Prefeito de São Paulo dá aula magna de economia solidária para mulheres da periferia

Prefeito de São Paulo dá aula magna de economia solidária para mulheres da periferia

Foi na Sala do Conservatório da Praça das Artes, localizada no centro de São Paulo, que o Prefeito Fernando Haddad exerceu um papel diferente do habitual diante de mulheres da periferia da cidade no dia 27 de outubro. Na tarde da última terça-feira, ele foi professor da aula magna Economia Solidária e Políticas Públicas para as mulheres, que encerrou o curso de mesmo tema promovido pela Secretaria Municipal de Políticas para Mulheres (SMPM), sob responsabilidade de Denise Motta Dau, e aplicado por meio dos Centros de Cidadania da Mulher (CCM). Atualmente, existem cinco unidades, espalhadas pelos bairros de Itaquera, Capela do Socorro, Santo Amaro, Perus e Parelheiros.

Fruto de uma ação interseccional, o encontro contou com apoio da secretária de Assistência e Desenvolvimento Social, Luciana Temer, do secretário de Direitos Humanos e Cidadania, Eduardo Suplicy e do secretário de Desenvolvimento, Trabalho e Empreendedorismo, Arthur Henrique. O último, em sua fala, ressaltou a necessidade de transformar essa nova organização de trabalho em alternativa econômica viável. Citou ações do poder público, como a assinatura, no começo de outubro, do decreto que regulamenta o Estatuto Nacional da Micro e Pequena Empresa em São Paulo e determina que compras públicas de até R$ 80 mil devem ser feitas apenas com micro, pequenas empresas e sociedades cooperativas. Mencionou também a inauguração prevista para o início de novembro do Centro Público de Direitos Humanos e Economia Solidária, no bairro do Cambuci. Segundo ele, o centro vai seguir princípios da economia solidária: “O primeiro deles é a igualdade entre as pessoas que participam dos projetos, o segundo é a importância do conceito da solidariedade”.

Quando o momento esperado pelas alunas chegou, a aula em si, Haddad comparou as relações de trabalho servil, escravo e assalariado, este último pontuado como marca da sociedade moderna. “O assalariamento significou uma espécie de libertação, embora nós saibamos que essa liberdade é mais formal do que material, porque se a pessoa nasce em uma família pobre, ela não tem condições de sobreviver a não ser vendendo sua força de trabalho”, disse. Em seguida, completou que a concorrência entre os trabalhadores provoca queda nos salários, especialmente em cenário de instabilidade econômica como o que o país está passando.

De acordo com o prefeito, é muito raro o capitalismo, no qual vivemos, viver em situação de pleno emprego, pois isso contribui para o equilíbrio do próprio sistema. Sendo assim, mesmo sendo assimétrico e capaz de aprofundar desigualdades, é considerado por muitos a melhor forma econômica que já existiu, até mesmo por incentivar a produtividade e a criatividade. “Isso confunde as pessoas, porque são muitas as variáveis para julgar a justiça, a conveniência e a oportunidade dessa forma de organizar a produção”, disse. Para ele, é nos momentos de crise que as pessoas têm chance de pensar diferente.

“Hoje o que está colocado não é a revolução. As pessoas podem esperar o ciclo passar ou, a partir do seu talento e vocação, buscar um espaço na economia como ela está hoje”, afirmou. Ele acredita que muitos do que arriscarem esses novos caminhos, seja do microempreendimento, ou da organização em cooperativas, não voltam mais para o mercado de trabalho em seus padrões tradicionais. É nesse contexto que a economia solidária pode se fortalecer, especialmente para as mulheres.

Segundo Denise, a formação que se encerrou está em sua primeira etapa e conta com apoio técnico e financeiro da Secretaria de Política para as Mulheres do governo federal. “Essa fase consiste na mobilização, sensibilização e capacitação de 500 mulheres sobre gênero, autonomia econômica e economia solidária”. O conteúdo, que soma 32 horas, é ministrado pela Sempreviva Organização Feminista. Já a segunda etapa do curso terá 64 horas de aulas e prevê a criação de grupos produtivos, que continuarão contando com assessoramento e terão início em fevereiro de 2016.

Ela ainda citou números importantes da participação das brasileiras no cenário atual. De acordo com o Sistema Nacional de Informações em Economia Solidária (Sies), as mulheres representam aproximadamente 44% do total de atuantes nessa área. Denise explica “embora seja visível que a maioria de quem atua na economia solidária é composta por mulheres, os dados oficiais não mostram isso pelo baixo associativismo delas, mas estamos avançando”. Além disso, das 426 mil pessoas organizadas em cooperativas, elas estão em 136 mil.

Apesar de serem oficialmente minoria, a secretária apontou que 56% dos cargos de liderança na economia solidária são ocupados pelas mulheres: “Elas estão comandando as entidades. Essa capacitação é fundamental. Esse setor é diferente da inserção tradicional no mundo do trabalho, é preciso vocação, resistência, persistência”. Ela ainda ressalta a importância de não se manter na informalidade: “isso restringe o acesso ao crédito, aos programas de compras públicas e demais políticas, além de gerar fragilidade mesmo entre o segmento onde se presume maior igualdade”.

Sempreviva Organização Feminista: http://www.sof.org.br/


Texto: Natália Freitas
Data original de publicação: 29/10/2015