ONG inclui e integra refugiados com famílias brasileiras para celebração de Natal

ONG inclui e integra refugiados com famílias brasileiras para celebração de Natal

No dicionário Houaiss de língua portuguesa, empatia significa a: “capacidade de partilhar dos sentimentos e emoções de outra pessoa”. Trata-se do primeiro requisito para entender minimamente alguém que seja completamente diferente. Para além das palavras, esse sentido se reflete também em ações, como no caso de Daisy Fragoso, de 31 anos: a educadora musical aceitou, por intermédio da ONG Adus – Instituto de Reintegração do Refugiado, receber uma família de refugiados sírios em sua casa para passar o Réveillon.

ONG inclui e integra refugiados com famílias brasileiras para celebração de NatalDepois do contato com o tema por meio da mídia há cerca de um ano, ela se interessou e quis saber mais. Foi assim que caiu na página da organização no Facebook e recentemente descobriu a campanha de “adotar” refugiados no fim do ano, que já está em sua terceira edição. “Eu acho que nossa única missão, ou a principal talvez, é ajudar as pessoas. Gostei da ideia e pensei ‘por que não? ’”, conta Daisy.

Ela ainda não conhece pessoalmente as pessoas que vai receber. Por enquanto, o único contato foi pela internet, com Muna Darweesh. Aos 35 anos (dois deles no Brasil), a síria mora em São Paulo com os quatro filhos, ainda crianças, e o marido. Ele, que era engenheiro naval no país de origem, hoje ajuda a esposa em seu negócio, já que não fala português.

Muna sustenta a família com a venda de comidas árabes (Muna – Sabores & Memórias Árabes). Ela explica que o Brasil foi sua única opção e que, quando chegou aqui, as dificuldades foram diversas: “encontrar lugar para morar, trabalho, escola para as crianças, tudo”. Além disso, a língua ainda é um desafio. Apesar do choque cultural, ela conta que já se adaptou e os filhos estão integrados. Mesmo assim, sonha em voltar para casa um dia.

Eles são apenas um exemplo dentre as mais de quatro milhões de pessoas que deixaram a Síria desde 2011 por conta dos conflitos armados. O Brasil passou a receber muitos deles após o governo federal facilitar a concessão de visto para pessoas dessa nacionalidade.

De acordo com Sidarta Martins, de 40 anos, advogado e um dos diretores do Adus, isso se dá porque nossa legislação é mais avançada que a Convenção da ONU sobre o Estatuto dos Refugiados. “A convenção fala de perseguição individual, seja por questões de raça, ideologia, religião. Aqui, além de considerar essa hipótese, nossa lei cita as ‘graves violações de direitos humanos’”, diz, explicando que os sírios se encaixam nessa situação e por isso possuem tal facilidade.

No entanto, pessoas de outras regiões em situação de risco, apesar de não receberem a mesma atenção do Brasil, também acabam obrigadas pelas circunstâncias a virem para cá. Foi assim com Eric Mabazei, de 29 anos, nascido na República Democrática Congo. A palavra que consta no nome do país não se faz presente no dia a dia de quem vive por lá: “nós não temos democracia, não temos direitos humanos, é muita coisa ruim”, diz ele, que teve o pai assassinado pelo próprio governo em 2012 por não concordar com o que ocorria.

“Foi um amigo do meu pai que me colocou em um navio, ele também faz parte do governo”, conta Eric. Quando fugiu, em 2013, sua única certeza durante um mês de viagem era de que o destino seria a América, mas só depois de pisar em terras brasileiras é que soube onde estava.

Nenhum dos 32 dialetos ou o idioma francês falados no Congo ajudaram na comunicação em português. Agora, mais adaptado, ele diz que gostou do Brasil e quer se casar e se estabelecer por aqui. A dificuldade hoje, uma das maiores para todos os refugiados, é conseguir um emprego. Mesmo já tendo trabalhado aqui, Eric não consegue uma ocupação há cerca de seis meses.

Ele também não esquece os entes queridos que ficaram para trás e sofre com o contato raro, pois a mãe mora em uma província extremamente simples. “Penso muito, porque estou sozinho”, conta. Apesar da saudade e de não poder comemorar o Natal com seus parentes (que são cristãos), uma família de São Paulo o levará para passar as festas de fim de ano no Guarujá. Será a primeira vez que Eric irá a uma praia brasileira. Quando comenta a diferença entre confraternizações de sua terra de origem e do país que o recebeu, ele diz que a festa é parecida, o que muda é o ambiente: “É a mesma coisa, mas a alegria é diferente, entende? ”.

