Para jornalismo independente, é necessário ter independência financeira e diferentes modelos de negócios

12932866_1323854890961864_4232231519572641584_nCom o aumento de plataformas, blogs, sites e ferramentas informativas na internet, a sociedade está cada vez mais bombardeada com notícias em diferentes formatos. Paralelamente, as redes sociais intensificam esse debate e todos podem se tornar autores de seus conteúdos. Essa diversidade pode contribuir muito para o debate político, porém também pede cuidado no quesito de confiabilidade. Mas qual o papel da mídia ao informar a sociedade? Como uma sociedade mais bem informada se torna mais forte e estável? E o papel do investimento social no fortalecimento de um jornalismo alinhado com os valores democráticos?

O painel O papel do jornalismo em sociedades democráticas respondeu essas questões e trouxe outros desafios na manhã da última quinta-feira (31 de março de 2016), na Fecomercio, no central de São Paulo.

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Palestrantes defenderam a importância de jornalismo independente para diálogo de sociedades democráticas

Da mídia tradicional, Ricardo Gandour é membro da diretoria do Grupo Estado, mas atualmente está desde janeiro como visiting scholar na Escola de Jornalismo da Columbia University, em Nova York (EUA) para desenvolver uma pesquisa acadêmica sobre a fragmentação do ambiente informativo. Seu estudo visa analisar o impacto com a entrada das plataformas digitais.

Sua primeira pontuação tem relação com revisão bibliográfica entre imprensa livre e o ambiente de negócios. “Esse último item sempre voltado para o aumento do PIB (Produto Interno Bruto), que também está presente no ambiente empresarial com sustentabilidade e vem aí uma característica: jornalismo é uma atividade privada e com alto interesse público”. E ainda comentou sobre a comunicação de marca nas diferentes frentes, como: educação, saúde, de governo, entre outras. A pulverização do ambiente informativo pode contribuir com a credibilidade.

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Natália falou da Casa Pública e do Mapa do Jornalismo Independente

“Há uma pressa da sociedade”, enfatizou o pesquisador que também notou a alfabetização literária como capacidade comum – do leitor entender e levar as informações. O jornalista comentou que como vivemos em uma década em que trabalham com a pessoa em diferentes formatos, isso exige um maior emparelhamento pessoal e o privilégio passou a ser o da audiência. “Eu defendo que a gente use a própria tecnologia para solucionar isso, organizar e encontrar contextos, de onde está a fonte informativa”, pontuou e ainda questionou sobre o atual modelo de negócio usada pelas empresas de comunicação.

“Jornalismo e democracia é independência financeira”, defendeu Pedro Abramovay, advogado e diretor para a América Latina e Caribe da Open Society Foundations. E disse ainda: “Impossível falar de independência sem dar nome aos bois, os financiadores. Se não há independência financeira, você tem dependência”, disse. Ainda comentou que a mídia ainda tem poder para eleger e derrubar presidentes e questionou se a sociedade está realmente preocupada com a democracia.

O advogado comentou que a internet afetou o modelo de negócios de muitos jornais e consequentemente a mídia se torna cada vez mais depende de empresas. “Aí fica perigoso. Como pensar num modelo de negócios para imprensa? Tem que ter diversidade para financiadores para não ficar uma comunicação sob encomenda. Não é assim um jornalismo independente. Há uma crise no modelo de negócio do jornalismo”, enfatizou.

Para representar uma das práticas em jornalismo independente, Natália Viana, jornalista e uma das fundadoras da Agência Pública, contou como sobrevivem com recursos filantrópicos para não interferir na produção jornalística. “A importância do jornalismo é a independência”, enfatizou. Fundada por três mulheres, a Pública é voltada para um jornalismo investigativo em que investem três e quatro meses para a produção das suas reportagens. Também relatou que em seus conteúdos são entrevistadas cerca de 50 fontes para se aproximar o máximo do interesse público. “Optamos por temas que sempre foram mal cobertos pela imprensa tradicional. Muitas empresas sempre estiveram relacionadas com casos de lavagem de dinheiro, agora está aparecendo com mais frequência com a Operação Lava Jato. Nós falamos de crise urbana, altos investimentos na região da Amazônia (como o caso da Hidrelétrica de Tapajós) e violência policial e da ditatura, por exemplo”, disse.

