Plataforma dissemina práticas de cultura de paz

Responsável pelo programa Cultura de Paz do Senac São Paulo fala sobre ações que ajudam em relações mais saudáveis.

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Encontro do grupo de planejamento de várias unidades do Senac São Paulo para alinhamento de atividades da área. (crédito da imagem: divulgação)

“Se cada ser humano é único e traz consigo uma bagagem imensa de significados, é inevitável a presença dos conflitos”, afirma Andrea dos Santos Pereira Nunes, coordenadora do Programa Cultura de Paz do Senac São Paulo, conversa com a equipe do Setor3 sobre as práticas compartilhadas com funcionários da organização, docentes e alunos das unidades sobre temas do dia a dia e fundamentais para convívio sadio e relacionamento mais humanos.

Portal Setor3- Qual foi o pontapé para criar uma plataforma com esses vídeos?

Andrea dos Santos Pereira Nunes – A ideia da plataforma estava presente desde o início do planejamento dos eventos, como parte do processo educacional de disseminação de conteúdos, reflexões e diálogos tão valiosos, àqueles que não puderam estar presentes fisicamente nos eventos realizados pelas unidades para a construção do conhecimento. Ela também oferece repertório para identificação, compreensão e manejo para o enfrentamento coletivo e não-violento aos desafios da contemporaneidade. São assuntos de interesse de toda a sociedade, sobretudo nos grandes centros urbanos, marcados por crescentes manifestações de caos e violência. No contexto nacional, casos de violações de direitos e desmobilização ou confronto social são caracterizados por uma dinâmica de relações complexas que exigem, mais do que o tratamento dos sintomas, atuar com eficácia na raiz de suas causas e na formação de uma comunidade de aprendizagem que colabore e caminhe juntas na direção de soluções para influenciar maior participação democrática e redução das vulnerabilidades que tanto nos afligem. Do ponto de vista do mundo do trabalho, a velocidade das demandas e a diversidade de perspectivas, por vezes, encontram na falta de repertório dos funcionários, obstáculos para a inovação. Os conflitos se acirram e competências como equilíbrio emocional, habilidade para se relacionar, capacidade de mediar diálogos em grupos, resolver problemas complexos, acolhendo as diferenças e favorecendo a fluidez da comunicação são mais do que nunca demandadas.

Portal Setor3- O Senac está sendo demandado por empresas para falar sobre esses temas expostos em vídeos aqui na plataforma? Se sim, compartilhe um caso, se possível?

ASPN- Sim. O Programa Senac de Cultura de Paz ficou durante quatro anos estritamente dedicado ao trabalho de sensibilização e formação de seus funcionários. Com o tempo e o engajamento, naturalmente, a equipes das unidades educacionais passaram a responder às demandas solicitadas pelas organizações com quem mantém relacionamento, seja pelo atendimento corporativo, seja pelo fomento à educação comunitária. O programa institucional investiu no treinamento de funcionários multiplicadores para disseminação local das premissas e metodologias da cultura de paz. Por que não multiplicar também externamente?

Aqui um exemplo de como o Senac pode catalisar um processo de diálogo, formação educacional e fortalecimento de redes de engajamento no tema da empregabilidade trans, por meio da unidade Aclimação. O evento foi parte de um processo que já estava acontecendo de articulação social, a partir de um projeto de aluno. Confira aqui: https://goo.gl/ShtmYb

Também tenho sido demandada por empresas para conhecer o Programa, como benchmarking de recursos humanos interessados na área de treinamentos, educação corporativa e cultura organizacional. Em geral, os clientes são órgãos públicos e as práticas restaurativas vem sendo um tema bastante solicitado (na plataforma catálogo de conteúdos de Cultura de Paz está no evento do Senac São José do Rio Preto).

Portal Setor3 – Em sua avaliação, qual a importância de uma empresa de educação para falar desses assuntos ainda difíceis de serem expostos e debatidos dentro de uma organização?

ASPN – O Senac São Paulo é uma organização que não mede esforços para oferecer uma formação profissional de excelência. Responder as demandas de mercado não é suficiente, em um mundo marcado por profissões que estão desaparecendo, ou tendo sua força de trabalho substituída por máquinas. Um olhar atento às tendências do futuro, unido a um forte senso de propósito ético, justo e sustentável, engaja o Senac São Paulo em ações que buscam o desenvolvimento humano e social integral, por meio de competências que possam influenciar não só o mundo do trabalho, mas todo o convívio e o futuro de uma sociedade. Trata-se de um protagonismo de inovação que, ao mesmo tempo que desenvolve, busca aplicar. Estar à frente de um programa norteado por valores como equidade, respeito e colaboração, e ancorado por uma proposta pedagógica tão revolucionária, para mim, é motivo de muito orgulho e, mais que isso, sentido de vida.

