ONG capacita comunidade e profissionais da saúde por mais qualificação

O direito de todos terem acesso ao serviço de planejamento familiar recebe ajuda de entidades sociais. A ONG Reprolatina – Soluções Inovadoras em Saúde Sexual e Reprodutiva é uma delas, que desenvolve trabalhos com objetivo de melhorar a Saúde Sexual e Reprodutiva (SSR) das populações de baixa renda da América Latina.

“O lema do nosso trabalho está baseado em um triângulo. As três pontas representam os principais atores envolvidos: a população, o serviço de saúde e tecnologias de saúde. O círculo ao redor do triângulo é um conjunto de aspectos como a estrutura econômica, social e cultural de uma sociedade”, explica Margarita Diaz Montenegro, enfermeira obstétrica, doutora em Educação e presidente da entidade.

Em parceria com sistemas públicos de saúde e as comunidades locais no Brasil, Chile, Bolívia e Paraguai, a entidade atua na construção de capacidades que garantam a implementação de programas de SSR sustentáveis. Criada em 1999, a Reprolatina envolve diversos profissionais, como enfermeiras, psicólogos, líderes comunitários, educadores, entre outros.

No Brasil, Reprolatina trabalha com nove centros de capacitação e atuação em 39 municípios; na Bolívia, com quatro centros de capacitação e nos distritos mais próximos. Já no Chile, há três centros de capacitação, enquanto o trabalho no Paraguai está ainda em fase inicial com a realização do diagnóstico estratégico e preparação do projeto piloto.

“Não costumamos olhar apenas para o serviço público de saúde, mas nos focamos nas necessidades da população. Questionamos junto com a comunidade os Métodos Contraceptivos (MAC) utilizados e o que pensam sobre sua escolha. Auxiliamos os municípios para terem um serviço de saúde público de qualidade, porque atuam ainda de forma vertical”, ressalta Margarita Diaz.

A presidente da Reprolatina justifica o trabalho da sua entidade porque muitos conhecimentos produzidos na universidade não chegam à comunidade. Por isso, capacitam mulheres que tem contato com comunidades de baixa renda e possuem interesse na área para expandir informações sobre Saúde da Mulher e Reprodutiva. “Em Santa Bárbara d’Oeste (SP), as jovens engravidavam muito cedo e o dono de uma empresa decidiu contratar apenas homens. Então, decidimos desenvolver um trabalho nesta região para tentar amenizar o preconceito contra as mulheres, formando agentes voluntárias de saúde para orientarem as mulheres da cidade”, conta.

Segundo Margarita Diaz, há ainda desconhecimento entre a comunidade de baixa renda sobre todos os MAC. “Geralmente, nos postos de saúde, os mais usados são a pílula e a ligadura de trompas”, ressalta. Em Santa Bárbara d’Oeste, desde 1997 com o trabalho de orientação nas comunidades e provedores de saúde, foram mais de dois mil homens que fizeram vasectomia.

O trabalho de capacitação das comunidades começa com um diagnóstico local, apontando as principais necessidades da região. Para os provedores de saúde, a carga horária da capacitação é de 40 horas e aborda temas, como: conceito de Saúde, os princípios do Sistema Único de Saúde, conceito de Sexualidade, questão de gênero, direitos sexuais e reprodutivos, planejamento familiar e outros assuntos. “Fazemos um exercício com estes profissionais, que eles reconhecerem o módulo que querem para trabalhar e tudo o que precisa mudar para conseguirmos analisar os processos de mudança”, pontua a presidente da Reprolatina.

A comunidade passa por oficinas com carga total de 80 horas que abordam as mesmas temáticas das capacitações para profissionais da saúde. Estas pessoas se tornarão multiplicadores para orientarem indivíduos de outras regiões. “Perguntamos para as mulheres da comunidade o que elas sabem sobre MAC, suas necessidades e o que gostariam de ter”, explica Margarita Diaz.

Margarita Diaz disse ainda que uma confusão sobre a responsabilidade na compra dos MAC. “O Ministério da Saúde fala que é papel do município, enquanto este defende ser obrigação do Estado. Há cinco anos o Estado é responsável pela supervisão dos remédios oferecidos no sistema público e não pela sua compra”, alerta.

