Ocupar territórios é tema de encontro no Senac São Miguel Paulista

Urbanista, educadores e representantes de coletivos falaram da importância da visão de território na gestão de projetos sociais na última quarta-feira (07/11).

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Evento abordará visões de especialistas e ativistas de coletivos sobre ocupação do espaço público. (crédito da imagem: divulgação)

O direito de ocupar a cidade e entender o território como espaço de construção a todos. Esse foi um dos temas centrais no encontro Gestão de Projetos Sociais no Território ontem à tarde no Senac São Miguel Paulista na zona leste de São Paulo. A ideia foi conversar sobre o tema Violência, Resistência e Direitos à Cidade – escutando vozes e práticas da periferia.

O encontro foi organizado em duas partes. No primeiro, abordou o direito à cidade em suas diferentes manifestações e contradições, buscando refletir sobre a ocupação dos espaços como forma de resistência à violência. No segundo momento, os convidados compartilham iniciativas que emergem nos territórios e criam espaços de mobilização e participação nas periferias, articulando de forma criativa a vida que ocupa a cidade. Pedro Pontual, psicólogo, doutor em Educação e consultor nas áreas de educação popular, participação social, e gestão de projetos sociais, foi mediador dos painéis e contribuiu com o resumo de cada apresentação dos palestrantes.

Roberto Galassi, responsável pela coordenação dos cursos de pós-graduação da área de desenvolvimento social do Senac São Paulo e mediador da conversa, contextualizou o histórico da Pós-Graduação de Gestão de Projetos Sociais criado em 2004 no Senac Penha, que contribuía para reflexões e sistematizações da área no final da década de 1990 com o Fórum Permanente do Terceiro Setor. O nome do curso de pós-graduação recebe o nome de gestão de projetos sociais em 2010 – gestão e perspectiva na intencionalidade de contribuir na qualidade dos projetos sociais. No ano passado, houve a necessidade aos profissionais da área do curso em enfocar a gestão dos projetos sociais no território.

A primeira mesa focou no tema Repensando o Direito à Cidade com Kazuo Nakano, arquiteto e urbanista e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O integrante do Instituto Pólis comentou sobre sua trajetória em movimentos de ocupação das cidades e ressaltou a importância da trajetória de luta pela reforma urbana de atores sociais, pesquisadores da área de arquitetura e urbanismo, sociólogos, gestores públicos, parlamentares que se pautaram pelo direito à cidade. “Essas pessoas atuaram na perspectiva da realidade de cidades brasileiras, estruturalmente injustas e predatórias do ponto de vista ambiental”, analisou esse movimento nos últimos 30 anos.

Atualmente ele observa que é momento de repensar essa agenda que orientou na busca por cidades melhores, mais justas e mais democráticas: cidades onde as pessoas possam realizar suas capacidades humanas. “Essas cidades ainda estão para serem produzidas, porque hoje estão cheias de problemas. Essa luta é válida e contínua, já que os problemas dificultam o dia a dia das pessoas”, reforçou a necessidade de repensar esses locais.

Para contribuir nessa reflexão, o professor compartilhou o pensamento do francês Henri Lefbvre – Direito à Cidade: “O Direito à Cidade não pode ser concebido como um simples direito de visita ou de retorno às cidades tradicionais. Só pode ser formulado como um direito à vida urbana, transformada, renovada. Pouco importa que o tecido urbano encerre em si o campo e aquilo que sobrevive da vida camponesa conquanto que o urbano, lugar de encontro, prioridade do valor do uso, inscrição, do espaço de um tempo promovido a posição de supremo bem entre os bens, encontre sua base morfológica, sua realização prático-sensível”. Ele explicou que aqui a ideia de cidade como mediação entre ordem próxima e ordem distante. A cidade possui lugares e vida própria, oferece planos de vidas imediatas do cotidiano de relações interpessoais. “A cidade é constituída de relações interpessoais microcotidianas e práticas, pensamentos e afetos no dia a dia entre as pessoas em diferentes microlugares que constituem as pessoas de se encontrarem e se desencontrarem”. Ao mesmo tempo, o arquiteto também falou da ordem distante que afeta e influencia essa ordem distante e macro de relações de produções. São processos políticos culturais macros que impactam essa ordem imediata. “Nós como parte da sociedade sofremos esse impacto, esse capitalismo financeirizado, a cultura globalizada, o consumo intenso, os fluxos de informações nas cidades para o bem e para o mal. As nossas vidas não são determinadas não só o que acontece perto da gente, mas ainda por questões ambientais e políticas”.

Seguindo essa linha de pensamento, o professor Kazuo ainda disse que o espaço urbano se tornou lastro de uma grande mercadoria de um grande mecanismo de extração de lucros. Consequentemente, a terra urbana e moradia também ficaram como investimentos financeiros. Esse impacto sobre as terras urbanas é determinado por centros de decisões em grupos financeiros de outros países. “A gente não sabe quem é esse poder. Hoje essa ideia da cidade nos coloca um desafio quando vamos discutir o direito à cidade num contexto que aqueles que bloqueiam, dificultam e inviabilizam o direito à moradia não estão aqui, mas em outro continente”, alertou ao público.