A atuação da ONG

Quem promove essa campanha do Adus é Ana Cláudia Madaleno, de 50 anos. “Com o contato que tive com eles, eu via que era uma data muito triste, longe de casa, numa situação de refúgio, sem conhecer quase ninguém, e me coloquei no lugar deles”. Alguns dos participantes do projeto acabaram ficando amigos e mantendo contato ao longo do ano seguinte.

Formada em letras, começou sua atuação na ONG dando aulas de português há cerca de três anos. O diretor Sidarta também teve trajetória parecida. Segundo ele, com o assunto do refúgio entrando em pauta especialmente em 2015, a organização teve um boom de pessoas para ajudar: até o fim do ano passado, eram 50 voluntários; hoje, são aproximadamente 300 – a maioria mulheres, jovens e com ensino superior.

A expectativa é que mil pessoas tenham sido atendidas pelo Adus nos últimos doze meses, alguns imigrantes e a maioria refugiados. Mesmo sendo situações facilmente confundíveis, Sidarta deixa as diferenças claras: “do ponto de vista pessoal, o imigrante teve essa escolha de deixar a família e a região onde mora para procurar uma vida melhor em outro lugar. O refugiado não. Ele não queria sair e foi obrigado”.

Dessa maneira, são indivíduos que quase sempre estão no meio termo. A integração vai acontecendo, mas permanecem muito ligados às suas origens. “Sempre tem esse choque, porque a pessoa não estuda o Brasil antes, ela vem nessa questão da fuga e chega aqui sem conhecer nada mesmo”, afirma o diretor.

O Adus, que se sustenta somente com seus eventos e apoio financeiro de parceiros e doações, ajuda os refugiados cadastrando-os, auxiliando-os com a inserção no mercado de trabalho e dando aulas de português e informática. Também realiza campanhas e palestras para sensibilização ao tema. Além disso, promove bazares e feiras culturais nos quais eles podem trabalhar e mostrar um pouco de suas culturas, quase sempre recebendo remuneração para isso. Outra ação importante da ONG é a criação do projeto facilitador social, no qual brasileiros passam a ajudar os estrangeiros a acessar serviços básicos, como o SUS, quase sempre desconhecidos por quem vem de fora.

Primeiros passos depois de chegar ao Brasil

A primeira ação que um refugiado precisa realizar quando chega ao país é ir até a Polícia Federal e se declarar como tal, solicitando o pedido de refúgio, que por sua vez é encaminhado ao Conare (Comitê Nacional para os Refugiados. No caso da cidade de São Paulo, é possível ir diretamente a um escritório do órgão. “Mesmo que a pessoa esteja aqui ilegalmente, o Brasil tem que julgar o pedido e, se aprovado, a pessoa fica. Se não, ela tem que procurar outro lugar”, diz Sidarta.

De acordo com ele, durante o processo legal, o solicitante precisa provar que veio de um local onde havia violações de direitos humanos. Enquanto a resposta não sai, ele ganha um protocolo que já serve como uma identidade, por meio da qual é possível tirar CPF e Carteira de Trabalho. No entanto, isso nem sempre ajuda muito. Várias das instituições do país, como bancos, não conhecem o protocolo.

Carolina Teixeira, de 22 anos, é formada em Relações Internacionais e trabalha uma vez por semana na recepção do Adus como voluntária. Ela é uma das responsáveis pelo primeiro contato direto dos estrangeiros com a ONG. “Para mim o mais difícil é saber que não vou sair daqui com o problema deles resolvido e eles esperam isso”. Além dos obstáculos para conseguir emprego, os refugiados que possuem curso superior em seus países não conseguem validá-los aqui. Ela explica que essa tramitação é demorada, burocrática e cara.

Sidarta também comenta esse problema e ressalta que, apesar de a lei brasileira ser receptiva aos refugiados, as instituições e a sociedade de maneira geral ainda são fechadas, uma vez que eles são encaminhados para subempregos e sofrem com problemas estruturais do país, como o racismo. “Os sírios possuem mais facilidade, porque a cara deles não sofre tanto preconceito, mas há discriminação contra os latinos e negros”.


Texto: Natália Freitas
Data original de publicação: 22/12/2015

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