Pesquisadores defendem a visibilidade de vítimas em sociedade violenta

Na 2ª edição Seminário Internacional Arte, Palavra e Leitura tem como tema: O papel das narrativas na construção do humano.

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Evento está em sua segunda edição e contou com seis mesas redondas com especialistas brasileiros e estrangeiros. (crédito da imagem: divulgação)

Quais são as possíveis conexões diante de um Brasil desigual, marcado pelas altas taxas de violência contra mulheres e jovens das periferias? Essa foi a questão central dos palestrantes na palestra de abertura Lugares de fala e visibilidade do 2º Seminário Internacional Arte, Palavra e Leitura, na terça passada à tarde (19/03). O evento ocorreu entre os dias 19 e 21 de março no auditório do Sesc Pinheiros.

Realizado pelo Itaú Social e Sesc São Paulo, com curadoria da Comunidade Educativa CEDAC e do Instituto Emília, o evento contou com mesas redondas com especialistas brasileiros e estrangeiros da área. Entre os participantes, estavam a professora Rudine Sims Bishop (The Ohio State University), a editora colombiana María Osorio (Babel Libros – prêmio melhor editora da América Latina da Feira de Bolonha em 2017), os escritores e pesquisadores Freddy Gonçalves (Espanha) e Adolfo Córdova (México), a escritora Sara Bertrand (Chile) e outras pessoas atuantes no segmento aqui do Brasil.

Na palestra de abertura, Ivan Marques, advogado, mestre em relações internacionais e diretor executivo do Instituto Sou da Paz, mostrou dados impactantes: “O Brasil ocupa piores lugares em rankings que matam de forma violenta, segundo dados levantados em 2017. Temos 55 mil mortes dolosas e 1000 pessoas que apanharam e morreram, 14 pessoas mortas por dia, 2300 estupros e, em média, 30% são reportados, e 22.038 casos registrados como violência doméstica. Tudo isso ressoa no cotidiano das pessoas”.

O pesquisador ainda ressaltou que a cidade de São Paulo possui índices mais baixos do que Chicago (Estados Unidos). “Ainda sem a sensação de insegurança, mas o medo não está de forma igual. As desigualdades brasileiras se mostram com os índices de violência. Se vermos por faixa etária, não é todo mundo que morre. É o jovem que mais morre: especificamente de 16 a 24 anos de idade. E se formos olhar para as pessoas: população negra e parda: 74% são vítimas das armas de fogo são negros e habitantes de periferias. Se a gente sabe quem morre e quantos morrem, por que os massacres nas escolas ocorrem desde 2002? Por que Marielles e Andersons morrem?”.

O representante do Instituto Sou da Paz ainda chamou atenção por que as causas desses números não sã focadas nos debates e ainda citou outro dado importantes: 81 territórios brasileiros concentram 66% dos homicídios. “O Brasil depende do esforço da sociedade civil. Muita coisa de trabalho preventivo, educação, assistência social, social, saúde é feita por organizações da sociedade civil. Precisamos de Estado mais presente, minha opinião. A tecnologia ainda pode possibilitar uma série de coisas que precisam ser feitas. Se não tivermos essa integração com o outros (comunidades e policiais), dificilmente vai ser resolvido”.

Do lado acadêmico e da comunicação, Rosana Borges iniciou sua fala com uma pergunta: Como foi possível o que é? “O Brasil é um país desigual com base racial. Por isso falar do racismo consegue falar de tudo”, defende a pesquisadora da ECA e colunista do blog da Editora Boitempo. Ela ainda comenta que conceitos como lugar de fala muito discutido nas redes sociais precisa ajudar a pensar em diversas questões para dimensionar situações visíveis e invisíveis. Ela ainda observa a sociedade brasileira insegura e com discurso: bandido bom é bandido morto.

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Especialistas da área de defesa de direitos, filosofia do direito e da educação esclarecem a importância do espaço de fala e visibilidade de diferentes grupos sociais. (crédito da imagem: Fernando Cavalcanti)

A jornalista pós-doutorada em ciências da comunicação fala ainda sobre o conceito do filósofo de Camarões Achille Mbembe, quando ele defende que há uma sosfisticação nas formas de morte do outro, do ponto de vista do imaginário. “Jovens negros disputam nosso medo moral”, afirma. E ela questiona ao público: “Qual Estado está na periferia? “

A comunicadora ainda ressaltou que há um pacote criminoso que se perpetua com a crueldade. “Quando se fala que a educação ‘salva’, num mundo de bússola educar, temos que nos perguntar: em nome de que educamos? Não há saídas. Estamos sem perspectivas na área da educação. Não tem como ter outro tópico, já que vivemos hoje alterofobia ganhando dimensões novidadeiras”. Ela ainda esclarece que a violência não é de agora. “As redes sociais são somente um sintoma. Durante a campanha, o brasileiro se mostrou saindo do armário”.