Ele explicou que hoje vive-se num contexto de urbanização mercantilizada com predomínio de moradia individualizada, baseado na tensão entre valor de uso e de troca. “A gente quer satisfazer nossas necessidades para viver e conviver com as pessoas. Quando esse lugar é capturado por processos de valores de mercado, esse predomínio e valor de troca acabam muitas vezes destruindo o valor de uso”, enfatizou e exemplificou falando do caso quando um lugar passa por processo de valorização de investidores e eles assediam os moradores para venderem seus imóveis e consequentemente aumentam os preços de imóveis e alugueis daquela região. E, consequentemente, os moradores daquele bairro vão para outros mais distantes, aonde não tem comércio, nem escolas, sem creches e não é tão boa a região assim. “As pessoas mais atingidas são as mais vulneráveis. As periferias da cidade estão passando por isso com aumento dos aluguéis, por isso, está ocorrendo a periferização das periferias, exemplos: Itapevi, Ferraz de Vasconcelos e outros bairros.

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Auditório do Senac São Miguel Paulista estava lotado de estudantes, profissionais da área e pesquisadores (crédito da imagem: comunicação Senac São Paulo)

Nakano ainda refletiu sobre o direito à cidade como forma superior dos direitos: direito à liberdade, à individualização na socialização, ao habitat e ao habitar, o direito à obra (a atividade participante) e o direito à apropriação (bem distinto do direto à propriedade). Ele disse que o direito a obra quer dizer que o cidadão tem direito de participar da produção do espaço: “A cidade como produto que produz mercadorias nas localizações urbanas e como a obra é resultado da criação humana e da transformação da obra”. Também ressaltou o debate das práticas e dos movimentos feministas, LGBT, coletivos de cultura, tudo isso contribui com o direito de afirmar uma singularidade no meio de uma pluralidade social e politizar essas ações, esses modos de vida.

O professor de arquitetura e urbanismo ainda falou sobre estudos urbanos da década de 1970 até os dias de hoje sobre periferia na ocupação de espaços públicos. “A periferia sempre foi vista como moradia de lugar e precariedade por falta de infraestrutura. O tempo passou e as pessoas mudaram seus modos de vida e organização. Hoje para, abordar esse assunto nesses bairros, é outra chave, porque não é só carência, mas produção de saberes e experiências. Há uma sistematização de epistemologia periférica, uma produção desses saberes e vivências dos territórios da periferia e de sua atuação política, seja por práticas culturais, livros, graffitis, danças, músicas”.

Emanuel da Silva Reis, mais conhecido como Manulo, e Robson Bó falaram sobre a trajetória do Coletivo Arte e Cultura na Kebrada. A dupla por meio de fotos e vídeos mostraram a produção de um festival que costuma ocorrer na Rua Jacarandá Rosa em São Miguel Paulista. “Começamos nessa região, porque estava bem degradada e a comunidade fez a denúncia de brinquedos quebrados em uma praça, a Prefeitura na época tirou todos da rua. A ideia do encontro foi justamente levar brinquedos para a criançada do bairro e fazer ações de graffiti. Depois em 2013 ganhamos o edital VAI e conseguimos com a verba revitalizar muros e comprar material para fazer mais atividades com uma estrutura maior e até oferecer oficinas. Mas iniciamos sem dinheiro mesmo”, se recordam.

Manulo comentou dos coletivos culturais da região que se uniram ao evento para diversificar mais as atividades em São Miguel. Atualmente participam pessoas de outros países da América Latina e do Norte. “Viver de arte e cultura é resistir. Nós não temos salários. Muitas vezes não temos dinheiro para fazer as coisas. Mas se chamamos os parceiros, um dá força ao outro”, disse. E ele ainda opinou: “A arte é perigoso, porque você pode pintar o que quiser. Estão falando mal de professores, de denunciá-los. Eu acho que essa parte de cultura, a arte por exemplo, deve ter perigo ao entrar na cabeça de crianças. Precisamos ter mais rodas de conversa e debates sobre isso. A rua não é minha nem sua, é nossa”. O grafiteiro finalizou com o vídeo: https://goo.gl/V1CZ18

A segunda parte do encontro focou na apresentação do trabalho do Portal Setor3, veículo do Senac São Paulo voltado a ações do terceiro setor e sustentabilidade; do Coletivo Dolores Boca Aberta, que desenvolve atividades socioculturais na zona leste de São Paulo e Roger Itokazu, psicólogo especialista em Saúde Pública e mestre em Psicologia Social, para falar de seu trabalho de pesquisa com o Coletivo Dolores.

O psicólogo apontou os principais dados do relatório da Oxfam sobre desigualdades sociais intitulado A Desigualdade que nos Une, publicado no Setor3: http://setor3.com.br/relatorio-traca-as-desigualdades-no-brasil/. Um dos principais dados desse estudo é que: os seis maiores bilionários do país possuem riqueza da metade mais pobre da população. Roger ainda explicou sua dissertação de mestrado no curso de Psicologia da PUC-SP com o título: Arte da Periferia, Território e transformação social: Análise Psicossocial dos Afetos no Teatro Mutirão, do Coletivo Dolores Boca Aberta Mecatrônica de Artes. Comentou sobre a importância dos afetos nos dias de hoje e como eles mobilizam nossas ações. “Quais são os afetos que estamos tendo agora?” perguntou o professor aos participantes para refletirem suas ações na cidade.