Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2016: aumento de lixões e redução da coleta

Diretor da Abrelpe informa que são 2976 lixões, só no Estado de São Paulo são 43.

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Diretor da Abrelpe traz os principais dados do levantamento e chama atenção para falta de conscientização da população brasileira. (Crédito da imagem: Susana Sarmiento)

Redução da coleta de lixo, menos recursos para essa área e aumento do número de lixões. Esses foram alguns dados alarmantes do Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2016 lançado hoje pela Associação Brasileira das Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe). O brasileiro produziu no ano passado 1,040 kg de lixo por dia, uma queda de 2,9% quando comparado ao ano anterior. Porém esse dado não veio acompanhado com uma melhora em toda gestão da coleta, destinação e recursos investidos nessa área.

No ano passado, foi coletado 71,3 milhões de toneladas, que corresponde a um índice de cobertura de coleta de 91% para o país, um pequeno avanço comparado ao ano anterior, mostrando que sete milhões de toneladas de resíduos não foram objeto de coleta e foram destinadas de forma inadequada.

Já a disposição final dos resíduos sólidos urbanos coletados demonstrou uma piora comparado ao ano de 2015: 41,7 milhões de toneladas foram enviadas a aterros sanitários. Já 3.331 municípios mandaram mais de 29,7 milhões de toneladas de resíduos, correspondentes a 41,6% do coletado em 2016 a lixões ou aterros controlados, que são espaços conhecidos por não apresentarem conjunto de sistemas e medidas necessários para proteção do meio ambiente contra danos e degradações.

Se somarmos a quantidade de resíduos sólidos urbanos, resíduos de construção e demolição e de resíduos de serviços de saúde, foram produzidos no ano passado 117 mil toneladas, que corresponde 1400 Estádios do Maracanã lotados até o topo de dejetos.
81 mil toneladas de resíduos sólidos por dia ainda possuem destinadas de forma inadequada, sendo encaminhadas a aterros controlados ou lixões, o que demonstra uma piora ao ano anterior, mostrando uma queda na destinação adequada de 58,7% para 58,4%.

De 2015 para 2016, houve aumento de lixões e redução de aterro sanitário e aterro controlado. Segundo o diretor da Abrelpe, Carlos Silva Filho, as cidades que deixaram o aterro sanitário para voltar aos lixões foram majoritariamente cidades da região Nordeste por questões econômicas. São 2.976 lixões no Brasil, só no Estado de São Paulo são 43 existentes. “Não existe uma pressão firme para isso ser corrigido. Também não há consciência do gestor público para a importância de uma boa gestão dos resíduos sólidos.

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Carlos chamou atenção que reciclagem de alumínio é diferente de reciclagem de lata de alumínio, em que o Brasil lidera ranking mundial. (Crédito da imagem: Susana Sarmiento)

O diretor da organização explicou que esses gestores que optaram retornar para lixão para economizar dinheiro, porém contamina o meio ambiente e impacta toda a população: “Um dado de 2015 revela que as prefeituras gastavam um bilhão e meio de reais para tratar problemas de saúde de toda a população e mais dois bilhões de reais para descontaminar o ambiente. Em 2015, eram quase 30 milhões de toneladas de resíduos descartados de forma incorreta nos lixões para depois ter um gasto bem maior. Acredito que irá ficar mais ou menos na mesma conta”.

Os recursos aplicados pelos municípios em 2016 para os serviços de limpeza urbana no Brasil, como coleta, transporte, destinação, varrição de ruas, limpeza de feiras, manutenção de parques, praças e jardins, foram em torno de R$ 9,92 mensais por habitante. Houve uma redução 0,7% em relação ao ano de 2015 para esse investimento. O diretor da organização ressaltou que o custo ideal seria de aproximadamente R$ 16,00.

A crise econômica do país também impactou a área de limpeza urbana. Houve redução de 17.700 postos de trabalho. A área neste ano empregou 335.669 pessoas em todo Brasil.

Carlos também trouxe dados da logística reversa de alguns setores que possuem programas de implementação, como: logística reversa de embalagem de agrotóxico, embalagem de óleo lubrificante, de pneus, do setor de alumínio e de papel e papelão.

De uma forma geral, ele levantou pontos importantes como conclusão deste estudo: a Política Nacional de Resíduos Sólidos está em vigor desde 2010, considerada uma lei moderna para mudar todo esse cenário, ainda carece de aplicação prática em vários pontos; a recessão econômica afetou toda a cadeia de resíduos sólidos; houve demissão de profissionais em todas as frentes dessa área; impactou na questão da saúde e meio ambiente colocando 96 milhões de pessoas em situação de risco por contaminação devido à má gestão de resíduos sólidos; e os recursos foram bem reduzidos. “Nós não vamos conseguir avançar na questão dos resíduos sólidos do Brasil, se não tivermos um instrumento de remuneração pelo usuário”, ressaltou o representante da organização.

Carlos ainda compartilhou que a Abrelpe realizou uma pesquisa no primeiro trimestre deste ano para observar todos os países com gestão de resíduos e eles possuem sim remuneração desses serviços pelos cidadãos. Há dois benefícios bem claros: ter recursos para implementar as práticas necessárias, e a questão da educação da população na forma como lidar com seus materiais descartáveis. Várias cidades analisadas que adotaram essa prática reduziram seus dejetos. “Não é só deixar o saco de lixo na porta de casa e esperar o caminhão levar. Tem muito mais por trás disso. Estamos criando um déficit bem grande que vai levar mais de uma década para ser superado e pode causar problemas para maior número de pessoas”, concluiu.