Observatório Primeira Infância

Especialistas lançam plataforma com 130 indicadores sobre a situação de crianças de zero a seis anos de idade nos 96 distritos de São Paulo.

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Observatório da Primeira Infância
Psicóloga explica a importância de viver bem na primeira infância. (Crédito da imagem: Susana Sarmiento)

“Quando pensamos numa sociedade, num futuro, podemos nos inspirar nas 20 milhões de crianças de zero a seis anos de idade que vivem no Brasil. Ter essa quantidade de crianças em nosso país é uma riqueza muito grande e devemos cuidar de forma segura”, afirmou Jorge Abrahão, diretor da Rede Nossa São Paulo, na manhã dessa terça-feira (05/12) no evento de lançamento do Observatório e Mapa da Desigualdade da Primeira Infância, no teatro do Sesc 24 de Maio, no centro de São Paulo.

Para contextualizar a importância da primeira infância, Silvia Gomara Daffre, psicóloga e atuante no segmento de terceiro setor, ressaltou que o adulto é fundamental para o desenvolvimento do bebê, que é ainda totalmente dependente. “Temos certeza que avançamos os direitos a serem garantidos esses objetivos”, afirmou a integrante do grupo de trabalho crianças e adolescentes. Ela ainda lembrou que apenas na cidade de São Paulo são 1 milhão de crianças entre zero e seis anos idade, sendo 650 mil, ou seja, 10% com até cinco anos estão em situação de vulnerabilidade social.

A psicóloga ainda explicou que os primeiros 1000 dias de vida ocorrem quase mil sinapses, que contribui para todo o desenvolvimento cognitivo e psicológico. “A relação afetiva nesse momento é fundamental para a construção de identidade e da autoestima. Alguns estudos já indicam que investir no desenvolvimento da primeira infância reduz custos no combate de desigualdade social”.

Ela comentou ainda que a plataforma pretende contribuir para defender direitos básicos e priorizar a primeira infância, alertando para a parte em que crianças retratará sua visão dos pontos que precisam ser melhorados. Aproveitou sua apresentação para convidar o público ao lançamento do diagnóstico A criança no centro: um retrato das infâncias na cidade de SP, pela Visão Mundial, no bairro da Luz, no centro de São Paulo.

Fernanda Rezende Vidigal, coordenadora de programas da Bernard Van Lee Foundation, contou primeiro a trajetória dos idealizadores da organização em que atua e explicou que o foco dos projetos é atender demandas da primeira infância. Mostrou por imagens que a arquitetura cerebral é moldada pelas experiências nessa fase da vida, em que refletirá na saúde, capacidade cognitiva, memória e desenvolvimento mental, entre outras habilidades. Para isso, comparou o cérebro de uma criança em situação de vulnerabilidade com outra normal.

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Fernanda apresenta que investir na primeira infância contribui no combate à desigualdade. (Crédito da imagem: Susana Sarmiento)

A organização investe há 50 anos nesse segmento em duas estratégias principais: ParentsPlus, em que combina a formação de pais e mães no desenvolvimento da primeira infância com serviços que atendem às necessidades básicas das famílias; e Urban95, focando no desenvolvimento da primeira infância no planejamento e gestão nas cidades. No Brasil, a organização investe nas cidades de Recife, Boa Vista e São Paulo. “O primeiro passo é o município identificar os desafios e os problemas. O Observatório pretende contribuir com o próprio cidadão para monitorar esses dados e até tem guia para os outros municípios interessados em desenvolver em seus locais”, refletiu Fernanda.

Irene Quintáns, arquiteta e fundadora da Red OCARA e especialista e, estudos territoriais, políticas sociais, mobilidade, e gestão urbanística, comentou que 25% das mães ficam com depressão pós-parto e o ambiente de grandes cidades ainda é hostil, porque não apresentam tanta estrutura de mobilidade, ausência de espaços para brincar e doenças e aspectos que contribuem para a mortalidade. “A criança precisa criar momentos de beleza e ter experiências táteis”, afirmou. A partir daí, explicou o projeto Cidade que cuida, que é a capacidade para gerar condições saudáveis (estrutura física), segura (interativa) e interessante (encontro e participação).

