Pesquisa relaciona alfabetismo com comportamento financeiro

30% das pessoas, que sozinhas ou acompanhadas tomam decisões sobre o uso dos recursos financeiros no âmbito doméstico, são analfabetos funcionais. Esse é um dos principais dados do estudo Alfabetismo e Comportamento Financeiro, desenvolvimento pelo Instituto Paulo Montenegro e a ONG Ação Educativa, com o apoio do IBOPE Inteligência.

O estudo faz parte de uma publicação maior intitulada o Analfabetismo no mundo do Trabalho – um estudo especial feito em 2015 com base metodológica Inaf e mostra que somente 8% estão no nível pleno proficiente, considerado o mais alto da escala. Foram consultadas 2002 pessoas com idade entre 15 e 64 anos, residentes de áreas urbanas e rurais de todas as regiões do País. Aqui foram contemplados cinco grupos: analfabeto, rudimentar, elementar, intermediário e proficiente.

A proposta de separar nesses grupos foi aprimorar a leitura dos resultados do Inac que mostram grande concentração da população nos níveis intermediários da escala, aqueles que, já tendo a condições de analfabetos funcionais, ainda não alcançam o nível pleno de alfabetismo. Essa classificação permite melhor discriminação dos alfabetizados funcionalmente, atendendo a uma crescente demanda por uma análise mais detalhada de cada um dos níveis.

O estudo especial Alfabetismo e Comportamento Financeiro enfoca em algumas práticas financeiras dos entrevistados em âmbito pessoal e familiar, relacionando-as com os níveis de alfabetismo definidos pela escala.

Ana Lima, economista e coordenadora do Instituto Paulo Montenegro, afirmou que o estudo revelou que o trabalho atual permite poucas possibilidades de uso da linguagem escrita e leitura. “Será que esses resultados também não podem ser interessantes para mostrar a empresa seu domínio sobre essas práticas? Essa é uma bandeira que pretendemos batalhar com mais intensidade”, disse. Também comentou que o segundo ponto é um pouco do papel do mundo digital no desenvolvimento do letramento. “Como as tecnologias podem ajudar no processo de letramento ou limitam por conta dos acessórios?”, questionou.

Alguns dados apresentam que 63% dos entrevistados declararam que participaram das decisões financeiras em suas famílias; 36% tomam decisões sozinhos; 23% afirmaram compartilhá-las com o cônjunge, ou companheiro, e 4% dividem essa decisão com outros membros da família.

Um dado bem importante é que a responsabilidade pelas decisões financeiras no âmbito familiar se concentra nas mãos aos adultos mais velhos, um grupo com menores níveis de alfabetismo: dois em cada três pessoas (67%) com nível rudimentar de alfabetismo são responsáveis por decisões financeiras em seus lares, sendo que 42% o fazem sem compartilhá-las com outro familiar.

“Quem sabe um conjunto na formação individual talvez desenvolvesse mais e contribuiria com uma intencionalidade na escola, na própria política pública. Podemos ajudar a trazer para essas pessoas mais velhas o grau de escolaridade dos mais jovens”, pontuou a responsável pelo Instituto Paulo Montenegro.

Um dado já previsto, segundo a pesquisadora, foi que com a democratização de acesso ao pagamento traz um perfil de usuário com limitações de alfabetismo muito maiores do que aqueles outros usuários. “Não adianta vender por qualquer custo, porque aí você terá um mar de pessoas inadimplentes”.

Poupar é sempre bom, mas nem sempre dá. Esse foi outro item avaliado. Um quarto dos entrevistados declararam ter poupado dinheiro. Esse comportamento é notado e influenciado pela renda, dada a maior disponibilidade daqueles com maior nível de renda. 49% daqueles com renda familiar superior a cinco salários mínimos declararam ter poupado nos últimos 12 meses anteriores à entrevista, esta proporção cai para 31%, 18% e 11% na medida em que a faixa de renda se reduz.

Ana Lima, coordenadora do Instituto Paulo Montenegro
Ana Lima, coordenadora do Instituto Paulo Montenegro

“Nesse caso o fator econômico é mais forte do que do letramento. Nesse momento de crise, é difícil poupar. Estamos em um cenário de desemprego mesmo aqueles com baixa escolaridade. Eles perdem o emprego e são substituídos por pessoas com desempenho melhor. O contratante vai querer trabalhadores melhores e terá como escolher. E isso coloca mais dificuldades nesse grupo”.

Há ainda uma significativa associação entre o alfabetismo e o hábito de poupar. Os analfabetos funcionais representam 27% no total da população de 15 a 64 anos de idade. Este grupo equivale a somente 16% dentre os que falaram que teriam poupado nos últimos 12 meses para a entrevista e a 32% entre aqueles que afirmaram não ter poupado no mesmo período.

Em relação aos mecanismos de acesso ao crédito, o cartão de crédito e os carnês de lojas são os mais acessados com mais frequência, respectivamente: 33% e 13% dos entrevistados. Nesses dois serviços, há dois perfis diferentes: enquanto acesso ao cartão de crédito cresce à medida que aumenta o nível de alfabetismo, os carnês de lojas têm uma penetração equivalente, ao redor de 15% nos diferentes níveis que compõem o grupo dos funcionalmente alfabetizados.

Os desafios aos compromissos financeiros assumidos variam entre os diferentes serviços e o grau de alfabetismo dos tomadores de crédito: o financiamento imobiliário é o que tem maior proporção de pagamentos em atraso (32% dos entrevistadores que informaram fazer uso deste serviço declararam ter parcelas em atraso e esta proporção sobe para 50% no grupo de analfabetos funcionais); o crédito consignado, o financiamento de veículos, os carnês de lojas e os empréstimos pessoais, em termos de maior proporção de pagamentos em atraso dentre os usuários dos serviços, respectivamente 20%, 18%, 16% e 15% dos usuários possuem parcelas em atraso. A proporção de analfabetos funcionais que não conseguiram cumprir com o pagamento nas datas previstas é sempre sensivelmente mais alta do que aquele observada no grupo dos funcionalmente alfabetizadas, exceto com os créditos de lojas.


Texto: Da redação
Data original de publicação: 18/04/2016