A escritora também explica que há uma anterioridade de como as pessoas são. Ela recordou do episódio da chacina de 111 tiros de fuzil no carro de jovens que foram confundidos com assaltantes disparados por policiais militares. Esse episódio ficou conhecido como Chacina de Costa Barros. “Vemos essa situação violenta e me pergunto: o que mobiliza? Teve manifestações. Temos um problema aí: a falta de emoções por esses jovens. Só nos comovemos com que nos identificamos, com aquilo que sentimos igual, que temos essa conexão com o outro”.

Crise civilizatória no Brasil

O professor Silvio de Almeida, jurista, consultor, advogado e palestrante, foi o último a falar e focou a reflexão sobre a formação do Estado brasileiro, a crise atual e os principais desafios do país. Em sua opinião, o país vive um desmonte da Constituinte de 1988 com a crise do capitalismo em todo mundo com efeitos de diferentes formas. “Está em jogo o modelo de sociabilidade construído a partir do capitalismo”, atenta.

O professor de compliance antidiscriminatório e governança e ética corporativa da Fundação Getúlio Vargas ainda apontou que há no Brasil três elementos que contribuem para naturalizar a violência: 1º) autoritarismo, 2º) subdesenvolvimento econômico e 3º) racismo.

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A palestra de abertura lotou o auditório do Sesc Pinheiros. (crédito da imagem: Fernando Cavalcanti)

No autoritarismo, o pesquisador fala que o modelo autoritário está em todo projeto nacional do país, na Constituição e até na forma de se autoexplicar. “O Estado se coloca acima de qualquer tipo de interesse e controlar as narrativas sobre o que é o Brasil e cria um modelo patriarcal”. Ainda conta que esse modelo parte de uma sociedade patriarcal, em que o machismo é uma espécie de razão, de justificativa, ou de estímulo para relações a um homem e mulher. “O modelo patriarcal vai se basear num modelo de gestão”, analisa.

O modelo de sociedade autoritário permanece mesmo em momentos de ditadura. “A Constituição de 88 é uma tentativa de conciliar conflitos que se formaram no Brasil historicamente e coloca para dentro do governo dentro de uma ordem jurídica renovada pessoas, que atuaram ativamente no Golpe de 64. Você coloca essas pessoas com uma nova roupagem. É um pouco difícil de falar da Comissão da Verdade, porque a Constituição de 88 colocou para dentro pessoas que participaram ativamente da destruição da democracia, como Ministério Público, judiciário, juízes entraram mais poder do que antes, a Ordem dos Advogados do Brasil, por exemplo”.

Em sua análise, essas situações ocorrem mão por falta de Estado, mas pelo Estado. Para o professor de filosofia do direito e pensamento social brasileiro na Universidade Presbiteriana Mackenzie também pontua que o autoritarismo está imbricado nas relações sociais, inclusive no Brasil teve que construir sujeitos jurídicos de liberdade igualdade como fundamentais para que violência crescesse de forma natural. “Estou pesquisando um termo interessante: sujeitos coloniais. São pessoas que estão atuantes nos anos 1970. A crise bate na tentativa de normalizar o autoritarismo. É a naturalização de processos sociais, como se fossem processos absolutamente espontâneos, mas dentro de uma maquinaria que o Estado, Direito e Economia”.

Em segundo lugar está o subdesenvolvimento econômico. Ele explica o surgimento da ideia do desenvolvimentista, por meio do Estado e da formação de mercado interno e estabelecer uma racionalidade. Em sua visão, o Brasil teve planos desenvolvimentistas, mas foram interrompidos de forma violenta.

“Eu tenho a tese de que o Brasil não tem elites. Tem grupos dominantes violentos e com dinheiro. Porque pensar em elite é pensar como se estabelece as condições com mínimo de estabilidade social. O Brasil tem pessoas violentas com dinheiro sem compromisso com o plano nacional de desenvolvimento”, esclarece Silvio.

Para o professor, o Brasil está vivendo uma crise civilizatória. “Estamos perdendo noção de coisas básicas, rompendo tradições e até situações diplomáticas. Estamos vivendo um desmoramento da República, não somente quebra da democracia”, alerta. Para sua análise, as instituições não são mais capazes de moldar as pessoas, tornando os sujeitos.

E, por último, ele ressaltou o racismo. Fala que sua luta é estudar o pensamento social brasileiro para entender o que de mais rico foi produzido. Compreender algumas amarras sociais. E pergunta: como conseguimos fechar os olhos para algumas situações? E como conseguimos abrir os olhos? Ele responde que justamente a violência estrutural que fornece a lógica para conseguir se manter de olhos fechados. “Não existe pensamento sem ser crítico e propor o novo. A nossa briga é entender como estabelecer padrões civilizatórios ao país. O que está em marcha é uma destruição do mito solidário aos negros, pobres. O que a cultura nacional conseguiu reproduzir está em jogo é isso é de mais relevante”, defende.

Site do evento: https://www.artepalavraeleitura.com.br/