OSCIP Aventura de Construir contribui com microempreendedores de baixa renda na periferia de São Paulo

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A organização contribui na formação do microempreendedor por meio de oficinas e palestras

Avaliar o impacto das ações de programas e projetos é fundamental para contribuir com a qualidade do trabalho e entender melhor o impacto na comunidade. Esse é o trabalho da OSCIP Aventura de Construir (ADC), criada em 2011 pela Fondazione Umano Progresso para apoiar os microempreendedores de baixa renda.

A organização atende microempreendedores de baixa renda, que pertencem à classe C e poucos são beneficiários do Bolsa Família. Praticamente não há empreendedores com ensino superior completo, 60% são mulheres, são ativos e querem melhorar a própria situação. Além disso, contribuem para tornar a periferia mais viva e diminuir o trânsito urbano, porque cada empreendedor que se torna ativo perto de onde mora é uma pessoa a menos que viaja longas horas todos os dias para chegar ao trabalho.

A ADC contribui com o microempreendedor por meio da divulgação das possibilidades de microcrédito, orientação ao acesso a estas possibilidades, oferta de palestras à noite e nas periferias com conteúdo especificamente desenvolvido para este público e acompanhamento constante aos empreendedores, através de assessorias.

Seu pontapé foi em 2012 quando realizou uma pesquisa de campo extensa, composto por 300 perguntas a 200 empreendedores das áreas da Associação dos Trabalhadores Sem Terra de São Paulo (ATST-SP) para entender as reais necessidades do público-alvo e definir adequadamente os serviços a serem desenvolvidos. “Poderia ser uma linha de base de referência para medir o resultado gerado nos empreendedores, através do trabalho destes anos”, afirmou Silvia Caironi, administradora da LTDA e associada fundadora e coordenadora da OSCIP Aventura de Construir.

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Ezio é produtor e vendedor de salgados

A partir daí, foram desenvolvidas duas novas pesquisas em 2015 e uma em 2016 para avaliar o impacto gerado.  Com a finalidade de alinhar todos os detalhes metodológicos, ADC contou com o apoio das seguintes organizações: Kellogg Institute, da Notre Dame University, a ALTIS (Alta Escola de Negócios da Universidade Católica de Milão) e Comunitas. A partir da segunda pesquisa foi criado um grupo de controle de empreendedores que tinham sido incluídos na linha de base mas que não receberam os serviços da OSCIP nestes anos. Desta forma foi possível avaliar a evolução dos empreendimentos apoiados pela ADC em comparação com aqueles que operam em ausência de intervenção dela.

E quais foram os principais resultados observados? Aumento da formalização significativamente (cerca de 20 pontos percentuais, chegando a quase 70%), sem grandes diferenciais entre empreendedores ADC e grupo de controle; proporção constante entre microempresas que aceitam cartões, um patamar elevado de quase 80%; a porcentagem dos empreendedores seguidos pela ADC que contratam funcionários se manteve estável, enquanto a do grupo de controle caiu cinco pontos respeito à linha de base de 2012. O grupo de controle viu as próprias receitas mensais crescerem do 23% em comparação com a linha de base, um crescimento inferior de dez pontos porcentuais respeito aos empreendedores  acompanhados pela ADC, que tiveram um crescimento médio de 33%; o lucro do grupo de controle subiu do 7%, enquanto o dos empreendedores da ADC cresceu 44%; e a taxa de inadimplência dos credores de microcrédito no Banco do Povo Paulista acompanhados pela ADC é significativamente menor do que os demais.

“Nesse momento de crise, em que os recursos públicos e privados são escassos, nos parece irresponsável não avaliar os reais benefícios da própria ação. Isso vale para o público, mas também para as ONGs e o setor privado, onde às vezes aparece o risco da auto-referencialidade. Ao mesmo tempo, nos demos conta que a avaliação de impacto é difícil, no escopo e nos resultados, e onerosa na coleta. Portanto, consideramos imprescindível fomentar a discussão sobre meios que possam apoiar os atores sociais nessa tarefa”, atentou Silvia.

Para a fase de teste do sistema institucional de avaliação de impacto, desde o ano passado foram consultados 110 empreendedores cada três meses e sempre os mesmos, sendo 70 entre aqueles em contato com a organização e 40 aqueles que não aproveitam dos serviços gratuitamente oferecidos pela OSCIP e são integrantes do grupo de controle. Neste momento, a equipe da ADC está voltada para a finalização da terceira rodada da pesquisa. Com mais essa rodada, a expectativa é de acertar os detalhes metodológicos para depois proceder com um ritmo semestral nos próximos meses.

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OSCIP estimula microempreendedores a ministrarem palestras

Com esses levantamentos e análises, Silvia comentou que foi possível observar um impacto real do trabalho da ADC com esses atores, especialmente quanto ao aumento do lucro que depende de um aumento do autocontrole e do envolvimento pessoal no empreendimento.

“O capital social (família, associações e afiliação religiosa) nos parece outro fator relevante a ser considerado e por isso na terceira pesquisa incluímos algumas perguntas para aprofundar esse aspecto. Finalmente o que pode fazer uma diferença mais relevante para a sustentabilidade do empreendimento é o fator pessoal unido ao técnico, que nós na ADC chamamos de cultura empresarial. E esta cultura se gera no tempo e pode acontecer somente através de um acompanhamento constante, explicou Silvia.

Outras descobertas foram que 71% dos homens conhecem a própria receita, enquanto entre as mulheres apenas 48%; a receita mensal é superior entre os homens com o valor de R$ 9.600,00 e nas mulheres é de R$ 4.600,00; os homens ainda lideram no quesito de conhecimento do próprio lucro, com 62%  contra o 43% entre as mulheres; sobre lucro mensal, é superior entre os homens com R$ 3.800,00, já mulheres mostram um lucro mensal de R$ 1.600,00; e os homens são os que possuem mais funcionários com 52% e mulheres ficam com 19%. “Estamos ainda tentando entender as razões dessas diferenças. Por enquanto nos parece que muitos dos empreendimentos femininos nascem para gerar uma renda familiar secundária, um empreendimento que concilia com o cuidado da casa, da família e sobretudo dos filhos – a maioria das empreendedoras atua na própria casa”.

Silvia também sublinhou uma caraterística do público que atendem: “Normalmente o esforço e os recursos destinados para o micro empreendedorismo no Brasil vão ou para o extrato social inferior (apoiado com programas sociais, como o Bolsa Família), ou para os microempreendedores “chiques” que acabaram a graduação, informatizados e bem mais fáceis de serem apoiados on-line. O microcrédito está atravessando uma fase de recesso pela crise econômica do pais, atualmente a maioria dos microempreendedores já têm conta bancária, mas nos locais onde moram nem caixas 24 horas há. Isso nos leva pensar que deveria aumentar muito a atenção geral sobre esta camada social. Seria um bom investimento para o país!”


Serviço:

Conheça o site da OSCIP Aventura de Construir: http://aventuradeconstruir.org.br

Texto: Susana Sarmiento, com informações da OSCIP Aventura de Construir
Imagens: Divulgação/Aventura de Construir
Data original de publicação: 04/05/2016