A Pública também promove concurso de microbolsas para repassar 5 mil reais a jornalistas desenvolverem uma reportagem. Das duas edições foram sete matérias premiadas. “Também contribuímos com a construção de um grupo de jornalistas a fundar a Ponte, uma plataforma para investigar casos de violência. “São um dos poucos jornalistas que seguem histórias violentas”, ressaltou.

Recentemente a Pública lançou a Casa Públicano centro do Rio de Janeiro, que pretende ser um centro cultural de jornalismo no Brasil. Lá é um centro para produção, fomento, discussão e apoio ao jornalismo independente e inovador. “Também pretende ser um local com workshops para capacitar essa nova onda de jornalistas empreendedores”, afirmou. Outra iniciativa foi o Mapa do Jornalismo Independente, como o próprio nome diz, é um mapeamento de iniciativas independentes, interativo e selecionadas aquelas que surgiram na rede, fruto de projetos coletivos e não ligados aos grandes grupos de mídia, políticos, organizações ou empresas.

Natália observou que levantaram mais de 100 iniciativas e a maioria surgiram no último ano, sendo que os jornalistas são de nichos da área feministas, jurídicas, entre outros. A grande maioria estão concentrados em São Paulo, já que é o Estado que também reúne maior número de organizações financiadoras, poucas práticas no Norte e Nordeste. Outro ponto nesse levantamento é que o crowdfunding está funcionando e está expandindo bastante. “Mais de 90% desses profissionais não tem a menor ideia como irão se sustentar”, atentou.

Do lado do financiador social, Leandro Beguoci, diretor editorial e de produtos da Associação Nova Escola, contou um pouco sobre o processo da Fundação Lemann como uma das principais financiadoras da Nova Escola. O veículo é reconhecido na área da educação, possui 30 anos

de trajetória, 200 mil assinantes pessoais físicas e um milhão que seguem em sua página no Facebook. E trouxe os seguintes questionamentos: “Por que estamos fazendo jornalismo? Qual valor do que fazemos?”

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Pedro defendeu a independência financeira para garantir o jornalismo independente

 

Para rever o negócio dessa publicação, Leandro compartilhou que está tendo conversas com professores e gestores educacionais. Citou a fala de uma professora da rede municipal de ensino de Santo André (SP). Ela comentou que procura saber o que está acontecendo no debate público sobre educação brasileira na publicação. “Eu não tinha ideia sobre gestão das escolas de Goiânia (GO) e como isso impacta na educação brasileira”. Paralelamente a isso, também observa a importância de terem conteúdos para contribuir na formação dos professores para darem aulas melhores.

Ele também falou da fragmentação da informação e se você procura um determinado conteúdo é bem provável encontrar em algum blog específico. Na área de comunicação, ele falou que há muito poder e pouco dinheiro. “Temos sérios problemas de gestão e dificuldade de nos adaptar. Muitas vezes parece que cada um quer construir a Catedral da Sagrada Família e há iniciativas de nichos distintos que sejam compartilhadas e ainda são poucas”.

Para o diretor editorial e de produtos da Associação Nova Escola, os profissionais de comunicação precisam tomar riscos e aproveitar a oportunidade da inovação tecnológica. “Como ela pode ser compartilhada e aprender muito se não tem impacto social”, ressaltou. O jornalista compartilhou que está lendo A Democracia na América, de Alexis Tocqueville, e está contribuindo para entender alguns movimentos atuais no cenário político brasileiro e na própria sociedade. “Uma parte sempre fica invisível”, afirmou e defendeu que é necessário ter mais iniciativas independentes para permitir dar mais vozes.


Serviço:

Confira o site do evento: http://congressogife.org.br/2016/
Veja aqui cobertura dos debates: http://gife.org.br/

Confira a cobertura completa:

Investidores, especialistas e representantes de organizações da sociedade civil se reuniram na plenária final para verem as propostas finais da área de investimento social privado

Em atividade prática, participantes falaram de desafios, atividades do dia a dia e diálogo entre atores do investimento social privado e organizações

Debate fala sobre papel e atuação de aplicativos e plataformas que contribuem na inovação da política

Presidente da Fundação Ford ressaltou a importância da honestidade nas relações entre atores sociais

Qualificação do debate político e fortalecimento de diálogo entre atores foram os pontos principais na abertura do 9º Congresso GIFE


Imagem: Divulgação

Data original da publicação: 06/04/2016