Pesquisa inédita sobre violência contra a mulher no ambiente universitário é lançada

Pesquisa inédita sobre violência contra a mulher no ambiente universitário é lançada

Nunca houve tantos universitários no Brasil: hoje, são mais de 7 milhões. A parcela representa uma quantidade pequena diante do fato de que o acesso ao ensino superior ainda não é uma realidade para a maioria dos brasileiros. No entanto, aquela que é considerada a “elite intelectual” do país não está livre de reproduzir determinados comportamentos sociais prejudiciais ao desenvolvimento humano.

É o que indica a pesquisa Violência contra a mulher no ambiente universitário, realizada pelo Instituto Avon em parceria com o Data Popular, que contou com 1.823 entrevistas com homens e mulheres, além de discussões com grupos de estudantes e especialistas. “Eu achei os resultados da pesquisa bem tristes, mas esperados, porque a gente sabe do que acontece em festas, trotes, viagens esportivas”, disse Marina Braga, de 22 anos, integrante da Frente Feminista Casperiana Lisandra, coletivo da Faculdade Cásper Líbero. Ela foi uma das consultadas durante o processo. “A culpa é sempre da vítima e agressores raramente são punidos”, disse, definindo a cultura do estupro.

Os dados finais foram apresentados ao público na última quinta-feira, 3 de dezembro, em São Paulo, no Fórum Fale Sem Medo, do Instituto Avon, evento que contou com a presença de Maria da Penha. Para o presidente do Data Popular, Renato Meirelles, os dados inéditos desmistificam a ideia de que esse é um problema que ocorre somente nas camadas mais pobres ou de baixa escolaridade. Entre as entrevistadas, 66% disseram conhecer um homem que já cometeu alguma violência contra uma mulher. “O machismo não é fruto da desigualdade social, ele é causa”, afirmou Meirelles, convicto.

Violência naturalizada

O estudo choca: 2,9 milhões de universitárias já sofreram algum tipo de violência de gênero no ambiente da graduação. O número passa a ser de 1,2 milhões para aquelas que sofreram violência sexual – entre elas, ser forçada a ter uma relação sexual (7%) ou a beijar um veterano (10%), sofrer tentativa de abuso por estar sob efeito de álcool ou drogas (11%) e ter o corpo tocado sem consentimento (23%). Apenas 4% dos homens admitiu já ter forçado relações sexuais. Além disso, 20% das estudantes já ouviram comentários indesejados de conotação sexual vindo de professores.

Meirelles explicou que muito disso se deve à naturalização do machismo, reproduzido sem que seja considerado um problema. Para os homens que responderam a pesquisa, há ações que não consideraram violência, como abusar de uma garota alcoolizada (27%), coagí-la a participar de desfiles e leilões (35%), ou repassar fotos e vídeos das colegas sem autorização delas (31%).

A antropóloga, pesquisadora e professora da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília, Débora Diniz, falou sobre as raízes do problema. Uma delas seria a construção de gênero pela qual mulheres e homens passam ao longo da vida: “ninguém nasce nada, nascemos matéria”. No entanto, ao entrar na universidade, o homem, antes aprendiz da masculinidade, passa a ser reprodutor dos padrões de sociabilização masculina.

A faculdade perde, então, sua função de provocar o pensamento sobre todas as formas de opressão, inclusive contra mulheres. Segundo ela, reverter esse panorama passa pela melancolia dos homens de perceberem o abuso do poder que muitas vezes exercem sobre as mulheres – eles, simplesmente por serem homens; elas, simplesmente por serem mulheres. Melancolia essa que já as acomete. E ressaltou a necessidade de o tema ser cada vez mais discutido e denunciado ao apelar às mulheres: “mesmo com medo, falem”, enfatizando o tema do encontro.