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Resumo de temas e assuntos do planejamento de atividades de algumas unidades do Senac São Paulo. (crédito da imagem: divulgação)

Portal Setor3 – Como as práticas de cultura de paz podem contribuir na convivência diária em distintas organizações privadas e públicas?

ASPN – Compor a diversidade de talentos e inovar; trabalhar em equipe de forma ética e colaborativa; resolver conflitos por meio do diálogo e da empatia; desenvolver competências como a negociação, a comunicação não-violenta e a resiliência são alguns dos diferenciais competitivos das organizações capazes de lidar com a complexidade do ser humano e dos desafios da contemporaneidade. Para adaptar-se a um mundo dinâmico, repleto de incertezas, com mercados instáveis que demandam por rapidez e praticidade na tomada de decisões, com equipes diversificadas, às vezes distantes fisicamente umas das outras, é preciso transformar a maneira de enxergar e se posicionar no mundo, favorecendo um clima organizacional catalizador de boas ideias e excelentes relações humanas. A implementação de uma cultura como essa requer a participação de toda a organização, em que cada indivíduo é corresponsável pelos resultados do todo, de um sistema que é vivo. Conceitos, valores e práticas de cultura de paz e não-violência, fomentadas globalmente pela Unesco, vem se mostrando eficazes no fomento a uma convivência em que a interdependência inclui a todos como interlocutores necessários a inovação e a melhoria da qualidade da entrega dos serviços de uma organização. Em especial, as áreas de recursos humanos tem papel fundamental no acesso a metodologias que permitem aos indivíduos lidar melhor consigo mesmos e equacionar a multiplicidade de informações e estímulos, em que cada vez mais vozes são chamadas a protagonizar, com a saúde emocional, mental e criativa. Se cada ser humano é único e traz consigo uma bagagem imensa de significados, é inevitável a presença dos conflitos. E se pensarmos claramente, não existe inovação sem conflito. Portanto, não ter os recursos para transformá-los em oportunidade de aprendizagem pode levar a sensação de impotência, apatia e até mesmo a situações de violência em suas diversas formas. Ao abrir espaço para o diálogo e tudo que ele abarca, por exemplo, é possível conhecer mais profundamente os valores, os pressupostos e as competências das equipes. Um líder que não percebe seus funcionários, suas emoções, necessidades e talentos, certamente perde grandes oportunidades de melhorar os resultados da empresa. Investir na formação de vínculos entre os funcionários e em competências relacionais, permite que as equipes se respeitem e se regulem, oferecendo feedbacks construtivos e contínuos até que encontrem o ponto certo de sintonia e produtividade. Cabe ao líder oferecer desafios tangíveis, reconhecendo e elogiando cada passo dado, reforçando a importância da comunidade de aprendizagem, pois a mobilização do outro depende da empatia e do encorajamento oferecidos pelo gestor, evitando os obstáculos do que torna possível a inovação e a sustentabilidade de um negócio, e por que não, da própria vida em sociedade.

Portal Setor3 – Essa plataforma é direcionada para quais profissionais?

ASPN –
O conteúdo dos eventos é de interesse de toda a população. São temas mais evidentes nos ambientes corporativos, e, portanto, pode interessar em especial líderes, profissionais de gestão, educação, recursos humanos e desenvolvimento social; na vida escolar, equipes pedagógicas e professores podem estar mais atentos e urgentes aos temas; mas também servem à convivência em geral como sociedade, no respeito mútuo, na preocupação com a dignidade humana, na participação social e democrática, e as famílias na educação dos seus filhos. Todos nós como corresponsáveis pelo processo de desenvolvimento da nossa condição humana e sustentável no Planeta.

Portal Setor3 – De que forma as pessoas podem utilizar o conteúdo disponível na plataforma?

ASPN – Como ação formativa a distância; pílulas de conhecimento; objetos de aprendizagem para sensibilização individual ou de grupos, seguidas com rodas de diálogos entre os espectadores a partir dos contextos locais. Podem ser estímulo não só para bate-papos, mas para articulação comunitária, formação de redes, contato com especialistas convidados dos eventos ou do contexto local; ou ainda de diálogo com o próprio Senac, que fica à disposição para fomentar a disseminação dos assuntos, bem como oferecer formação customizada às necessidades demandadas no que tange os fundamentos do Programa Senac de Cultura de Paz. Todas as unidades têm executivos de contas para analisar as necessidades específicas dos interessados, montar propostas a luz desses diagnósticos e multiplicadores preparados para concretizar essas propostas.