Essa iniciativa ocorre em Bogotá desde final do ano passado. A arquiteta compartilhou um mapa de oportunidades com piores locais e os gestores decidem aonde vão investir e cruzam os dados com a cartografia. “Temos falhas no desenho urbano e surgem novas oportunidades com os levantamentos. Juntos podemos ver de outro jeito o território”, afirmou a espanhola, que ressaltou que o diagnóstico nessa ação sempre é feito em conjunto com a comunidade. Em São Paulo, ela ocorre no bairro do Campo Limpo há dois meses e estão estruturando ações para contribuir com a mobilidade para a população local usufruir mais a praça de Campo Limpo. “Tivemos oficinas de slings para as mães que precisam andar em geral de transporte público e ficam com as mãos livres e ajuda no contato das mães com seus bebês”.

Vera Lion, diretora do Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário (Ibeac), apresentou o projeto Centro de Excelência em Primeira Infância, que ocorre na região de Parelheiros, extrema zona sul de São Paulo, em parceria com o Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento, de Minas Gerais. Ela explicou a formação das pessoas para trabalharem nos projetos, apresentando o ‘time’ de mães mobilizadores da região. Para isso, contou com uma articulação de parcerias locais, como Unidade Básica de Saúde por meio da Associação Saúde da Família, Hospital e Maternidade Interlagos, Centro de Educação Infantil (CEI), escolas municipais e estaduais e organizações sociais locais.

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Vera Lion explica a mandala resumindo todos conceitos, ações e programas envolvidos para a infância e a mãe. (Crédito da imagem: Susana Sarmiento)

Esse tipo de parceria possibilitou rodas de conversas com agendas comunitárias, auxiliares de enfermagem e enfermeiras, coordenadores de Centro de Educação Infatil (CEIs) e escolas de redes sociais locais. Essas trocas possibilitaram potencializar novos tipos de aprendizagem, mudanças de olhares, descobertas de oportunidades e mudanças de hábitos.

Por meio de imagens, a pedagoga mostrou como conseguiram envolver a comunidade, com as seguintes ações: mobilização e parceria (rodas de conversa, clube de trocas e bandeirolas nas casas), acolhimento (visitas a gestantes e bebês, massagem, relaxamento, cozinha e alimentação saudável e carona solidária), repertórios (plano de parto, slings, conhecendo o corpo da gestante, aleitamento materno exclusivo e fases do desenvolvimento infantil), intervenções culturais (mediação de leitura, saraus, cinemas, acesso a livros, músicas, histórias e memórias) e espaços comunitários (adotar a rua, para a rua adotar as crianças; cuidar das casas e de espaços para brincar, planar, pintar com tinta de terra).

Vera esclareceu que são 340 gestantes, 3400 crianças de zero a seis anos de idade e 47% dos domicílios são chefiados por mulheres. A pedagoga ainda disse que está prevista uma pesquisa para acompanhar a vida da gestante pela PUC- RS. “As crianças dessas mães gestantes adolescentes são as principais vítimas”, atentou e disse que o estudo irá avaliar a partir do cabelo da nunca da mulher o nível de estresse e a taxa hormonal para mostrar como isso impacto na gestante e no bebê.

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Por georeferência, a pedagoga mostrou as melhorias nos bairros do extremo zona sul da cidade de SP. (Crédito da imagem: Susana Sarmiento)

Observar para cuidar

São 130 indicadores para avaliarem diversos cenários relacionados a esse público nos 96 distritos da cidade de São Paulo. Os dados estão apresentados seguindo eixos dos programas Urban95 e Cidades Sustentáveis e o internauta também pode adicionar referências. A plataforma oferece série histórica, depende da divulgação de dados pelo tema. Também pode ser baixado em quatro tipos diferentes de arquivos. A pessoa pode pesquisar por região e ir direto para o tema que tem interesse, ou pela página da Prefeitura Regional.

