ODS são temas de painel no Sustentável 2015

ODS são temas de painel no Sustentável 2015

ODS são temas de painel no Sustentável 2015

“Esse é um recado que a Organização das Nações Unidas dá: é possível o diálogo nesse momento complicado em que os interesses individuais estão aflorados. É possível de alguma forma chegar a um conteúdo que não é o melhor, mas vai sendo aprimorado”. A fala é de Thereza Lobo, diretora do movimento Rio Como Vamos, durante o congresso 7º Congresso Internacional Sustentável 2015: O Futuro é Agora, conhecido como Sustentável 2015, organizado pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), em 8 de outubro. Em papel de mediadora, ela esteve no painel Objetivos do Desenvolvimento Sustentável – A nova agenda começa agora.

Um dos convidados presentes no palco era José Eli da Veiga, professor do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE/USP). Segundo ele, o processo coletivo de definição dos ODS foi importante por conciliar – na medida do possível – interesses dos 193 membros da Assembleia Geral da ONU, dada a diversidade que os caracteriza. “Chegar em acordo sobre um parágrafo já é um milagre, mas a agenda 2030 que acabou de ser aprovada tem quase 50 páginas”, disse. Além disso, ressaltou que nunca houve processo similar com tamanha participação e influência da população, empresas e ONGs como dessa vez.

“Temos uma sociedade civil muito mais informada e conectada, que se movimenta, nitidamente. Ao mesmo tempo vem o grande desafio: uma situação na qual o Estado brasileiro se encontra em um momento de interrogação”, provocou Thereza, referindo-se às instabilidades econômicas e políticas pelas quais o país passa atualmente. Para ela, essas fragmentações e oscilações são responsáveis por gerar nas pessoas o sentimento “de que nós precisamos agir”, uma vez que não é possível confiar completamente nas instâncias superiores.

No entanto, o debate pontuou quais são os atores que deverão colocar as novas medidas em prática e o governo não foi excluído. Outro dos convidados era o coordenador-geral de desenvolvimento sustentável do Ministério das Relações Exteriores, Marcelo Martinez. Ele reconhece a importância da cobrança da sociedade civil. “Quando a presidenta faz uma declaração diante dos outros países, ela é nossa procuradora. Todos nós assinamos esse documento em nome do Brasil”, diz. Segundo ele, a negociação dos indicadores de progresso da agenda deve ser fechada somente em março do ano que vem e o acompanhamento vai ocorrer nos níveis global, regional e nacional.

Principais desafios

Martinez afirma que a nível global será preciso garantir um real engajamento de cada entidade que irá se envolver com o tema, porque agora “todos querem sair na foto”. Já, do ponto de vista regional, ele considera um ambiente político mais pacífico e fácil de ser articulado, e do nacional, um dos maiores empecilhos são as informações estatísticas insuficientes: “é impossível avaliar uma política pública e seus resultados se você não tem os dados para mensurar o progresso de cada país em cada área”.

De acordo com ele, há lacunas de informações que nem se imagina que existam: “o objetivo que se dedica à biodiversidade marinha talvez seja um dos mais difíceis, inclusive para criar uma base de referência para poder avaliar ações futuras. A questão dos dados também envolve sua desagregação por gênero, região geográfica, populações vulneráveis, pessoas com deficiência quilombolas. “É muito difícil conseguir essa separação para avaliar como as políticas públicas afetam determinados grupos e uma das metas dessa agenda é não deixar ninguém para trás.

Além disso, será preciso garantir capilaridade dos ODS, para que Estados e municípios também se envolvam. Segundo Martinez, “por mais que haja um discurso global, a ação tem que ser local”. Ele acrescenta que medir as metas também pode ser trabalhoso, uma vez que elas são multidimensionais, isto é, incluem três ou quatro aspectos que precisam ser considerados. Uma vez tendo 169 metas, seriam necessários muito mais do que essa quantidade de indicadores. O professor José Eli da Veiga discordou do coordenador neste ponto. “Eu tenho uma visão diferente disso, porque li o documento diversas vezes e só 40 delas estão formuladas com características de meta. Meta significa que precisa haver uma data e alguma coisa que seja monitorável por meio de um indicador”.