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O Senac Aclimação focou o debate em Empregabilidade Trans: inclusão na cultura organizacional. No catálogo, é possível checar cobertura do evento. (crédito da imagem: divulgação)

Portal Setor3 – Como foi a seleção de temas dos eventos dessa área?

ASPN – Foi aberto um período de submissão de propostas por parte das 60 unidades do Senac a equipe responsável pela idealização e coordenação do processo, ainda Grupo de Desenvolvimento Social, que apresentou escopo e premissas de trabalho. O orçamento previsto era para um projeto piloto e não poderia ser ultrapassado. Mas poderia e foi rateado entre as unidades escolhidas. A escolha das unidades respeitou os seguintes critérios: 1) aderência a algum compromisso, em rede, no fomento do subtema; 2) Fortalecimento do Programa Rede Social ou do Programa Cultura de Paz; 3) Condições para a realização e atendimento aos requisitos do evento; 4) Participação no planejamento coletivo; e 4) Envolvimento da comunidade escolar na organização do evento.

A escolha dos subtemas deveria ser alinhada a assuntos relacionados a redes sociais e cultura de paz, tais como escuta atenta; empatia; educação emocional; comunicação não violenta; resolução de conflitos; autoconhecimento; violência estrutural e cultural; práticas restaurativas, diálogo; mediação de grupos; planejamento coletivo; complexidade; democracia; mobilização comunitária; planos de bairro; etc. É importante uma abordagem apreciativa como premissa. Isto significa abordar o tema focalizando o potencial existente nas pessoas, nas relações, na rede, nos serviços e nos produtos como ponto de alavancagem de soluções coletivas.

Na execução do evento, foram recomendadas ações de acolhida e boas vindas do público, com um cuidado especial na hospitalidade e inspiração para os diálogos entre convidados e participantes. Foi estimulada a apresentação de cases reais e baseados em contextos locais; bem como atividades, produções ou performances artísticas e lúdicas por parte dos alunos.

Foram indicadores de qualidade e desempenho: escolha de um tema alinhado a estratégia da unidade e a uma tendência local; relevância do palestrante convidado e das atividades previstas no evento (criatividade e alinhamento a tendência educacional); participação de alunos e organizações da rede local; utilização de recursos locais (captação); ampliação dos relacionamentos da unidade escolar e desdobramentos de ações, vendas e projetos após o evento.

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Na unidade de Itaquera, o debate focou em: Educação Emocional- elementos para uma vida saudável. Vídeos e fotos estão na plataforma. (crédito da imagem: divulgação)

Portal Setor 3- Atualmente como a cultura de paz está sendo desenvolvida dentro da organização? E quais os principais objetivos tanto para público interno quanto o externo (alunos e interessados pelo tema)?

ASPN – As ações de cultura de paz surgem a partir de projetos sociais e de relacionamento com as pessoas e organizações onde o Senac está inserido com o intuito de contribuir com o desenvolvimento sustentável dessas localidades. Ao perceber a eficácia das metodologias, em 2013, as ações de cultura de paz ganharam contornos de um programa institucional no Senac. O esforço passa a ser o de sensibilização e formação das equipes pedagógicas e, em especial, docentes. De 2013 a 2017, mais de 6 mil funcionários foram sensibilizados e quase 3 mil capacitados nessas metodologias. Como desdobramento desse investimento, realizamos mais 600 projetos pelas equipes das unidades, impactando mais de 30 mil alunos e comunidades com as quais o Senac atua. Hoje, é possível perceber melhorias na convivência, com a percepção de salas de aulas mais inclusivas e menores índices de evasão e com equipes mais integradas e produtivas. Em 2017, o Programa Senac de Cultura de Paz foi incorporado ao Núcleo da Educação Corporativa da Gerência de Pessoal do Senac São Paulo. A partir de então, amplia-se as possibilidades de atuação e influência no desenvolvimento de competências dos funcionários da instituição e na própria cultura organizacional. Com cultura de paz, é possível perceber de forma mais clara a importância de criar intencionalmente espaços seguros, individuais e coletivos, de feedback e diálogo, com confiança de expressar os incômodos causadores dos conflitos com foco na negociação e na produção coletiva de um acordo em que todos os envolvidos sintam que a convivência será melhor no futuro e que estão evoluindo juntos.

Conheça aqui o programa Cultura de Paz do Senac São Paulo: https://goo.gl/upGLpC

Acesse o catálogo de conteúdos de Cultura de Paz: https://goo.gl/yXducQ