Atualmente, a entidade vai desenvolver dois projetos de capacitação para mulheres e jovens não escolarizados sobre doenças sexualmente transmissíveis (DST), em Sumaré, no interior de São Paulo. O planejamento familiar é um dos temas, como valorização da auto-estima, educação popular, MAC, DST, Aids, Direitos Sexuais, Gênero e outros.

Elaine Prondi Pedro, enfermeira, conheceu o trabalho de Margarita quando sua equipe foi implantar em Santa Bárbara d’Oeste, o Programa Saúde da Mulher. Para isso, foi importante a capacitação entre os profissionais de saúde, que receberam as capacitações. “Depois da capacitação, passei a me valorizar como mulher e dei mais atenção na relação de gênero”, opina.

Após sua capacitação, Elaine Prondi passou estas informações para multiplicadores de comunidades, que seriam promotoras de saúde voluntárias. A Colônia do Retiro, conhecida pelo cultivo de cana-de-açúcar, e povoada por imigrantes nordestinos que vivem em condições precárias, foi uma das regiões atendidas. “Nesta comunidade, participaram 18 mulheres, que sofriam pela falta de informação e as mudanças eram notáveis após a capacitação. Esta população pintou suas casas, conseguiu uma Unidade Básica de Saúde, escolas, entre outros serviços necessários”, destaca.

Maria Áurea Soares de Deus, promotora de saúde voluntária, passou pela sua primeira capacitação em 1997 com Margarita Diaz e, em 2003 na Reprolatina. Já atuou na Secretaria de Saúde e foi coordenadora da Pastoral da Criança, em Santa Bárbara do Oeste. Tornou-se uma multiplicadora quando passou seus conhecimentos para comunidades rurais de sua cidade, como Colônia Retiro, Colônia Prezoto, dentre outros bairros.

“Como meus filhos eram adolescentes, não sabia como lidar com suas dúvidas de sexualidade. As capacitações me deram a oportunidade de conversar mais com eles. Na minha época, conversava esses assuntos apenas com minhas amigas. Hoje minha filha mais velha é também uma promotora e passou por duas capacitações”, revela Maria Áurea.

De acordo com relato de Maria Áurea, a primeira coisa ressaltada nas oficinas é a valorização do corpo da mulher e as aulas de cidadania, que ajudam as comunidades conhecerem a buscarem seus direitos. “O trabalho da Reprolatina se baseia na promoção humana. Eles dão oportunidade de você crescer pelo conhecimento. Sempre tive o sonho de fazer universidade e hoje estou no segundo ano de Serviço Social”, conta.

“Muitos diziam que eu era enviada de demônio”. Maria Áurea contou que sofreu represálias quando organizava oficinas em espaços da Igreja de sua região, porque muitos defendem o uso de métodos contraceptivos naturais. “Quando abordamos planejamento familiar, não falamos para as famílias não terem filhos, mas alertamos a necessidade de tê-los em boas condições. Procuramos estimular as famílias a planejarem suas vidas para todos terem acesso à educação, uma alimentação adequada e exigirem do Estado um serviço de saúde público com qualidade”, pontua.

Segundo Maria Áurea, as oficinas realizadas na Colônia Retiro deram bons resultados, porque algumas mulheres capacitadas voltaram para sua terra natal no Nordeste e passaram a exigir serviço de saúde com qualidade. “Elas já sabem como questionar o coordenador da Unidade Básica de Saúde e onde procurar informações. Fazem um diagnóstico local e encaminham para o secretario de saúde de seu município”, explica.

No bate papo dos jovens, a expressão planejamento familiar não é utilizada, mas projeto de vida

Para ajudar a dialogar com os adolescentes, a Reprolatina também capacita jovens para serem multiplicadores para outros jovens. Maryellen Oliveira, 23 anos, é uma das multiplicadoras, já que passou pela capacitação quando tinha 13 anos. “Foram 12 semanas de aulas sobre sexualidade, gênero, gravidez e outros assuntos. Em 96, montamos um grupo chamado Instrutores de Preferência a Saúde Sexual do e da Adolescente (IRSSA), que tinha parceria com a Secretaria Municipal da Saúde de Santa Bárbara d’Oeste”, explica a jovem.

