Plan International lança campanha de combate à violência sexual a meninas e mulheres e traz o filme A Filha da Índia ao Brasil

Plan International lança campanha de combate à violência sexual a meninas e mulheres e traz o filme A Filha da Índia ao Brasil

“A Filha da Índia é a filha do mundo inteiro”. A frase é da produtora do filme India’s Daughter, Leslee Udwim, que iniciou o debate de ontem à noite para um grupo de profissionais da imprensa e da área de defesa de direitos humanos após a exibição do documentário que aborda o caso de estupro coletivo com uma estudante de medicina que morreu após esse acontecimento em dezembro de 2012. Junto com a apresentação da produção, foi lançado a campanha #QuantoCusta a violência sexual contra as meninas?, promovido pela Plan International. Segundo estudo feito pela Child Fund Alliance e discutida no seminário Livre de Violência, as perdas econômicas globais causadas pela violência contra crianças chegam a 21 trilhões de reais.

A proposta da campanha é fomentar uma reflexão sobre o investimento que a sociedade paga por manter uma cultura de tolerância em relação ao abuso sexual contra mulheres e meninas. A campanha ainda informa que 70% das vítimas de estupro são crianças e adolescentes. Todos os anos cerca de 500 mil mulheres são vítimas de estupro no Brasil. Por outro lado, 10% dos casos de estupros são notificados e a maioria dos agressores não é punida.

Para chamar atenção desse tema, a campanha trouxe ao Brasil o filme que causou uma indignação mundial com o caso de estupro coletivo na Índia. O documentário mostra a violência sexual e a questão de gênero como eixo central. O enredo conta o acontecimento por meio de entrevistas dos atores envolvidos, os pais da vítima, os advogados, especialistas da área de direitos humanos e até representantes do governo da Índia. A jovem voltava do cinema no início da noite com seu amigo e pegaram um ônibus, onde estavam presentes sete rapazes. Bêbados, eles bateram no jovem e a estudante foi violentada física e sexualmente.

Leslee reforçou que esse episódio não é exclusividade da Índia. A sociedade de muitos países ainda é mercada pela relação de patriarcado e a desigualdade de gênero. Em diferentes países, mulheres e meninas passam ainda por situações de violência física e sexual, além da desvalorização por ser mulher. A sua principal motivação foi entender o porquê aquele caso causou tanta comoção e gerou várias mobilizações nas principais vias de diferentes cidades da Índia. “Nunca tinha visto isso antes”. Também compartilhou que passou por estupro aos 18 anos e pensava que ficaria irritada em vários momentos durante essa produção: “Em 31 horas de entrevistas com os sete criminosos, em poucos momentos senti raiva. Eu senti uma profunda pena. O mundo criou esses criminosos com uma cultura patriarcal e desigualdade de gênero”.

Ela ainda comentou que ficou surpresa por sentir que os criminosos não se arrependeram em nenhum momento, pelo contrário, ficaram chocados por estarem recebendo uma punição tão severa, sentença de morte. “Eles não acreditavam que estavam errados em nenhum momento. Ficaram surpresos, porque outros homens também faziam coisas semelhantes e não foram condenados dessa forma”.

E como mudar esse cenário de violência? A produtora britânica defendeu a educação a todos. Ela defende a necessidade da educação de valores e a igualdade de gênero nas escolas. “Achava que era só ensino formal, mas quando vi as falas dos advogados dos criminosos pensei: O que estamos ensinando? Ensinamos a ler, contar e vários cálculos com números”.

Leslee atua ainda como membro da Comissão de Direitos Humanos da ONU por meio da Iniciativa Global de Estudos pela Igualdade. Atualmente ela contribui na defesa por incluir a igualdade de gênero dentro dos planos de educação. Durante o evento, pediu o contato com o Ministério da Educação daqui do Brasil. “Alguns podem até falar que a educação de vocês possui programas de igualdade racial e de gênero, mas soube que não foi aprovado o debate de gênero nas escolas”, disse sobre a aprovação do Plano Municipal de Educação de São Paulo sem a palavra gênero.

Já Viviane Santiago, especialista em gênero e coordenadora de projeto da Plan International Brasil, falou que a situação do documentário é bem parecida com a do Brasil. A condição da mulher ainda é vulnerável. “Há uma subalternização para possibilitar a existência do homem”, defendeu.

A pedagoga ainda comentou que há ainda “forças tradicionais” para impedir debates sobre a equidade de gênero nas escolas. “A grande questão é vai fazer ou não? E a quem interessa? Qual ordem e quem se beneficia com isso?”, questionou e ainda reforçou que apenas em 2009 a legislação brasileira considerou o estupro como crime hediondo. “Nós não estamos tão distantes da Índia. Essa é a ordem da sociedade. E os contos de fadas reforçam a estrutura desse tipo de sociedade”.


Data original de publicação: 17/09/2015