Pesquisa evidencia desigualdades e racismo na educação e cultura

Diferentes representantes da educação, cultura e periferia falam como a situação de pandemia piora desigualdades no país.

Banner com fundo de imagem da favela e texto com fotos de palestrantes do Fórum Data Favela: Educação, Cultura e Racismo - 15 de julho quarta das 10 às 12h no youtube.com/UNESCOPortuguese
55% dos estudantes de ensino médio em escolas públicas dizem que a covid-19 impactou muito a qualidade das aulas, contra 39% dos estudantes de escolas privadas. (crédito da imagem: divulgação)

Seis em cada 10 alunos do ensino básico público são negros. Eles são maioria no ensino público e não negros predominam no sistema privado. Mesmo com avanços de políticas públicas, não negros são maioria no ensino superior com 54% dos estudantes. Além do pouco acesso a ensino de qualidade e aos cursos superiores, os alunos negros estão mais expostos à violência: enquanto 15% desses estudantes dão nota 10 à violência na escola onde estudam, esse número cai para 10% entre os alunos brancos nota atribuída para violência na escola onde frequentam.

Esses são alguns dos dados da parte de educação de uma pesquisa sobre as inter-relações entre a educação, a cultura e o racismo no país, divulgado no Fórum Data Favela – Educação, Cultura e Racismo de ontem (15/06), organizado pela Central Única das Favelas (Cufa), Instituto Locomotiva e Unesco no Brasil, que contou com participação de: Celso Athayde (Cufa) e Renato Meirelles (Instituto Locomotiva), diretora e representante da UNESCO no Brasil Marlova Noleto, o cantor e compositor Gilberto Gil, da atriz e apresentadora Regina Casé, do publicitário e CEO da WMcCann Hugo Rodrigues, o professor, escritor e doutor em educação, Daniel Munduruku, e a jornalista Flávia Oliveira.

Renato apresentou na primeira parte do encontro dados do estudo. Apresenta que a suspensão de aulas presenciais a partir de metade de maio por causa da pandemia do coronavírus afetou 47,9 milhões de estudantes somente da educação básica (infantil, fundamental e médio). Os estudantes das periferias e de escolas públicas foram os mais impactados do que os usuários da rede de ensino privada. 89% dos professores das redes públicas de educação não possuíam experiência anterior com ensino remoto. 59% dos estudantes de ensino médio em escolas públicas dizem que a Covid-10 impactou muito no aproveitamento do conteúdo escolas, contra 41% dos estudantes de escolas privadas. 30% dos estudantes de escolas públicas afirmam que precisaram cuidar de algum parente idoso na pandemia (contra 21% na rede privada), que dificulta o homeschooling.

“A desigualdade educacional forma um crime perfeito, que faz a desigualdade de renda se perpetuar já que cada ano de estudo impacta em 15,6% a mais na renda média das pessoas”, defende Renato, que pontua a necessidade urgente de redução das desigualdades de renda e acesso à estrutura e internet tão necessária ao estudo remoto.

Sobre cultura, os dados continuam preocupantes. Os mais pobres ocupam menos espaços de lazer, como cinemas, shows e teatros: 60% dos entrevistados das classes AB dizem frequentar mensalmente ao menos um, contra 34% das classes CDE. A parte da população pobre frequenta atividades culturais por meio da escola em trabalhos de inclusão. 45% dos entrevistados dizem frequentar mensalmente ao menos um, contra 40% dos entrevistados negros. Os brasileiros mais ricos podem dedicar três vezes mais seu orçamento para cultura do que os mais pobres: se gasta 87 reais por ano nas famílias mais pobres e 5.800 reais nas famílias ricas durante um ano com ações de lazer. “O processo de criação dos pontos de cultura faz falta hoje. Eles iniciaram a democratização de cultura no país” ressalta presidente do Instituto Locomotiva.

Regina Casé conta como desenvolveu um programa de bolsitas para estudantes negros em um colégio de elite no Rio de Janeiro. Com o nome Janelas Abertas, o programa no primeiro ano conseguiu incluir 70 crianças negras nessa escola. Qualquer criança negra que possa pagar se matricula na instituição e possibilita duplicar em bolsas para estudantes negros da periferia. A atriz faz palestras aos pais contextualizando o racismo e como ele impacta na desigualdade de oportunidades a crianças, jovens e adultos. “Temos que batalhar muito pelas cotas na pré-escola e no ensino fundamental”.

Já o publicitário Hugo elogia a ação, mas critica que a sociedade brasileira ainda está em estágio inicial. Para ele, o progresso ainda é bem lento a acesso a todos em renda menos desigual e oportunidades.

O ex-ministro da Cultura Gilberto Gil defende que realmente temos que acelerar e lutar por mais mudanças. Por isso, o cantor defende a política pública, o papel do Estado, a atuação das instituições, e a importância de entender como ela atua e atende todo público. A política pública possibilita reunir diferentes grupos para discutirem conceitualmente e outros que atuam na prática para criarem juntos políticas mais efetivas. “Como ministro, me senti na obrigação de entender, estudei e me fiz valer de todos os aqueles que estavam ao meu redor tecnicamente mais bem informado para dizer o que o ministro deveria ter”, revela.

Já o escritor Daniel fala da narrativa e valorização dos antepassados, da nossa ancestralidade, porque causa impacto na construção da identidade e sentido de pertencimento. “Não temos o costumo de olhar para trás, a gente sempre olhar para frente, vislumbramos a Europa e esquecemos de nos identificar como povo brasileiro”, reflete. Em sua visão, fica contextualizada a invisibilidade dos indígenas: “É necessário fazer esse mergulho na nossa ancestralidade e os indígenas são vistos ainda como aqueles que atrapalham o desenvolvimento do país”.

Flávia chama atenção para instituições que ainda atuam de forma fraternal e filantrópica com diversidade. “É preciso conhecer o verdadeiro Brasil. Nós viemos de outros territórios, outro continente e nós aprendemos a aprender nesse território, fomos sequestrados da nossa língua, dos nossos nomes, hábitos e roupas. Aprendemos tudo sem tirar o resto”, afirma e ainda comenta que nas favelas as tradições ainda estão presentes nas redes de solidariedade, na convivência comunitária que se torna familiar. “Tudo isso precisa ser reconhecido como saberes pelas instituições a favor da inclusão e temos muito a agregar na constituição do país. Precisa de humildade e reconhecimento. Isso vale ao mundo corporativo, que acha que incluir pretos e pardos é oferecer vagas de trainees, estagiários e da operação, mas nunca incluir de fato em altos cargos de coordenação nem nos conselhos das grandes empresas”.

Marlova concorda em defender e fazer valer as políticas públicas. Enfatiza a importância da valorização da presença de crianças nas escolas com estrutura para evitar um dos grandes problemas atuais: evasão escolar. A maioria que não conclui os estudos são negros. “Todos nós temos responsabilidade para apoiar estrutura para reduzir isso. O Brasil é a maior diáspora negra e essa população é maioria aqui e precisa ocupar todos os lugares”.

Acesse aqui o debate na íntegra: https://bit.ly/2OJBVgV