Na segunda seção da plataforma, há uma parte chamada crianças invisíveis para mostrar a realidade de crianças filhas de imigrantes ilegais, refugiados e outras situações. “A nossa ideia é dar importância de divulgar para ter números de quantas crianças estão nessa situação”, afirmou integrante do GT Criança e Adolescente. Ela ainda chamou atenção para uma seção destinada a boas práticas com políticas públicas inspiradoras.

A plataforma também disponibiliza guias de multiplicação da metodologia para replicar em outras cidades e como configurar indicadores e instalação do software. O site da plataforma é http://www.observaprimeirainfancia.org.br/

Marisa Villi, diretora da Rede de Conhecimento Social, mostrou a parte da plataforma com participação das crianças. Explicou que houve uma mobilização nas redes sociais para os pais estimularem seus filhos a registrarem por meio de fotos o que elas querem que melhore, a segunda etapa foi em junho deste ano com uma oficina na Vila Itororó algumas famílias foram convidadas para registrar o que eles têm observado. As imagens se tornaram postais distribuídos no evento. “Elas identificaram detalhes, plantas que nem reparamos no dia a dia, cores da cidade, os grafites e outras coisas. Ajuda a humanizar os dados”.

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Plataforma traz dados dos 96 distritos. (Crédito da imagem: Susana Samriento)

Números desanimadores

14,3 a cada 1000 nascidos vivos morrem antes de completar os 5 anos, quase 150 mil crianças entre zero a cinco anos estão desnutridas e 254.765 na mesma faixa etária estão com peso elevado para sua idade. Estes foram dados apresentados por Américo sobre o diagnóstico Mapa da Desigualdade Primeira Infância.

No mapa em que mostra crianças de zero a cinco anos residentes em áreas de vulnerabilidade social, as regiões mais escuras são aquelas com mais quantidade e estão mais nos bairros periféricos. Essa taxa aumenta quando é cobertura de rede de esgotos. Os bairros da extrema zona sul são os mais deficientes e concentram mais crianças com taxas que giram em torno de 36,75% e Marsilac fica em 0,81%. O bairro da República tem cobertura de 99,87%.

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Américo apresenta dados do Mapa da Desigualdade na Infância. (Crédito da imagem: Susana Sarmiento)

O tempo de atendimento para a vaga em creche possui taxa de desigualtômetro de 17,28, sendo que pior bairro é Vila Andrade com 441,52 dias, enquanto Guaianases com 25,55. Já em acidentes de trânsito envolvendo crianças, a taxa de desigualtômetro é de 34,13, com São Miguel em pior no ranking com 1,27 e Capão Redondo como melhor bairro com 0,037.
A gravidez na adolescência foi calculada com taxa de desigualtômetro em 25,79, o pior bairro foi Marsilac com 22,88 e o melhor Moema com 0,887. As horas de atendimento de pediatras tiveram taxa de desigualtômetro de 707,59, com República pelo pior bairro com 0,83 e Jaçanã com 587, 33.

Cada um desses dados é apresentado com explicações sobre o indicador, ano avaliado, eixos, como é feito o cálculo, fontes e observações gerais. O último slide foi um mapa para mostrar número de vezes que o distrito aparece entre os 30 piores nos 28 indicadores avaliados. São 26 distritos entre os piores indicadores: Grajaú, Cachoerinha, Jardim Ângela, Brasilândia, Cidade Ademar, Guaianases, Parelheiros, Parque do Carmo e outros bairros localizados nos fundos da zona leste, norte e sul.

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Grajaú lidera ranking de bairros com piores indicadores avaliados. (Crédito da imagem: Susana Sarmiento