Organização promove curso de gastronomia para jovens de baixa renda em São Paulo

Organização promove curso de gastronomia para jovens de baixa renda em São Paulo
As aulas de nutrição que a professora Irani Amaro ministra no curso de gastronomia promovido pelo Instituto Viva Melhor (IVM)

As aulas de nutrição que a professora Irani Amaro ministra no curso de gastronomia promovido pelo Instituto Viva Melhor (IVM), uma organização que promove atividades para jovens de baixa renda, são as preferidas da jovem Natalia Santos.

A adolescente, que atualmente está no terceiro ano do ensino médio, sempre cozinhou por hobby e hoje vê nisso uma profissão. Igor da Costa, seu colega de classe, que trabalha como cuidador de idosos, descobriu a aptidão pela cozinha aos oito anos de idade. “Minha mãe foi trabalhar e eu precisava cozinhar dentro de casa”, contou.

Organização promove curso de gastronomia para jovens de baixa renda em São Paulo
Cada jovem, com suas individualidades, tem um objetivo dentro do curso.

O IVM surgiu 11 anos atrás, a partir da união de profissionais oriundos de diversas organizações que tinham o anseio que transformar a realidade ao seu redor. O criador, Geraldo Salvador, começou a atuar com impacto social ainda na adolescência, quando participava da pastoral da igreja do bairro onde morava. “Eu, junto com mais alguns colegas, fiquei pensando em como prender a atenção das pessoas na mensagem que queríamos passar. Começamos, então, a oferecer cestas básicas para os moradores das periferias, mas antes eles teriam que nos escutar por pelo menos meia hora”. A tática deu certo. Ao todo já passaram mais de 800 alunos pelo IVM, e atualmente a iniciativa está na sua sétima turma. A formação completa dura um ano.

A ex aluna, Thabata Precioso, aos 17 anos já tem sua própria confeitaria. “Foi aqui no curso que descobri minha aptidão por doces. Somos uma equipe de três pessoas: eu, meu namorado, que faz faculdade de eventos, e minha cunhada”. Acrescentou que antes de participar da formação, a confeitaria era apenas um passatempo. “Foi uma amiga da minha mãe que indicou o curso, e a partir daí eu comecei a realmente trabalhar com gastronomia”.

Cada jovem, com suas individualidades, tem um objetivo dentro do curso. Bianca Lira, que está terminando o colegial, começou as aulas porque queria aprender a cozinhar sem a ajuda do pai. “Sou filha única e quero fazer intercâmbio. Meus pais, então, disseram que eu ia ter que aprender a me virar sozinha. Decidi que o primeiro passo seria na cozinha”. A jovem, que está em ano de vestibular, não pretende continuar estudando o assunto na faculdade. “Quero fazer TI”, disse ela. O idealizador Geraldo conta que são muitos os perfis dos estudantes que fazem parte do curso.

Além de nutrição, são oferecidas aulas práticas na cozinha, na qual os alunos têm a oportunidade de colocar em prática tudo o que aprendem nas aulas teóricas, e uma parte comportamental, que prepara os estudantes para o mercado de trabalho. Para participar do curso, é necessário ter entre 15 e 18 anos. A organização não oferece bolsa auxilio para os estudantes, porém disponibiliza refeições gratuitas no local.

O que motiva Vitória Souza, de 17 anos, a continuar participando, é a forma com que os docentes conduzem suas aulas. “Eu entrei aqui pensando que ia aprender sobre cortes e técnicas. Realmente, eu aprendi, mas tem muito além disso. É realmente um processo de amadurecimento”. Destacou como uma de suas inspirações o professor da escola e chefe de cozinha Marisvaldo Andrade dos Santos. “Conseguimos perceber amor no que ele faz”, disse ela. Igor pontuou que, quando entrou no curso, era extremamente introvertido e isso o atrapalhava no dia a dia. “Até isso eu melhorei. Antes era um sufoco até na hora de apresentar trabalho, hoje eu já faço com mais facilidade”.

Geraldo ressalta que se sente muito orgulhoso ao ver o desempenho de cada um dos estudantes. “Eu sempre repito na reunião de pais que nós somos rígidos, mas isso é visando o melhor para o futuro deles. Faço questão de lembrar os professores que eles podem ser legais, mas sem deixar de cobrar”. Disse, também, que jovens em medida socioeducativa e de abrigos também já passaram pela formação promovida pelo IVM. “Não estamos aqui para julgar ninguém, e sim para oferecer um futuro melhor a eles. Queremos ser um exemplo positivo”.

Priscila Santana, gerente de comunicação e responsabilidade social do Instituto Ajinomoto, parceiro da instituição desde o ano passado, conta que a empresa atua em diversos seguimentos de projetos sociais, apesar do foco ser o ramo alimentício. “Temos o Instituto, que é voltado somente para a realização destes trabalhos, mas a própria marca tem uma área de responsabilidade social, que empresta seus nomes para iniciativas. Temos projetos de sustentabilidade, leis de incentivo… São vários”. Disse, também, que o papel da organização é mostrar para os estudantes quais os caminhos que levam a conquista de seus sonhos. “Eles têm sede de aprender, e nós de ensinar. Vamos trilhando isso juntos”, disse.

“Desde o início temos um relacionamento que foi crescendo e trazendo boas surpresas. Hoje, é a melhor parceira que nós temos”, Geraldo acrescentou. Destacou, também, a atenção que o Instituto tem com o IVM. “A participação deles na vida dos jovens é total. Percebemos que não é só uma parceria pelo dinheiro, pela visibilidade, mas sim pelo engajamento”. Hoje o Instituto recebe doações tanto de parceiros quanto de órgãos governamentais.

Geraldo pontuou um fato durante sua fala: por muitos anos, as organizações sociais situavam-se apenas em regiões nobres da cidade, e isso dificultava a locomoção dos voluntários e associados até o local. “As ONGs foram percebendo que ou elas entravam no fluxo de onde morava a maioria da população, que não era no centro da cidade, ou os trabalhos não iriam para frente. Centralizar as coisas não dá certo”, disse.

“Nosso maior objetivo é abraçar o jovem”, contou ele, por fim. “Nos perguntamos todos os dias qual é a perspectiva do jovem que passa pelo nosso curso e qual o impacto que ele pode causar mundo afora”. Ressaltou, também, que com cada turma nova vem um aprendizado diferente. “Nosso principal objetivo é abraçar o jovem e a família dele”.

Mais informações sobre o projeto, acesse: https://www.facebook.com/ivm.oficial/?fref=ts


Texto: Gabriela Lira Bertolo

Data original de publicação: 27/04/2017