O que os moradores da comunidade da Maré pensam sobre intervenção militar?

Pesquisa mostra o que as comunidades das 16 favelas da Maré, no Rio de Janeiro, opinaram sobre a intervenção militar.

Estudo traz o que comunidades da Maré pensam da intervenção militar
Crédito da imagem: divulgação

Nos últimos dias os noticiários mostram cenas e debates sobre segurança pública no Rio de Janeiro, com a decisão do governo federal de autorizar a intervenção militar nesse Estado. A publicação A Ocupação da Maré pelo Exército Brasileiro – Percepção de Moradores sobre a Ocupação das Forças Armadas na Maré, realizada pela Redes da Maré, uma instituição da sociedade civil que desenvolve vários projetos em cinco eixos: desenvolvimento territorial, educação, arte e cultura, direito à segurança pública, acesso à justiça, identidades, memória e comunicação.

A pesquisa foi publicada no ano passado e foi iniciada em fevereiro de 2015, logo quando foram criadas as UPPS nas comunidades. “Nós queríamos e precisávamos registrar de alguma maneira aquele momento, como iria afetar a vida dos moradores. Por isso, queríamos ouví-los, para não ficar só falando do lado das organizações”.

Há 40 anos a organização se formou com um grupo de moradores para explorar e entender melhor os índices de educação e viram que tinham que trabalhar também com segurança pública. “A partir daí veio a ideia de registrar com um trabalho de qualidade de escuta dos moradores. Foi assim a ideia inicial dessa pesquisa. Começamos a entrevistar alguns especialistas da área e optamos em pegar alguns moradores para serem entrevistadores. Eles receberam uma formação sobre dados e estatística”.

Edson ainda ressalta que os moradores ainda sentem muito medo de falar sobre a questão da segurança na Maré. “Sempre desenvolvemos uma relação de confiança com os moradores para que eles pudessem falar de suas histórias”.

Estudo

Em 120 páginas, a publicação possui sete capítulos, incluindo o contexto da Maré, o processo de construção da pesquisa, análise dos dados e considerações finais.

A pesquisa durou de fevereiro até setembro de 2015, consultou 1.000 moradores com idade entre 18 e 69 anos e distribuídos em todas as comunidades da Maré que vivenciaram a ocupação do Exército. O estudo optou por privilegiar o protagonismo do Exército pelo fato desta Força ter representado mais de 80% do efetivo presente e por ter sido esta a representação predominantemente entre os moradores da Maré.

A primeira parte do estudo é mostrar o contexto das favelas da Maré, marcados pela atuação dos grupos criminosos armados e da polícia, antes da chegada das Forças militares. O intuito maior é apresentar as expectativas dos moradores em relação à atuação da Polícia Militar com a possível implantação da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) na Maré – isso não ocorreu. Nos capítulos seguintes, foi mostrado como a pesquisa foi feita, seu percurso metodológico adotado e a análise dos dados coletados nas entrevistas, destacando a percepção dos moradores em relação à ocupação das Forças militares.

É importante contextualizar que a comunidade da Maré é formada por 140 mil pessoas distribuídas por 16 favelas. É conhecido como o mais populoso conjunto de favelas do Rio de Janeiro com mais habitantes que 96% das cidades brasileiras, segundo dados do Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Nessa mesma região convivem os seguintes grupos criminosos armados: Comando Vermelho, Terceiro Comando, Amigos dos Amigos e a Milícia.

Estudo traz o que comunidades da Maré pensam da intervenção militar
Crédito da imagem Bruno Itan

Desde 2013, a comunidade da Maré viveu período de incertezas com movimentações em relação à presença da polícia e dúvidas sobre a presença sobre como as Grupos Criminosos Armados (GCAs) locais iriam lidar com a anunciada chegada da nova estratégia de policiamento, denominada Unidade de Polícia Pacificadora (UPP).

A pesquisa apresenta que um dos impactos foi a migração de muitos integrantes dos grupos criminosos dos locais onde as UPPs se implantavam para outras favelas ocupadas por aliados. Essa chegada como no Complexo do Alemão – em 2010 em Manguinhos, Jacarezinho, Caju e Lins – em 2013 fez com que muitos integrantes das facções presentes nesses locais migrassem para a Maré.

Mais de 80% dos entrevistados conseguiram enfrentar seus medos e desconfianças para abrir sua casa e falar sobre o tema da segurança pública. Tudo isso é consequência da relação que os moradores possuem com os trabalhos desenvolvidos pela instituição na região. Alguns dados dessas pessoas: 51,1% são mulheres e 48,9% são homens. Participaram mais idosos, de 50 a 69 anos, com 23,5% contra 19% – significativamente maior que a proporção observada no universo. Já o grupo numeroso foi de 30 a 49 anos, com o percentual de participação na amostra menor que o do universo: 41,8% contra 47,6%.

