Pesquisa do Instituto Akatu mostra as facilidades e dificuldades para atitudes mais sustentáveis no dia a dia

Pesquisa do Instituto Akatu mostra as facilidades e dificuldades para atitudes mais sustentáveis no dia a dia
Crédito da imagem Paulo Urras

O que facilita a mudança? Quais fatores atrapalham? Com base nessas questões, a equipe do Instituto Akatu desenvolveu o estudo Caminhos para Estilos Sustentáveis de Vida – Gatilhos e Barreiras para a Adoção de Práticas Sustentáveis, lançado em 15 de outubro, data em que celebra o Dia do Consumo Consciente e quando inicia o calendário de comemorações dos 15 anos de trajetória da organização. “O maior desafio é mudar o jeito que elas vivem em equilíbrio para todos promoverem mudanças no seu estilo de vida”, ressaltou Gabriela Yamaguchi, gerente de Comunicação da entidade.

Gabriela apresentou o estudo e ressaltou que essa mudança necessária precisa de um passo a passo com urgência. A publicação pesquisou práticas rotineiras dos cidadãos sobre suas compras, usos e descartes de produtos e serviços em quatro temas: alimentação, roupas, higiene e cuidados pessoais e limpeza de casa. Também foram incluídos três grandes assuntos: água, energia e resíduos.

Com perfil analítico, a pesquisa entrevistou paulistanos em grupos focais e de laboratório criativo (discurso público) com entrevistas em profundidade no domicílio (discurso privado). A consulta foi feita com público misto por gênero e perfil demográfico, com pessoas das classes A, B e C, com idades acima de 15 anos. São indivíduos participantes ou responsáveis pelas decisões de compra para a casa, incluindo 50% de “engajados” e outra metade de “desligados”, classificados segundo os critérios de adoção ou não de práticas sustentáveis nos temas: alimentação, água, energia elétrica, gás, geração e destinação de resíduos em casa e uso de combustível nos veículos da família.

A ideia era mostrar como as pessoas fazem suas escolhas diárias como se alimenta, quais roupas preferem optar, os produtos de limpeza e de higiene que consomem e de que forma limpam sua casa.

Personagens do cotidiano

Com enfoque no consumo, os indivíduos foram classificados como: desligados, aqueles que não adotaram nenhuma prática; e os engajados, conhecidos por seguirem a sustentabilidade em diferentes graus.

“A abertura e a aceitação para essas práticas não estão relacionados com idade e gênero, nem etnia e local onde residem, mas sim focada na educação de valores”, chamou atenção Gabriela. Ela ainda ressaltou que nesse caso é como o exemplo do ninho, uma coesão de grupo, e fica mais forte com o núcleo afetivo do cidadão. Essa conexão estimula a promoção de hábitos mais sustentáveis. “Quanto mais você faz, mais sensível você se torna ao tema”, acentuou.

De acordo com o estudo, os desligados são aqueles que escolhem alinhados com as variáveis qualidade (como a marca conhecida), preço e quantidade – em que buscam uma boa relação entre o preço e o benefício. Não percebem o ato de consumo como um exercício de cidadania e lida com ele como se fosse algo compulsório.

Os engajados são os cidadãos com maior consciência de que a escolha do que o quanto consumir (incluindo produtos e marcas) é um ato transformador. Dessa forma, elas optam por embalagens que agridem menos o meio ambiente e comprometidas com ações sociais e ambientais. Fazem até boicote de marcas e empresas.

Nesses dois grupos, a pesquisa ainda mostrou quatro perfis diferentes: blindados sabotadores, adormecidos, alertas e conscientes, grau de engajamento e hábitos de consumo.  Os blindados são pessoas mais reticentes e menos mobilizadas. Querem resultados imediatos e tangíveis para mudar seus hábitos de consumo, provocando outras pessoas na mesma direção. Os adormecidos são aqueles que adotam práticas sustentáveis, mas tendem a ser passivos não percebendo como são agentes de mudança.

Os alertas são pessoas que compreendem bem o contexto e se percebem como parte do processo de mudanças positivas para o planeta. Mas para que se mantenham ativas, precisam ser estimuladas e reconhecidas pelas suas ações sustentáveis. Já os conscientes são indivíduos que já incorporaram práticas sustentáveis em seus hábitos do dia a dia e não fazem de outra forma. Podem até atuarem como multiplicadores, ou seja, disseminadores e mobilidades.

Essa consulta ainda apresentou sete grandes descobertas, que são: cada pessoa pode se encaixar com mais de uma classificação; a visão de mundo contribui para adoção de práticas sustentáveis; exemplo do ninho – ou seja, o maior engajamento é estimulado quando há coesão no grupo, seja afetivo da família, escola e amigos-; quanto mais faz, maior a sensibilidade para fazer mais; fazer por dinheiro ou para não destoar do grupo –  pela existência de benefícios financeiros ou leis-; o primeiro passo é a separação do lixo, que tem uma melhor aceitação do público em geral; o hábito predomina, se são consolidados há muito tempo são bem difíceis de mudar, por isso, exige persistência.

