Pesquisadora fala sobre mudanças climáticas e o mosquito Aedes Aegypti

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Bióloga atua na área de toxicologia e fisiopatologia

Com a proliferação de casos do zika vírus, dengue e a chikungunya nos últimos meses, a população brasileira está recebendo diariamente notícias sobre a necessidade urgente da prevenção e combate em locais que favorecem o surgimento do inseto Aedes Aegypti, mosquito transmissor do vírus que pode causar essas três enfermidades.

No início deste mês um comitê de emergência da Organização Mundial da Saúde se reuniu e alertou que haverá de 3 a 4 milhões de casos de Zika nas Américas nos próximos 12 meses, além de ter anunciado emergência internacional. Encontrado pela primeira vez na África, depois na Ásia e Polinésia, o vírus se espalhou por 22 países das Américas e Caribe.

Além do alarde para os casos de Zika, também é importante observar o aumento da dengue nas cidades brasileiras. De acordo com o último boletim do Ministério da Saúde, até 23 de janeiro deste ano, as três primeiras semanas de 2016 tiveram 73.872 casos no Brasil, ou seja, 48% a mais que no mesmo período de 2015, ano que até agora bateu o recorde de disseminação dessa doença. Mato Grosso do Sul lidera o ranking, em seguida vem Tocantins, Espirito Santo e Minas Gerais.

Esses números podem aumentar com os efeitos das mudanças climáticas, já que podem alterar as condições do clima que controlam a propagação do mosquito transmissor. Para entender uma possível relação entre mudanças climáticas e a propagação do vírus Zika no Brasil, a equipe do Setor3 entrevistou a bióloga e pesquisadora Mariana Matera Veras, líder do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Ela atua na área de toxicologia e fisiopatologia.

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OMS prevê que o Zika vírus atingirá de três a quatro milhões de pessoas nas Américas

Portal Setor3 – A população brasileira tem consciência da gravidade da proliferação do vírus Zika no Brasil? E a velocidade que está ocorrendo?

Mariana Matera Veras – A população está sendo bombardeada com informação, seja pela televisão, jornal, Facebook e qualquer outra mídia. Na verdade, deveríamos falar sobre mudanças climáticas e o mosquito, porque a questão central é o mosquito, que transmite o vírus Zika, a dengue e a chikungunya e as condições climáticas que estão favorecendo este inseto. Nos últimos dias fala-se muito sobre a relação entre o vírus Zika e a microcefalia. Na minha opinião, estão fazendo alarde, não há tratamento ainda e precisa ser confirmado que o vírus Zika causa microcefalia. Deveriam investigar outros fatores que também podem causar a microcefalia. A temperatura média no Brasil aumentou mais quando comparada a outros países. Para o mosquito, é muito bom, porque ele precisa de calor para seu ciclo de desenvolvimentos e completar e reproduzir. Já, no inverno (temperaturas baixas), os ovos ficam estacionados e não se desenvolvem. Quando há a combinação de água e calor, crescem muitos os casos dessas doenças. É perfeito para o Aedes a temperatura alta.

Antigamente as cidades eram locais mais frios, hoje as temperaturas se elevaram e temos mais pessoas vivendo neste ambiente. Somado as temperaturas elevadas temos períodos de cheias intensas e longas secas. Há ainda períodos de chuvas e de longas secas. Além dessa situação, não temos um saneamento adequado e uma série de deficiências nesse sentido. Recentemente tivemos falta de água e por isso estocamos água. Nem todos tiveram cuidado para armazená-la e evitar o desenvolvimento do mosquito. Eu não culparia o governo nem a população pela situação atual. Mas com certeza a missão de combate é de ambos. É uma guerra contra o mosquito. Só o governo trabalhando não irá adiantar, porque o mosquito está dentro da nossa casa.

Portal Setor3- Qual ator está trabalhando mais nesse sentido?