Na avaliação de Veiga, o maior desafio que há pela frente é o educacional, pois até 2030 todos os alunos precisam ter conhecimentos e habilidades necessárias para promover o desenvolvimento sustentável. Ele cita seu espanto com que o tema tem sido tratado atualmente falando sobre a Base Nacional Comum Curricular (BNC), lançada em setembro deste ano pelo Ministério da Cultura (MEC). “Há 10 anos isso estava sendo discutido e debatido. Para minha surpresa, a expressão ‘desenvolvimento sustentável’ praticamente não surge nas 300 páginas desse documento”, diz, lembrando em seguida que é possível mudar isso por meio de sugestões e contribuições que podem ser realizadas até 15 de dezembro no site oficial do projeto.

Outra questão que vai demandar esforço, segundo Martinez, será a comunicação dos ODS: “Muitos países queriam menos objetivos, porque estavam mais preocupados com a comunicabilidade da agenda do que com conteúdo dela em si”. Entretanto, reunir os interesses de tantas nações e atores sociais foi de tamanha complexidade que não valeria a pena reabrir o documento para tentar modificá-lo, pois entrar fazer com que todos concordassem demandaria grande gasto de energia e poderia não chegar a lugar algum. “Foi um acordo possível e rico que não pode sofrer por conta da forma. Toda a sociedade pode se engajar nessa comunicação”.

O papel do setor privado

“O primeiro passo é entender os ODS, saber do que se tratam e se comprometer com a ação”, disse Ana Carolina Avzaradel Szklo, gerente de projetos e conteúdo do CEBDS, também presente no painel. Ela explicou como as empresas precisam agir para incorporar de fato os objetivos e contribuir para mudanças positivas no cenário atual. “Também é necessário olhar para sua cadeia de valor e ver quais deles são mais importantes. Depois, estabelecer metas que estejam alinhadas com seus negócios”, diz. Por fim, ela afirma que parcerias são fundamentais para integrar e implementar as metas, sempre lembrando de elaborar relatórios e medir e divulgar resultados. “Eu acho que sim o futuro começa agora e as empresas têm contribuição importante para dar”.

Para exemplificar a fala de Ana Carolina, outra convidada foi Claudia Lorenzo, vice-presidente de relações corporativas da Coca-Cola Brasil. Ela compartilhou algumas boas práticas e justificou a importância desse engajamento: “O primeiro grande motivo é porque a gente se importa. Empresas são feitas por pessoas como eu, como vocês, que fazem parte dessa casa, desse mundo”. Para ela, o setor privado que só pensava em lucro não existe mais.

“Em segundo lugar, a gente tem uma responsabilidade em cada coisa que fazemos. No caso da Coca-cola, estamos presentes em 209 países. No Brasil, estamos em todos os estados, em todos os pontos de venda”, diz. Na visão da corporação, toda essa presença exige uma atenção que vai além da bebida e engloba a importância de entregar um valor maior do que o próprio produto. “O terceiro bom motivo é que temos aprendido que criar novos negócios sustentáveis é cada vez mais possível, bom para a sociedade, viável e dá lucro”.

As maneiras para tornar isso realidade ainda estão sendo testadas por diversas empresas e, nesse processo, surgem novos aprendizados. Um dos mais importantes para Claudia foi a necessidade de colaborar com outras instituições, e não simplesmente cada uma adotar uma ação diferente. Ela exemplificou contando sobre um projeto na Amazônia no qual trabalhava paralelamente com outras entidades lá presentes até o momento em que decidiram unir forças com a Natura, com a comunidade, o governo e outros atores. A partir desse momento, foi definido que o personagem principal seria a população e que as empresas envolvidas ajudariam de acordo com as necessidades que os líderes comunitários definiam. “Tenho muito orgulho dessa experiência. Ela fala da necessidade do não-protagonismo”, diz Claudia, completando que ser parte da solução é prioridade em relação a ser reconhecido por agir.

A vice-presidente acredita que cada vez mais se caminha para esse novo modelo de pensamento. Ana Carolina afirma: “Embora os ODS sejam mais voltados para os governos, acho que eles apontam sim um caminho e indicam quais são as responsabilidades e os papeis de outros atores, incluindo o setor privado. As empresas já fazem sua parte e querem fazer ainda mais”.


Texto: Natália Freitas
Data original de publicação: 20/10/2015