Desafios e pontapés

Para entender melhor como essa mudança pode ocorrer, Gabriela explicou as seis barreiras e nove gatilhos. As barreiras são as questões que dificultam essa transformação no comportamento dos indivíduos. Foram: percepção de desconforto, obstáculos físicos e para a adoção do espaço, preço mais alto, valorização da limpeza e higiene na cultura brasileira e percepção de impotência, isolamento e desconexão.
Já os gatilhos que facilitariam esse processo de mudança são nove visões: mudar é bom, simplicidade é a máxima sofisticação, moeda de troca, bom para o bolso, praticidade e conforto, começar com o primeiro passo, oportunidade de contribuição, experiência e vivência, e fazer parte de algo maior.

“Quando você pensar nos nove gatilhos, seis barreiras e sete ideias, entender o que atrapalha  pode ser uma maneira de ver quais são os próximos passos, as mudanças de comportamentos”, analisou gerente de Comunicação do Instituto Akatu.}

Entendendo os dados

Fátima Portilho, professora do CPDA/UFRJ, doutora em ciências sociais pela Universidade Estadual de Campinas e Oxford, analisou os resultados da pesquisa pela teoria das práticas, que ajuda a entender as práticas sociais e as barreiras do consumo. Sua questão central foi por que as pessoas fazem o que fazem e da forma que praticam. Ela dividiu sua apresentação em: o que são as práticas sociais, algumas interpretações e insights e algumas sugestões para o Instituto Akatu.

Ela explicou que as práticas sociais são ações rotineiras, pragmáticas, ordinárias e cotidianas e podem ser atividades corporais, mentais, objetos e seus usos, como lavar roupa, cozinhar, tomar banho, fazer compras, limpar a casa. Nisso há automação, rotinização e invisibilidade e há momentos de desrotinização, como com a chegada da conta, interrupção do serviço, quando há interpelação, aparecimento de novos produtos no mercado. “As práticas têm uma trajetória. Elas mudam, funcionam de determinada forma”, afirmou.

A pesquisadora ainda pontuou algumas interpretações e insights, algumas lógicas que aparecem para organizar as práticas, como: expectativas de limpeza, de conforto e prazer, de praticidade (vida corrida), de conexão/comunicação/sociabilidade e de economizar. As limitações para essas mudanças estão na parte física e estrutural.
Fátima sugeriu para a equipe responsável pela pesquisa que considere a trajetória das práticas (como fazia e como faz hoje, inserindo as narrativas); considerar as expectativas, as convenções, as necessidades e as limitações. Ainda levantou as seguintes necessidades: divulgação de produtos sustentáveis mais simples e mais baratos e acessíveis, campanhas realistas e honestas em que se debate os dilemas, mostrar os custos de adaptação de uma casa (torneiras e descargas) e evitar os julgamentos morais.

Já o professor Ricardo Abramovay, do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo e mestre em política, comentou sobre um estudo do Banco Mundial, Mente, Sociedade e Comportamento, em que mostra o comportamento das pessoas em termos socioambientais. Outra dica de publicação foi O que eles estão pensando quando não estão pensando em mudanças climáticas?

O professor comentou que não conseguia entender do que a pesquisa pretende retratar. “Mudar o modo de vida é para quem pode e não quem quer”, defendeu. Para ele, é muito forte o que as empresas fazem e seguem a preferência das pessoas, que têm o poder de mudar essas organizações, invertendo a equação. “O setor de confecção só existe por ter prática de ‘fast fashion’, se não haveria produção de roupa no Brasil”. Ele ainda citou um exemplo de necessidade de dar exemplos sustentáveis para as pessoas: “Não sei o que fazer com minha escova de dentes e tubo de pasta, após o o uso deles”. Para ele, é fundamental as empresas criarem condições de estimular ações sustentáveis. Assim, elas precisam olhar mais para a inovação e a sustentabilidade.

Hélio Mattar, diretor-presidente do Instituto Akatu, explicou novamente como a pesquisa foi feita e o público questionado. “A mudança de ser depende de vários fatores. A prestação de serviços vai definir parte dos caminhos e vamos ainda colocar os potenciais e as limitações”, afirmou.

Ele pontuou que as grandes empresas estão entendendo e observando o comportamento dos cidadãos. “Muitas das organizações não têm como fugir das pressões. Há investidores olhando para as empresas com ações sustentáveis. O próprio Akatu levantou 15 ações sustentáveis desenvolvidos por empresas durante esse estudo”.

O diretor-presidente do Instituto ainda comentou que várias empresas estão conscientes, que que elas disponibilizam a tecnologia para facilitar muitas mudanças. “A escala dessa mudança ainda é muito pequena, mas elas não fazem nada, é complicado, é como dizer que não há Natura, Native, entre outras organizações comprometidas”. Hélio ainda avaliou que há muita informação para o consumidor e isso leva tempo e exige persistência.


Data original de publicação: 21/10/2015