MMV- Os dois. Digo ainda que é bem importante os órgãos públicos irem in loco nas regiões mais afetadas, mais distantes e de menor poder aquisitivo. Isso já está acontecendo. Também é essencial se proteger, usando repelentes. As pessoas precisam ser informadas e todos nós cuidarmos das nossas casas, procurando possíveis focos. Sempre achamos que não temos e está tudo certo. É importante vasculhar constantemente. Eu tenho conhecimento, mas encontrei larvas do mosquito na minha casa em um container onde guardamos água. Tinha redinha de proteção e tampa. Adicionamos cloro a água onde havia larvas para que elas morressem, descartamos a água e descobrimos que o possível local de entrada era a torneira do container de água. E, portanto, fechamos o bico com algodão. Isso ocorreu mesmo com vigilância constante. Temos também que fazer e permitir o controle biológico. As pessoas não sabem, mas existem animais que vivem em nossas casas que se alimentam de mosquitos: lagartixas e aranhas. Temos o costumo de tirar todos os bichos do nosso ambiente, mas eles contribuem no controle. Antigamente no verão, eu me lembro, passava o fumaceiro, que eram carros que jogavam uma fumaça inseticida para combater o mosquito. Apesar de não ser uma solução definitiva, poderia ser mais uma arma principalmente em áreas carentes e próximas a rios.

Portal Setor3- Você acredita que se melhorar o combate nesses casos pode contribuir na redução da dengue?

MMV- Com certeza, porque o vetor é o mesmo das três doenças. Mas não acredito na eliminação total. Não acredito que elimine tudo. É bem complicado em um país quente e úmido como o nosso.

Portal Setor3- Em uma das notificações sobre a vacina contra o vírus do Zika, foi comunicado que demoraria até cinco anos para ser desenvolvido e testado. Quais dicas você daria para a população se proteger?

MMV- O mosquito tem horários preferenciais para picar e ambientes mais escuros. Nossa arma para se proteger são os repelentes. Se você sabe que irá a um lugar onde já há registros de casos, melhor usar roupas mais compridas. Em casa, o ar condicionado ajuda bastante, pois em temperaturas baixas o mosquito fica menos ativo. Quem tiver condições de ter ar condicionado, também ajuda a resfriar o ambiente. Porém, é injusto para aqueles que não possuem esse recurso em casa. O ventilador também é um aliado, dificultando o mosquito pousar para picar. E por fim, colocar telas nas janelas.

Portal Setor3- O que vocês estão desenvolvendo no Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental sobre esse assunto?

MMV- Não trabalhamos diretamente no desenvolvimento de vacinas. Nós estudamos o clima, saúde e poluição do ar. O que temos observado é que locais que antes eram frios estão quentes, devido as mudanças que estão ocorrendo no clima. Isso abre possibilidades ao mosquito de existir em áreas onde antes não poderiam. E o que nossos estudos mostram é que a poluição do ar é um fator determinante para a alteração do clima no mundo. Nossa frente está em evitar essa proliferação e continuar estudando um jeito que o mundo não deteriore. Estamos com muitas mudanças de clima, e por isso estão aparecendo casos em regiões que nem tinham. O mundo está esquentando, e hoje podemos ir de um lado para outro do mundo uma questão de horas, facilitando a disseminação de diferentes doenças, como foi o caso do Zika.

Talvez esse alarmismo da imprensa seja para tentar segurar e motivar as pessoas a fazerem a sua parte. A minha opinião é que ainda não dá para afirmar que todos os casos de microcefalia sejam caudados pelo vírus Zika transmitido pelo mosquito. Eu apostaria hoje em pesticidas. É uma área em que atuo e estudo e o uso no Brasil é excessivo e sem um controle rigoroso, principalmente e coincidentemente nas regiões com maior incidências de microcefalia. Defensivos agrícolas, como o glifosato, conhecido comercialmente como Round também podem causar microcefalia. Muitas vezes as mulheres já estão gestantes e não sabem disso e manipulam esse produto. A formação do sistema nervoso é bem sensível nos seus estágios inciciais começo. Logo nas primeiras semanas, quando a mulher nem sabe que está grávida, etapas cruciais para a formação do sistema nervoso central da criança ocorrem. E interferências nesta fase podem provocar esse problema, entre outros.

