O trabalhador social no contexto de pandemia

O ano de 2020 ficará marcado na história como o ano em que a humanidade viveu os efeitos nefastos de uma pandemia.

Foto de grupo de pessoas sentados em uma mesa redonda e cada um está com uma blusa de cor diferente. Eles estão conversando e anotando pontuações da reunião.
Coordenadora de desenvolvimento social do Senac São Paulo reflete papel essencial do trabalhador social no atual contexto. (crédito da imagem: AdobeStock)

Algumas pessoas falam que o Coronavírus, causador da Covid-19, atua como um vírus democrático, que atinge ricos e pobres da mesma maneira. Sabe-se que não é bem assim. Uma parte da população consegue refletir sobre o “lado positivo da pandemia”, por outro lado uma parcela significativa da população vive em situação de vulnerabilidade social.

A pandemia escancarou a profunda desigualdade social da sociedade brasileira. As condições em territórios de situação de vulnerabilidade não permitem que se implementem as recomendações de higiene básica, distanciamento social e de permanência em casa.

Em algumas comunidades coube à própria população a mobilização e articulação dos moradores para enfrentamento da crise e o fizeram com prontidão e responsabilidade. Em uma live, a líder comunitária de Heliópolis, Cleide Alves, compartilhou as experiências desse período, quando criaram um sistema de som em um carro que circulou pelas ruas da comunidade falando sobre os modos de prevenção da doença. Também colocaram faixas e cartazes e acionaram a rede de parcerias com organizações da sociedade civil (OSCs), trabalhadores da saúde e da assistência social assim como apoio da sociedade em geral e puderam distribuir alimentos e máscaras. Ela ressaltou também que aumentou muito nesse período os casos de violência contra as crianças e adolescentes.

Esse cenário é o que se apresenta para o trabalhador social no contexto atual e no contexto de pós pandemia também, se é que podemos classificar dessa forma.

O estudo Impacto da Covid-19 nas OSCs brasileiras: da resposta imediata à resiliência, realizado pelas consultorias Mobiliza e Reos Partners, buscou responder como o terceiro setor deveria atuar no momento e como se preparar para o pós-crise. Com 1.760 respostas, a pesquisa revelou que 73% das OSCs relataram terem sido impactadas e 87% tiveram parte ou todas as atividades interrompidas ou suspensas.

Os principais impactos negativos foram a diminuição da captação de recursos (73%), o distanciamento e dificuldade de comunicação com os públicos atendidos (55%), a diminuição de trabalhadores voluntários (44%) e o estresse e sobrecarga das equipes (40%).

Como impactos positivos ressaltam a aceleração do uso de ferramentas digitais para o trabalho (53%) e mais engajamento e envolvimento da equipe (40%).

Há uma significativa incerteza em relação ao cenário de recursos e quanto ao futuro, quase 60% das OSCs preveem aumento significativo (38%) ou relativo (20%) da demanda por seus serviços após a pandemia e ainda 69% indicam necessidade de captar recursos para manter seus custos operacionais e 46% clamam por maior engajamento da sociedade civil (indivíduos) para apoiar suas ações.

Nesse sentido, se pode concluir que o cenário de pós pandemia exigirá dos trabalhadores sociais uma atuação ainda mais intensa do que já ocorria no dia a dia.

O cenário de pós pandemia: muito trabalho social pela frente

Foto de uma panorâmica de uma favela no Rio de Janeiro.
Durante a pandemia, foram inúmeras campanhas de doações de alimentos e itens de higiene para periferias de grandes cidades. (crédito da imagem: Elena Odareeva/ADobeStock)

Podemos observar que, neste período da pandemia, apareceram ações de solidariedade que mereceriam destaque. Por sinal, em todo o mundo, esses atos têm feito a grande diferença. Curioso é que o momento histórico em que vivemos leva na direção oposta: o neoliberalismo presente em boa parte das sociedades mundiais assenta suas bases sobre o individualismo e a concorrência, buscando acumulação e concentração de capital e deixando pouco espaço, nesse modo de vida, para o compartilhamento e para o coletivo.

Na periferia das cidades brasileiras, a solidariedade para o enfrentamento das dificuldades não é novidade. Nesses territórios, são bem conhecidos os encontros para realização de mutirões. Antonio Candido, na obra Os parceiros do Rio Bonito, fez uma análise sobre o modo de vida do caipira paulista e apresentou uma realidade em que as pessoas viviam em bairros rurais, onde a base das interações era de ajuda mútua e não tinham o objetivo de acumulação do capital, permitindo que se intercalassem o trabalho com os festejos de cunho lúdico-religiosos. A solidariedade e a cooperação entre vizinhos era o que permitia juntar a força de trabalho necessária para as épocas de colheita ou de plantio.

Dizer que a periferia é local de solidariedade é incompleto e impreciso. Não que não seja também lugar de solidariedade, mas não é só, e é importante evidenciar isso para não se criar a armadilha do lugar idílico, onde todas as pessoas se ajudam, tal como é com a palavra “comunidade”. Esse esforço vale também para se evitar o outro polo desse estereótipo, o da periferia violenta.

Antes de haver toda essa necessidade de afastamento das ruas e dos vizinhos em razão da pandemia, já se observava esse fenômeno presente não só nos condomínios de classe média, mas também nas periferias. No livro 40 ideias de periferia, o autor Tiaraju Pablo D´Andrea faz uma análise do processo histórico vivido nesses territórios nos últimos anos e aponta os efeitos do discurso de segurança, fazendo com que a periferia também aprendesse a trancar o portão, evitar a calçada e falar menos com o vizinho.

Apesar disso, foi o sentimento de solidariedade que fez a diferença, mas é preciso avançar. Porque a solidariedade muitas vezes é praticada em momentos de necessidade, de falta, mas precisamos avançar para um patamar em ações mais organizadas em forma de cooperação e de interdependência.

Dessa forma, ampliamos o significado dando um tom político a ele. Existe um conceito que eu gosto muito que é o: comum. No Brasil ainda não se produziu muito material sobre esse tema e encontramos algumas barreiras pelo significado que pode ser dado a essa palavra, frequentemente associada ao que simples, ordinário, banal.

Existem dois autores: Dardot e Laval (2017, p. 54-55), que se referem ao comum como atividade humana que é planejada e realizada em processo de coatividade e coobrigação, de cooperação e reciprocidade.

E é esse o trabalho social que identifico como necessário no contexto de pós pandemia, um trabalho que construa o comum nos territórios, não só por que ele está em situação de vulnerabilidade, mas por ter a potência de se organizar a agir coletivamente. Nós precisamos modificar as ações que geraram o cenário que estamos vivendo hoje. Não podemos repetir os mesmos atos e esperar um resultado diferente.

Nesse contexto, o trabalhador social, a meu ver, precisará realizar um trabalho que lembra um pouco aquela história do Eduardo Galeano, em que o pai levou o filho para ver o mar pela primeira vez e diante de tanta de beleza e imensidão o menino diz: pai, me ajuda a olhar.

*Artigo escrito por Regina Paulinelli, psicóloga, especialista em Psicopedagogia e mestre em Psicologia Social (PUC-SP). Coautora dos livros: Afeto & Comum: reflexões sobre a práxis psicossocial (e-book) e Gestão do conhecimento: a mudança de paradigmas empresariais no século XXI. Coordenadora dos cursos de desenvolvimento social do Senac São Paulo.

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