Atualmente são mais de 8 milhões de toneladas de plástico descartadas diariamente. Ainda é um material mais barato, leve e fácil de se trabalhar. As gravidades no

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Emilia Satoshi Miyamaru Seo é engenheira química e professora titular do Centro Universitário SENAC. (crédito da imagem: arquivo pessoal)

nosso dia a dia são: 1) começa no uso da matéria prima para fabricação, que é nafta, derivado do petróleo. A extração da nafta já não é sustentável; 2) as suas propriedades como durabilidade e resistência viram problemas após o descarte. A sua degradação é bastante lenta podendo demorar mais de 200 anos para se decompor, logo temos que pensar no uso de uma matéria prima renovável, por exemplo, plástico fabricado com cana de açúcar, milho, mandioca, trigo e beterraba. Além de pensar fortemente nos nossos 3 Rs (reduzir, reciclar, reutilizar); 3) transporte deste polímero na forma de particulados de 5-10 mm, por exemplo, podem causar danos nas fábricas de brinquedos, ou quando houver derramamento deste material nas rodovias, que vão para outros lugares, incluindo água, alimentos, solos, em suma para toda a cadeia alimentar; 4) uso de roupas com tecido a base de poliéster causa poluição do ar causados pelo atrito de tecido e/ou lavagem em máquinas de lavar roupas surgem o que chamam de plástico invisível, particulados da ordem de micron que contém o plástico, que chegam em esgotos e ingeridos por seres vivos; 5) uso de creme com esfoliantes e esmaltes, que são fabricados a base de plástico.

Portal Setor3 – Qual setor (indústria/comércio/órgãos públicos/etc) utiliza mais?

ESMS-
Entre as companhias que utilizam plástico, as que causam mais impactos ao meio ambiente, são as alimentícias, com 23% do total. Em seguida, aparecem as de refrigerantes, com 12%.

Portal Setor3- Você poderia listar, de forma simples e resumida, quais os principais males do plástico?

ESMS- Cientistas já detectaram que os plásticos, assim como outras resinas, geram malefícios ao meio ambiente e, principalmente, à saúde humana. Podemos listar em: 1º) o ecossistema marinho que mais sofre com os plásticos. O que chamamos de micro plásticos podem ser ingeridos pelos animais marinhos, afetando o acúmulo dessa substância no organismo e não terem uma alimentação saudável. A poluição das águas, a morte de animais e o prejuízo para o turismo alcançam pelo menos os US$ 13 bilhões ao ano; 2º) a substância bisfenol A (BPA) é um polímero orgânico que está contido em DVDs, computadores, eletrodomésticos, revestimentos para latas de comida e bebida, brinquedos, talheres descartáveis, tintas, etc.; promovem poluição química que comporta como disruptor endócrino, podendo causar esterilização em animais, problemas comportamentais, diminuição da população, entre outros.

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Dados do infográfico foram retirados do Fundo Mundial para a Natureza (WWF) e na matéria da Ecycle https://bit.ly/2FxIRse (crédito da imagem: comunicação digital do Senac São Paulo)

Portal Setor3- Em sua opinião, por que a indústria ainda investe tanto no plástico, ou você avalia que há um esforço de combate ao plástico?

ESMS- Investem no uso de plástico devido as suas propriedades como baixa densidade e material fácil de se trabalhar e baixo custo. Entretanto, quando se trata de sua resistência e durabilidade torna-se preocupante pois a sua decomposição leva mais de 200 anos para decompor no aterro sanitário, prejudicando o meio ambiente e consequentemente tornando malefício à saúde humana. Não existe um combate ao plástico, entretanto existe um esforço por parte de indústrias e pesquisadores em partir de uma matéria prima renovável para obter um produto que possa ser reciclado e decomposto rapidamente. Por exemplo: o copo descartável biodegradável produzido a partir do amido de milho ou batata e o PLA (ácido poliláctico,) derivado do processo de fermentação. O produto descartado no aterro degrada em três a seis meses. Adota-se uma economia circular. Funciona assim: o consumidor deve devolver os recipientes plásticos em máquinas específicas para isso (que lembram máquinas de comprar refrigerante) que irão reconhecer de onde aquele plástico é. Essas embalagens chegam ao fabricante que as produziu e ele as vende para a indústria de reciclagem e compra novamente prontas para reutilizar.

Na Irlanda, o plástico é reciclado e se transforma em diesel, que também é um derivado do petróleo. O combustível vindo da reciclagem tem um bom preço para o consumidor, além de evitar a poluição por plásticos. Já no Brasil, a Lei Federal nº 12.305, de 2010, apresenta a Política Nacional dos Resíduos Sólidos que institui responsabilidade compartilhada dos geradores de resíduos: fabricante, importador, distribuidor, comerciante, cidadão e titulares de serviços de manejo dos resíduos sólidos urbanos.

Portal Setor3 – E quais dados são alarmantes sobre o impacto do plástico no meio ambiente, como nos mares e nas florestas, e até nas grandes cidades?

ESMS-
O cenário ideal é a reciclagem, mas o cenário real é que o plástico vai para os depósitos de lixo e, na grande maioria das vezes, cai no oceano. Isso causa os seguintes e gravíssimos problemas:

  • Ingestão do plástico por aves, peixes, baleias, golfinhos e qualquer outro animal marinho. Isso impede esses animais de voar ou boiar corretamente, além de matá-los por inanição, porque seus estômagos ficam tão cheios de plástico que eles não conseguem mais ingerir comida de verdade. Estima-se que 90% das aves marinhas já ingeriram algum pedaço de plástico ao longo da vida;
  • Danos físicos aos animais marinhos. Canudos podem parar na narina das tartarugas, peixes podem ficar sufocados em sacolas plásticas, focas e qualquer outro animal um pouco maior podem ser enforcados em redes de pesca descartadas no mar;
  • Microplástico nos oceanos carrega substâncias nocivas com ele. Os pequenos pedacinhos de plástico são como ilhas para microorganismos, bactérias, resíduos tóxicos como os da agricultura e da indústria farmacêutica. Os microplásticos ingeridos pelos animais marinhos, tal como peixes, vão para o prato das pessoas que comem carne, fazendo com que elas também se contaminem com os microplásticos e tudo o que eles carregam;
  • O plástico é tóxico para nós humanos, mas ainda assim é usado para embalar comida. Por ser um derivado de petróleo. Ele é tóxico. Seus grãos e pedacinhos são levados pelo vento e pela chuva e, assim, contaminam o solo onde crescem nossos alimentos.

Conheça aqui a campanha Planeta ou Plástico? https://www.nationalgeographicbrasil.com/planeta-ou-plastico