Portal Setor3- Além do consumo de pesticidas, você avalia quais outros fatores a sociedade precisaria se informar para discutir melhor o assunto?

MMV- Diversos fatores podem causar microcefalia. Fatores genéticos, uso de drogas, contato com substancias tóxicas, infecções por outros vírus. Precisamos analisar cada caso e ver a ocorrência na família. São inúmeras situações para explorar. Será que foi avaliado o nível de agroquímico no sangue dessas mulheres, no bebê? Ela consumia drogas? E o marido dela? Talvez seja interessante assustar a população para evitar a propagação da dengue e do Zika, mas precisamos saber exatamente as causas. O risco está muito alto, não dá para ficar esperando. De qualquer forma, a alternativa mais barata e justa é combater o mosquito.

Portal Setor3- Também houve um debate nas redes sociais sobre outras questões sociais, como a legalização do aborto. Esse surto de Zika vírus e dengue impactam outras pautas sociais e políticas?

MMV- Ela pode afetar sim outras áreas. A saúde também é determinada por fatores sociais e econômicos. É muita coisa envolvida. Eu assisti uma reportagem sobre o abandono dos pais quando sabem que seu filho terá microcefalia. Se eles já abandonam numa situação normal, imagina nesse caso. A culpa é de quem? Essa culpa da falta de saneamento e do mosquito estar se espalhando é, primariamente, do Estado que não se preparou em fornecer água a todos e fez com que a população estocasse? É da sociedade toda que polui o meio ambiente e está alterando clima que diretamente cria condições favoráveis ao mosquito? A origem disso está na falta de planejamento, não conseguimos pensar no futuro a longo prazo, somos muito imediatistas. Mas quem sofre as consequências da falta de planejamento do passado somos nós que estamos no futuro. E temos que ouvir: “Vamos mostrar mais uma vez que o povo brasileiro é forte”. Está na nossa mão a bomba de novo. Então, defendo que não se deve tirar o direito da mulher não querer um filho com essa doença, porque o Estado não irá assumí-lo.

Portal Setor3- No Laboratório, vocês já previam algum tipo de surto transmitido por insetos?

MMV- Isso já era totalmente previsto. No relatório sobre mudanças climáticas (IPCC), está apresentado que todas as doenças veiculas por água e vetores (por exemplo: mosquitos) seriam impactadas. No caso desses animais, o aumento da temperatura favorece seu desenvolvimento e amplia sua distribuição geográfica. Exatamente o que estamos observando hoje no mundo. Onde não havia mosquitos, porque o clima não permitia, hoje em dia já tem. Locais antes frios e secos estão ficando quentes e úmidos. Isso já era previsto há mais de cinco anos. Essa mudança de clima poderia abrir portas para várias enfermidades. Vale lembrar, que o aumento da temperatura por si só já é capaz de impactar a saúde das pessoas. Para cada região, as pessoas estão adaptadas e vivem bem em uma dada faixa de temperatura. Quando as temperaturas ficam acima ou abaixo desta faixa, a saúde é comprometida, principalmente de idosos e crianças.

Por isso, hoje nossa missão é fazer vigilância em casa e na rua. Se o outro não cuidar a doença pode chegar até você. Eu faço minha parte, mas se o outro não fizer é meu problema também. Não é só: “eu me cuido e tudo bem” É um problema de todos. As pessoas ainda ficam envergonhadas de recolher coisas na rua, de chamar atenção do outro. Tem que ter coragem e agir e não só ficar apontando o que está errado. É necessário fazermos a nossa parte e a do outro para o próprio bem. Espero que as autoridades não fiquem só falando também, precisamos de informação e ação. No ambiente de trabalho, no condomínio, no bairro, por exemplo, podemos fazer mutirões e gincanas de caça ao mosquito.

Serviço:

Acesse o site do Ministério da Saúde: http://combateaedes.saude.gov.br/
Cartilha do Ministério da Saúde Vírus Zika: http://goo.gl/iUmtwq


Imagem: Arquivo pessoal, Rafael Neddermeyer e Fotos Públicas

Data original da publicação: 16/02/2016