Há o Censo Maré 2013, em que traz 36,6% se declararam de cor branca, 52,9% de cor parda e 9,2% de cor preta. No geral, os pardos representam a metade dos entrevistados. A cor branca foi a classificação declarada por 30% e a cor preta por cerca de 20%. Sobre a escolaridade, pouco mais da metade 56,6% frequentaram no máximo até o ensino fundamental com o agravante de 3,5% terem declarado não possuir escolaridade nenhuma. Por outro lado, mais de 40% mostrou que ingressaram no mínimo no ensino médio. 4,5% chegaram ao ensino superior.

Em relação ao trabalho, 32,1% responderam trabalhar por conta própria e 31,4% como empregados. Dos empregados, pouco mais de 2/3 com carteira de trabalho. Os desempregados somaram 13,8% e aposentados ou pensionistas 8,8%. No Centro de Empreendimentos Econômicos da Maré, um dos produtos do Censo Maré, mostrou que nesse território há mais de 3 mil unidades de comércio ou de prestação de serviço, com cerca de 2.500 empreendedores que residem no bairro. Quase 80% dos entrevistados disseram morar há mais de 10 anos contra menos de 2% que chegaram há menos de um ano.

85,3% falaram que gostam de morar na Maré. Nove pessoas de 10 gostam de viver na favela. A área 2 da comunidade, onde ocorreram enfrentamentos entre Terceiro Comando e Amigos dos Amigos pelo controle do território, especialmente na Vila do João e no Conjunto Esperança, 18,3% estão insatisfeitos. Já na área 3, dominado pela milícia, onde não ocorrem os enfrentamentos entre facções ou com a polícia, o percentual de insatisfeitos cai para menos de 6%, ou seja, três vezes menos que na área com mais conflitos.

Outro dado analisado foi a mobilidade física: 66,8% frequentam outras favelas, além da que reside. A maioria dos moradores da Maré, mesmo com a presença de grupos criminosos rivais e dos conflitos eventos com a polícia, costuma circular fora de seu território de moradia. Observaram que os homens com maior escolaridade tendem a circular bem mais que no outro extremo, uma mulher mais velha e com baixa escolaridade.

Somente 6,1% foram pessoalmente para a Delegacia ou algum parente o fez, sendo que 1/3 das pessoas tiveram ou souberam dessa experiência por parte de algum parente num período anterior à ocupação pelo Exército. Isso mostra a desconfiança dos moradores com órgãos policiais. Não são vistos como instituições de defesa de direitos das pessoas, mas como repressores de direitos.

O sentimento e insegurança dentro das favelas é algo bem ambíguo. Fala-se muito que dentro das favelas não ocorrem determinados tipos de crimes, como: assaltos, furto, estupro, entre outros, porque nas regras dos grupos criminosos a proteção dos moradores contra esses delitos cometidos fora da favela. Um dos principais problemas é que esses moradores não têm meios de recorrer ao sistema judiciário para lidarem com seus conflitos.

Edson comenta que um dos seus programas prediletos é sentar num bar da Maré e conversar com amigos de infância na vila aonde cresceu. “A favela tem uma vida pulsante muito interessante e as pessoas circulam. Tem uma coisa de comunidade. Tem os youtubers, jornais comunitários e até autores de livros que vivem lá. Existe mesmo uma vida cultural bem forte que costuma ficar abafada”.

Contradições

Edson observa que nos últimos anos não ocorreram avanços nos dados mesmo após a intervenção. Foram gastos cerca de um milhão e 200 mil reais por dia com a intervenção na Maré num período de 14 meses. “A tensão aumentou, tivemos conflitos entre tropa e a sociedade civil. Virou uma espécie de panela de pressão dentro da Maré, tanto aos militares quanto aos moradores sobre as abordagens e os tiroteios que voltaram a ocorrer”, avalia e ainda alerta que esse recurso poderia ter sido investido em ações sociais, centros culturais, ampliação e melhorias em praças públicas, jardins e centros de convivência.

Como lidar com essa situação? Edson responde que o primeiro passo é reconhecer que a política de segurança pública de hoje não funciona. “Temos que parar de achar natural algumas ações de segurança defendendo o lema vou levar paz por meio da guerra. Um retrocesso! Temos que ter um planejamento e integração, entender o que é a polícia e cuidar dos espaços públicos e das famílias que vivem nessas comunidades. Oferecer outras saídas sem ser o tráfico. As cidades que mais precisavam investiram numa política mais cidadã, cum um projeto de cidade mesmo”, conclui.

Acesse aqui o estudo: http://redesdamare.org.br/wp-content/uploads/2017/05/Livro_Pesquisa_ExercitoMare_Maio2017.pdf