Organização lança publicação com metodologia de formação para cooperativa de catadores e boas práticas desse segmento

DICLEIT_interlat_lixoacidadaniaEste ano é o limite para fechamento de lixões e planos de resíduos sólidos dos municípios, de acordo com lei nº 12.305/10. Para colaborar na formação e na orientação das cooperativas de catadores de materiais recicláveis, a publicação Do lixo à cidadania – Guia para a Formação de Cooperativas de Catadores de Materiais Recicláveis, desenvolvido por uma equipe de profissionais do Instituto de Projetos e Pesquisas Socioambientais (Ipesa), editado pela Editora Peirópolis.

Lançado no final do segundo semestre do ano passado, a organização sistematizou sua metodologia utilizada na capacitação, formação e ensino de técnicas de gestão a cooperativas de catadores de materiais recicláveis, baseada em bons resultados alcançados no fortalecimento dos grupos. A ideia é disseminá-lo e contribuir aos gestores responsáveis na formação de cooperativas e até pelos planos de gestão de resíduos.

Segundo Luciana Lopes, geógrafa e técnica do programa de resíduos sólidos do Ipesa, a organização se preocupa em formar todos os integrantes das cooperativas, não somente as lideranças. “A gente procura que cada cooperado tenha uma função, além da triagem de material e recepção, ou que trabalhe na melhoria da recepção da produção, no aumento da qualidade de vida das pessoas da cooperativa, ou até na conscientização das pessoas que visitam o galpão e fazem trabalhos com a comunidade na formação de grupos de trabalho. Dessa forma, se as pessoas saírem das cooperativas, todo mundo terá um nível de liderança no processo”, explica. Também pontuou a questão do educador para construir o planejamento junto com os cooperados. “E nosso terceiro diferencial é atuar dentro das necessidades de aprendizado dentro do cotidiano da cooperativa. Nossa metodologia permite que o grupo seja autônomo do educador, a ideia é que esse profissional fique um período e depois vá embora”.

Luciana explica que a primeira etapa dessa metodologia é a construção do planejamento participativo, em que inicia com a criação de acordos com a cooperativa, para saber como e quando será iniciado. Depois fazemos uma oficina de planejamento para entender cada área de trabalho, as prioridades, para aonde querem ir, a visão de futuro e separar os grupos de trabalho, em que cada cooperado é obrigado a integrar. Eles trabalham nesses grupos para alcançarem as metas.

Segundo a técnica do programa de resíduos sólidos da organização, a publicação nasceu diante de duas necessidades. A primeira queria formas pessoas para trabalhar em cooperativas. “Tínhamos dificuldades das pessoas entenderem a questão do cooperativismo, da produção e da administração, ou com viés didático e entendesse a metodologia”, afirma. A geógrafa ainda comentou que há pouco material sobre o assunto, capacitação das cooperativas e até para conseguirem atingir as metas estabelecidas na PNRS, como o fechamento dos lixões e a construção dos planos de gestão de resíduos nos municípios. “Precisava contribuir com o tema para ampliar a lugares que não fosse atingidos. Como não teríamos pernas para trabalhar com todos os municípios do Brasil, resolvemos fazer o livro para distribuir a todos os municípios”.

Em 10 partes, o livro aborda etapas importantes de formação de cooperativas e a importância da autonomia desse negócios. O primeiro aborda o perfil dos catadores de materiais recicláveis, trazendo o histórico de seu surgimento desse grupo, a organização do grupo, o papel do catador no processo de reciclagem, a criação do Movimento Nacional de Catadores Recicláveis (MNCR), o registro do catador na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO). Outros capítulos abordam os seguintes temas: mobilização dos catadores, o processo do trabalho informal para organização; planejamento e construção participativa; as capacitações (administração, produção e infraestrutura, educação ambiental, elaboração de projetos e captação de recursos e qualidade de vida); educação para emancipação social; cursos de formação; preparando para a autonomia; a relação das prefeituras com as cooperativas; avaliação- indicadores de sustentabilidade e exemplos de boas práticas. Segundo Unicef, os catadores são responsáveis por mais de 60% do papel e do papelão reciclados e por 90% do material que alimenta as indústrias de reciclagem.

Luciana explica que a ideia foi iniciar o livro explicando o principal profissional do processo, mostrando quem é e a realidade do catador, depois focar em particularidades das cooperativas. “Quando você mobiliza pessoas, há espaço a metodologias”.

No capítulo de planejamento e construção participativa, inicia com explicação sobre oficina de futuro. Nesta parte, há a sistematização das demandas para transformá-las em metas e serem assumidas pelos grupos da cooperativa. Segundo a publicação, a oficina é uma forma de produção coletiva do conhecimento a partir do princípio de que todos têm a aprender e a ensinar, cada um em sua maneira e em conjunto devem encontrar os caminhos para enfrentar os desafios e procurar as soluções. Com a participação de todos, a ideia é visualizar sonhos de futuro de cada membro, apontar os problemas e dificuldades, reconhecer o que há de comum entre eles, na percepção de suas causas, perceber os temas mais relevantes no seu contexto e as condições e alternativas, identificar as potencialidades, vocações e conhecimentos do grupo. Também explicou as atividades mais usadas dentro dessa metodologia, seu passo a passo: árvore dos sonhos, o muro das lamentações e o plano de ações.

A geógrafa chama atenção para o capítulo A relação das prefeituras com as cooperativas, escrito por ela, porque em geral as prefeituras incubam as cooperativas e são direcionadas para Secretaria de Assistência Social. “A prefeitura tem dificuldade de entender essas propostas como uma forma mais convencional, porque são vistos como projetos. Dessa forma, pontuo no livro os limites da prefeitura, da cooperativa e o que é preciso ser pactuado para uma direção mais autônoma”.

Esse capítulo aborda como eram os marcos legais antes e depois da PNRS, as metas do Plano Nacional de Resíduos Sólidos, as estratégias e os instrumentos na relação com as cooperativas e o pagamento por serviços ambientais urbanos.

A geógrafa comentou ainda que durante a IV Conferência Nacional de Meio Ambiente, que ocorreu em Brasília entre os dias 24 e 27 de outubro, com o tema na PNRS, houve muito debate sobre as formas para eliminar os lixões e a defesa da incineração. “Prefeituras com pequena quantidade de lixo querem optar por uma tecnologia cara e que não permite a reciclagem”. Outra análise feita por Luciana é o avanço na profissionalização dos catadores e a quantidade de cooperativas organizadas, além de reforçar a importância desses profissionais serem incluídos cada vez mais no processo de coleta seletiva da cidade seguindo a lógica: reconhecer, incluir e reordenar.

Serviço:

Título: Do lixo à cidadania – Guia para a Formação de Cooperativas de Catadores de Materiais Recicláveis
Organizador: Julio Ruffin Pinhel e autores: Augusto Jackie do Nascimento Lopes Vieira, Beatriz Castro Maroni, Fernando Pessoa de Albuquerque, Gina Rizpah Besen, Lisa Yázigi de Barros Santos, Luciana Lopes e Marcela Bacchin Cardo – Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR)
Ilustrações: Luciano Irrthum
Edição: Editora Peirópolis e Instituto de Projetos e Pesquisas Socioambientais
Número de páginas: 242
Distribuição gratuita
Interessados podem baixar a publicação aqui: http://bit.ly/1eUIvXK

Site da iniciativa: www.dolixoacidadania.org.br

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