O medo de falar

É exatamente esse o sentimento que muitas vezes cala as vítimas de violência: o medo. O Data Popular indicou que 63% delas não reagiu contra seu agressor. A fala, durante o evento, de Ana Luiza Cunha, fundadora do coletivo feminista Geni e estudante da Faculdade de Medicina da USP, destacou a voz de alguém que enfrenta o problema no dia a dia. Ela conta que estar em um coletivo com essa causa no ambiente universitário requer coragem: “Muitas de nós são xingadas e perseguidas”. Ao mesmo tempo, considera a experiência educativa para as meninas que fazem parte dela e para toda a comunidade ao redor. “Fazer parte disso é saber reconhecer seus próprios privilégios. Não dá para lutar contra uma opressão só”, disse ela, lembrando que existem outras desigualdades a serem consideradas, como o racismo e as disparidades socioeconômicas.

Como age a universidade?

Ana Luiza também ressalta que, para falar sem medo, é necessário haver espaços seguros e de acolhimento para as mulheres. Ana Flávia d’Oliveira, médica sanitarista e professora doutora do Departamento de Medicina Preventiva também da Faculdade de Medicina da USP, percebeu isso na prática. Em seu relato, contou que trabalha com violência contra mulher há 21 anos, inclusive tendo treinado diversos profissionais da saúde para lidar com o tema ao longo de sua carreira. Quando descobriu, por meio de coletivos feministas universitários, casos graves de estupro cometidos por alunos contra alunas, ficou surpresa. “Percebi o quanto a gente tem os olhos fechados”, disse. “Nós não vemos o estuprador como um homem jovem na graduação”.

Quando se deu conta da realidade que a cercava, deparou-se com outra questão: a ineficácia dos processos internos institucionais para resolver os casos e amparar as meninas. Acreditando no papel da universidade como determinante na formação pessoal dos estudantes, decidiu agir. “Nós escrevemos uma carta emotiva e em cinco dias reunimos 90 professoras e pesquisadoras em uma sala da faculdade. Agora nós já somos mais de 200”.

Foi assim que surgiu a Rede Não Cala USP, grupo autogerido que passou a atuar nos casos com o objetivo de envolver toda a comunidade acadêmica no combate à violência contra a mulher, além de dar assistência às vítimas e acelerar os processos de denúncia. Um dos principais trabalhos realizados é o de acolhimento e escuta, o que exige determinada técnica e ausência de julgamentos em relação à vítima. “No começo ficamos com aquele pé atrás. Quando a gente escuta, percebe que era mais do que a gente imaginava”, disse Ana Flávia, afirmando ser capaz de perder o sono com os relatos.

A pesquisa do Data Popular também considerou o papel das universidades: 95% das mulheres e 88% dos homens acham que elas devem responsabilizar e punir os agressores. Além disso, 86% delas e 77% deles acreditam que o tema da violência contra a mulher deveria receber mais atenção da faculdade em que estudam.

Dificuldades do combate

Silvia Chakian, outra das convidadas, é promotora de justiça com experiência de 17 anos em casos de violência contra a mulher e coordenadora do Grupo Especial de Enfrentamento à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher do Ministério Público de São Paulo (GEVID). Para ela, é necessário que haja combate, responsabilização, reparação e ações de prevenção. “A maioria dessas meninas é obrigada a conviver depois com seu agressor”.

Ela afirma que as questões do consentimento e da credibilidade da vítima são frequentemente usadas contra ela. “Denúncias são recebidas como se desde o início não fossem dignas de crédito”. Além disso, a responsabilização da mulher como agente provocador da violência que ela mesma sofreu abre preceitos para que os homens pensem que não há problema em abusar de uma garota desacordada, por exemplo. Por isso, Silvia ressaltou: “consentimento não é submissão”.

Ana Flávia comentou também que muitas vezes a postura das faculdades é de abafar o caso para que não seja manchada a imagem da instituição. Isso tende a ser mais forte quando há um professor ou funcionário envolvido. Silvia destaca que também nesses casos é necessário que haja denúncias e que as providências necessárias sejam tomadas com agilidade: “um professor pode colocar em risco a vida de muitas meninas”.

Para conhecer o estudo, clique aqui: https://goo.gl/hLr8fX


Texto: Natália Freitas
Data original de publicação:  09/12/2015