Em 1996, houve a implementação de um programa piloto para adolescentes no município de Santa Bárbara d’Oeste, que integram as ações das áreas de saúde e de educação voltadas para prevenção e assistência de adolescentes e jovens com foco na sexualidade. Os jovens são os principais atores nesse processo.

Já em 99, os coordenadores da Reprolatina reformularam o Programa de Educação Afetivo-Sexual (PEAS), da Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais, originando um novo programa com foco na formação de adolescentes agentes voluntários de saúde, a preparação de educadores e de profissionais da saúde para trabalharem com adolescentes.

A partir dessas iniciativas, a Reprolatina desenvolveu o Programa Vivendo a Adolescência, que promove qualidade de vida para os jovens e adolescentes com temas ligados a sexualidade para melhorar a SSR e discutir temas transversais (gênero, direitos sexuais e direitos reprodutivos). A entidade reconhece a importância de alcançar pessoas ou instituições que fazem parte da realidade do jovem, como amigos, escolas, serviços de saúde, igrejas, mídia e outros.

“Os jovens não discutem planejamento familiar, porque não se trata de planejar sua família, mas evitar a gravidez indesejada. Para isso, mostramos todos os MACs. Não usamos a expressão planejamento familiar, mas projeto de vida. Por exemplo, questionamos as conseqüências de uma gravidez na adolescência e a realidade socioeconômica deste jovem”, ressalta a jovem.

Há ainda o programa de Apoio a Adolescentes Grávidas; Capacitação de Adolescente Agentes Voluntários (as) de Saúde; Capacitação de Profissionais, com foco na adolescência; Informação, Educação e Comunicação, que consiste na elaboração de materiais para viabilizar o processo de orientação nas oficinas e palestras. O site “Vivendo a Adolescência” promove debate sobre temas de interesse dos (as) adolescentes e jovens e o Advocay, responsável pelo desenvolvimento de estratégias e atividades inovadoras de advocacy para sensibilizar tomadores de decisão a necessidade de políticas públicas específicas para diminuir desigualdade de gênero, garantia dos direitos sexuais e reprodutivos de adolescentes e jovens para amenizar sua vulnerabilidade nas áreas de Sáude Sexual e Reprodutiva.

De acordo com Maryellen, o IRSSA foi uma oportunidade dela ser ouvida e construir sua identidade, valorizando sua auto-estima. Ela já capacitou 80 jovens multiplicadores e deu palestras para mais de 15 mil adolescentes. “As escolas tinham receio do nosso trabalho. Acham que jovem só quer saber de bagunça e provamos o contrário. Os adolescentes se sentem mais à vontade com outros jovens e fazíamos um programa de rádio esclarecendo dúvidas sobre sexualidade. Recebíamos críticas apenas das pessoas mais velhas”, pontua.

Hoje, segundo a entidade, O IRSSA está sem coordenação, enquanto outros grupos de Piracicaba, Santa Bárbara d’Oeste e Sumaré estão em reestruturação do Programa e não estão em atividade. A maioria dos municípios que participam da Reprolatina se preparam para implementar as ações propostas pelo Programa Vivendo a Adolescência.

“O terceiro setor tem um papel fundamental no trabalho de intermediar o governo municipal e a comunidade. Muitas vezes este governo confunde política partidária com política de saúde. Se pensarmos nas comunidades, com mais informações, elas conheceriam seus direitos e poderiam exigir serviço de qualidade. Temos que preparar a sociedade para usar os espaços de participação, como o Conselho Municipal de Saúde. Geralmente estes lugares não representam os interesses da comunidade. A população em geral desconhece que pode participar da Conferência Municipal da Saúde, além da elaboração do Plano de Saúde da sua cidade. As ONGs não substituem o Estado, mas podem trabalhar em parceria”, enfatiza Margarita Diaz.

Serviço:

REPROLATINA – Soluções Inovadoras em Saúde Sexual e Reprodutiva

Caixa Postal 6019
CEP 13084-971
Campinas – SP
Tel. (19) 3289-1735
www.reprolatina.org.br
www.adolescencia.org.br