Pesquisadora lança livro sobre situação de prostitutas

O levantamento da psicóloga traz contexto histórico da profissão e questiona projetos de regularização dessa profissão aqui no Brasil.

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A publicação possui 248 páginas com quatro capítulos. (Crédito da imagem: Divulgação)

Dar voz e visibilidade foram os principais objetivos da pesquisa de mestrado da psicóloga Mariana Luciano Alfonso, autora do livro Um silêncio a cada esquina – Representações sociais de prostitutas sobre a regulamentação da “profissão”, lançado no dia 18 de agosto no auditório do Centro Informação Mulher, no centro de São Paulo.

A publicação é resultado da sua pesquisa de mestrado iniciada no final de 2011. Desde a graduação a jovem já tinha interesse por estudar questões de gênero e depois sentiu vontade de pesquisar essa perspectiva no ambiente urbano. A partir daí, focou seu tema na praça do Canhão no centro de Sorocaba, interior de São Paulo, onde ela nasceu e cresceu. Tentou pesquisar o tema na cidade de São Carlos, onde estudava, mas não havia a prostituição no contexto de rua e teria que entrevistá-las intermediadas pelo cafetão ou pelas donas das casas de prostituição. Ela queria falar diretamente com essas mulheres. Ficou surpresa com a falta de informações de órgãos públicos da área da saúde, assistência social e outros segmentos. “A resposta que recebi é que eles não tinham vínculo com essas mulheres. E eu precisava ir direto para esses espaços”.

Em 248 páginas, o livro possui quatro capítulos: introdução, um pouco de História, Praça do Canhão e a vida na batalha: a prostituição no centro de Sorocaba e Vozes que rompem silêncios: com a palavra, e as prostitutas. A ideia central de seu estudo era estudar como elas vivenciavam a prostituição, mostrar o cotidiano por meio das histórias de vida, apresentando ainda como elas se sentem nessa situação. Há contextualização história dessa profissão e aspectos históricos do processo de prostituição na cidade de Sorocaba.

Na opinião de Mariana, é importante entender o que elas pensam na regulamentação de sua profissão ainda. Para isso, entender suas histórias de vida e o contexto da prostituição como ingressaram. “A regulamentação nunca vem isolada, ela sempre está com a violência de gênero, de classes e étnico-racial”. A jovem ainda revelou que ao conhecer essas realidades percebeu que se trata de uma ocupação diferente. “Elas me relatavam que sentiam muito fora do mundo do trabalho. Muitas delas ingressaram nesse universo após uma situação de desemprego. A maioria trouxe ainda relatos de violência”.

Foram entrevistadas 60 mulheres e seis travestis e/ou transexuais em situação de prostituição. Além desse público, a pesquisadora também consultou seis representantes de instituições como ONGs, Conselho de Segurança e associação religiosa. Ela esclareceu que o levantamento é qualitativo e possui aspectos quantitativos com roteiros com entrevistas de curta duração. Foi usado o critério de faturação nessa etapa.

As mulheres entrevistadas possuem idade de 35 a 58 anos, divorciadas, mães, baixa escolaridade, e o tempo em que estão na prostituição varia de quatro a 30 anos. A renda mensal varia bastante de menos de mil reais até cinco mil reais, incluindo o preço dos programas de vinte até 60 reais por 30 minutos. Outra observação do estudo é que as mais jovens e com menos tempo na prostituição são as que obtêm maior ganho financeiro.
O quarto capítulo da publicação enfoca nos depoimentos das mulheres e a autora coloca os pontos em comum, o que é prostituição, as vantagens e as desvantagens da profissão segundo as entrevistadas, os programas, a permanência e o futuro, e as opiniões sobre a regulamentação.

Quando questionada sobre os pontos em comum e diferenças entre a mulheres em situação da prostituição nos diferentes ambientes (urbano, rural e litoral), Mariana respondeu que focou seu levantamento no centro da cidade de Sorocaba durante seu mestrado. Atualmente está com uma atividade voluntária aqui no centro da cidade paulista. Desde início de 2015, ela conheceu um coletivo de mulheres que atende esse público no bairro da Luz. Esse coletivo faz parte de uma das ações da organização Agentes da Cidadania. A organização oferece serviços de saúde, atividades de alfabetização e escuta de trajetórias das mulheres. “Lá são mulheres um pouco mais velhas, com trajetórias de baixa escolaridade e trabalhos precarizados e com filhos para criar. Costumam receber pouco e batalham muito para ocupar espaços nas ruas e não chegar na cafetinagem”. Mariana integra o núcleo de escuta dessas histórias e ainda estimulam debates políticos. O foco nesse trabalho é reunir essas histórias e publicá-las possivelmente.

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Diferentes militantes falaram da importância da publicação para colocar o tema em destaque na área social e de defesa de direitos. (Crédito da imagem: Susana Sarmiento)

A jovem ainda compartilhou que ficou surpresa ao encontrar mulheres com tamanha força e resistência de estarem lá todos os dias e resistirem muitas situações de violência. “Uma das principais dificuldades, para mim, foi presenciar cenas de agressão, ir para campo e descobrir que uma das fontes tinha sido baleada por um de seus clientes”, afirmou e ainda disse: “Elas possuem uma força bem bonita e ensinam muito para nós”.

A publicação não era algo planejado. A editora entrou em contato com a pesquisadora interessada por seu tema de pesquisa e queria publicá-lo. Em sua opinião, ela acha importante romper esses silêncios para acabar com essas desigualdades, trazendo visibilidade e vozes que ainda são abafadas. “Geramos um tipo de sensibilização para mostrar essa realidade. Não sou porta voz, mas elas descrevem as cenas. O livro, de alguma maneira, tem as palavras delas, para pensarmos juntos sobre todas essas reflexões”.

A psicóloga ainda pontua que a prostituição é ainda pensada isoladamente como uma escolha individual. Ela sugere ao leitor pensar nela inserida em aspecto socioeconômico atual. “Estamos numa sociedade que oprime e explora pessoas de classes mais pobres. Nesse contexto, acho que é bem difícil falar de liberdade de escolha quando ela está numa situação de vulnerabilidade social e com necessidade de sobrevivência imediata”, refletiu.


Livro:

Um silêncio a cada esquina: representações sociais de prostitutas sobre a a regulamentação da “profissão”
Autora: Mariana Luciano Afonso
Editora: Luminária Academia
Páginas: 248
Valor sugerido: R$ 38,00
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