Pesquisa mostra visão dos professores sobre a educação no Brasil

ultnot-interna-logoconselhoclasse  Dar voz aos professores brasileiros para entender e conhecer os principais temas do sistema educacional foi a proposta do Conselho de Classe – A visão dos professores sobre a educação no Brasil, lançada na parte da manhã na sede do Centro Ruth Cardoso, em São Paulo. O evento ocorreu em formato de roda de conversa com a participação de professores, membros de empresas e instituições, representantes de Secretarias de Educação de São Paulo e dos educadores do Programa Educação Profissional da Alfabetização Solidária.

“A ideia é mostrar a opinião do professor. Muitas vezes sua fala entra com uma visão do pesquisador/acadêmico, das organizações sociais, sindicatos e outros órgãos. Ele é mencionado, mas não necessariamente esse profissional fala sobre o tema. E, no final, são eles os atores que implementam a educação. Há poucas informações sobre esse público”, afirmou Ernesto Faria, coordenador de projetos da Fundação Lemann.

Realizado pela Fundação Lemann e Ibope Inteligência, com apoio do Instituto Paulo Montenegro, no segundo semestre, a publicação é dividida em duas partes: a qualitativa e a quantitativa. Foram consultados mil professores de escolas públicas de ensino fundamental de todo país para saber mais sobre a visão deles sobre a educação no Brasil. Na parte quantitativa, a amostra ocorreu com professores nas áreas urbanas. Já as análises qualitativas, para contribuir com a construção do questionário e a leitura dos dados, foram realizados grupos focais e entrevistas em profundidade.

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Ernesto Faria, da Fundação Lemann, explica os principais pontos do estudo

Foi constatado que o público entrevistado: 82% são mulheres e possuem em média 41 anos e 13 anos de experiência na rede pública. Sobre a formação dos professores, 86% tem ensino fundamental cursado em escola pública e 14% em escola privada. Já o ensino médio, foi feito por 81% em escola pública e 19% em escola privada. A formação desses professores os colocaram em uma situação bem diferente de seus pais. Apenas 7% dos pais possuem ensino superior, já a mãe sobe para 9%. Comparando salário com o dos seus pais, 57% ganham mais, 27% menor e 11% igual.

Quando questionados sobre continuidade da sua profissão como professor, 57% irão permanecer na função atual e na mesma escola, 12% irão continuar na mesma função, só que em outra escola e 9% irão se aposentar.

A pesquisa também mostrou que esse profissional também vê um grande valor social em seu trabalho. Quando questionados sobre os aspectos que trazem satisfação na sua atuação, 72% responderam que é sua contribuição ao aprendizado dos alunos, 65% optaram por responsabilidade social, 54% responderam por oportunidades de aprendizado e convívio com a equipe da escola. Porém ele ainda se sente desvalorizado em seu trabalho como profissional: 23% responderam que sentem que estão satisfeitos com as boas condições de trabalho, 20% satisfeitos com a remuneração e 17% com reconhecimento da sociedade em geral.

Esses profissionais ainda sentem que sua opinião não é considerada pelas principais instituições do setor: 40% nunca se sentem ouvidos pelo Ministério da Educação, 35% pelas organizações não governamentais, 34% pelos meios de comunicação, 27% pelos especialistas em educação (Universidades) e 25% pela Secretaria de Educação da rede à qual pertence a escola.

Os professores acreditam que, caso sua opinião for ouvida, a educação do país pode melhorar. Se isso ocorrer, os aspectos que seriam impactados foram: a condição de trabalho dos professores (67%), o desempenho escolar dos alunos (65%), a valorização desses profissionais pela comunidade escolar (59%) e a dedicação deles com seu trabalho (57%).

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Os professores acreditam que, caso sua opinião for ouvida, a educação do país pode melhorar

Entre os fatores que precisam ser enfrentados com maior urgência, foram indicados: falta de acompanhamento psicológico para os alunos que precisam, indisciplina dos estudantes, defasagem de aprendizagem desse público, aprovação daqueles que não estão preparados para o próximo ciclo, baixa remuneração do professor e falta de condições adequadas para a inclusão de pessoas com deficiência, entre outros.
Foram identificados quatro grandes temas que preocupam os profissionais consultados: formação efetiva do aluno, heterogeneidade das turmas, relação com as famílias e aplicabilidade das políticas educacionais.

Ernesto também mostrou a pesquisa disponível na plataforma Qedu. O responsável pelo estudo também falou sobre a importância de desenvolver um estudo para saber o que os jovens aprenderam na escola, os projetos de vida, entender se o conteúdo do ensino médio foi utilizado durante o ensino superior e/ou ajudou a ingressar no mercado de trabalho. “A ideia seria conversar com professor universitário, representantes do mercado de trabalho e da própria sociedade civil”.

Um dos jovens da roda de conversa comentou que, em geral, o estudante não tem ideia do que o espera no mercado de trabalho. “Não há mecanismos para desenvolver mais seu projeto de vida e melhorar seu currículo”.

Já um professor presente no evento ressaltou que a sociedade é exclusiva e exigente. “Temos que refletir que tipo de alunos entregamos para a sociedade. Temos que ver as pessoas e não coisificar as situações e os indivíduos. Não olhar tudo como algo normal”, questionou.

O professor acredita que a atuação da família é muito importante no processo educacional. Já a distribuição de peso no ensino ocorre da seguinte forma: 4,26 da família, 2,92 do aluno e 3,82 do professor. Nessa parte, os professores tiveram que atribuir pesos em três esferas (família, professores e aluno), de acordo com a responsabilidade que cada um teria em relação à vida escolar do aluno.

Avaliações externas, inovação em educação, Base Nacional Comum foram outros temas analisados. A pesquisa concluiu que ser professor é uma conquista, eles sentem mais satisfação em contribuir ao aprendizado do aluno, se sentem ainda sem voz e desvalorizado. Ou seja, o profissional quer ser visto como um profissional da educação, com reconhecimento e responsabilidades.

Um professor presente no público questionou: “A educação é para quê? Sempre pensam na colocação do indivíduo no mercado de trabalho, sendo que a convivência é importante e precisa ser ética. Formação para quê? Com quem? Para quem? O que é formar cidadão?”.

Serviço:

Consulte aqui a pesquisa Conselho de Classe – A visão dos professores sobre a educação no Brasil: http://goo.gl/aAuAjD


Crédito do texto: Susana Sarmiento