O que considerar na formação de leitores?

Três especialistas compartilham suas visões e experiências para melhorias na prática da leitura, formação do mediador e bibliotecas.

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Especialistas falam de práticas para contribuir na formação de leitores e mediadores nesse processo e até acervos. (Crédito da imagem: Sofia Colucci)

As crianças ajudam a ler e selecionar os bons livros e entender como fazer uma boa leitura das obras, ler e conversar sobre e sentir prazer nessa atividade. Esses foram as principais conclusões da palestra Rompendo Paradigmas e Semeando Futuros Leitores na tarde do segundo dia do Seminário Internacional Arte, Palavra e Leitura na Primeira Infância no auditório do Sesc Pinheiros na zona oeste de São Paulo. É uma iniciativa do Instituto Emilia e da Comunidade Educativa CEDAC, realizada em parceria com o Sesc São Paulo e Fundação Itaú Social, com o apoio do Instituto C&A e da Associação Cultural Espanhola.

O evento começou ontem e vai até hoje no fim da tarde com a proposta central de refletir o lugar da cultura na primeira infância. Para isso, reúne renomados especialistas nacionais e internacionais em um intercâmbio de experiências para formar um panorama teórico e prático contemporâneo. Este projeto visa aprofundar o debate sobre a arte, a palavra e a leitura na vida da criança, considerando as novas descobertas nos campos cognitivo e educacional, e ampliar os subsídios teóricos e práticos em uma área em que a bibliografia em língua portuguesa ainda é escassa e em que a ampliação da reflexão se coloca como uma necessidade fundamental para a formulação de políticas e estratégias para a formação de futuros leitores.

Com o auditório lotado de educadores, mediadores de leitura, professores e pessoas interessadas pela área, o painel contou com as seguintes especialistas: Patrícia Diaz, diretora de desenvolvimento educacional da comunidade educativa CEDAC e pedagoga com mestrado em didática, teorias de ensino e práticas escolares; Lara Meana, livreira especialista em literatura infanto-juvenil, promotora de leitura, escritora e tradutora de álbuns ilustrados e formadora de mediadores e interlocutora de leitores; e Bel Santos, educadora social, mestranda em lazer e turismo com bacharel em turismo e licenciatura em ciências matemáticas e especialização em pedagogia social. A mediação ficou com Susana Coutinho de Souza Cerveira, mestra em literatura brasileira e professora do ensino fundamental e médio entre 2006 e 2010 e integra equipe de assistentes técnicos da gerência de ação cultural do Sesc SP.

“Sempre provamos com os leitores. Em geral, o mesmo livro interessa o bebê e um adolescente. Cada um vai dar um significado diferente”, comenta a espanhola Lara. A livreira ainda defende que o bom poema é aquele que todos gostam e cada um vai ter uma experiência única com esse tipo de leitura e reforça o papel do leitor no processo da leitura e seleção de boas obras.

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Educadora Bel compartilha experiência de formação de mediadores e leitores em Parelheiros na zona sul de São Paulo. (Crédito da imagem: Sofia Colucci)

A mediadora questionou Bel sobre a importância de romper importantes barreiras e mostrar as diferentes culturas na leitura. Para a educadora, a diversidade ainda passa por desafios para ser traduzida nos livros. Comentou seu trabalho na formação de mães multiplicadoras em Parelheiros na extrema zona sul de São Paulo. “Há uma importância de se ver na diversidade. Tínhamos lá que eles só conheciam os clássicos e as outros considerados alternativos não tinham acesso. Uma coisa que observo é que temos cada vez mais ilustradores cada vez mais sensíveis e ainda questiono como trago a diversidade aos temas? Também queremos ter contado com as adversidades de todos”.

Bel ainda comenta que está feliz com algumas editoras. Fala que hoje tem mais obras para jovens do que literatura infantil. Em Parelheiros, eles têm trabalhado com a palavra escrita. “Nossas palavras vão aos muros. Nós queremos que essas palavras chegem docemente nas nas crianças”.

E como ajudar os profissionais de mediação de leitura nos espaços formativos? Patrícia responde que a comparação de obras literárias é bem importante em diferentes formatos. “O livro mais complexo se torna o mais interessante para o debate em sala de aula, porque dá mais discussão e possibilita mais conversa”, diz. Ela ainda ressalta a importância dos professores viverem a experiência como leitores.

A mediadora também comenta que o acervo é fruto de comparações das obras. “É importante ir a campo, folhear e compará-las”. Lara ainda acrescenta que é fundamental ir aos encontros das obras e levar em consideração os intercâmbios dos leitores e ainda diz: “Eles (os leitores) me ensinam a ler todos os dias, uma aprendizagem cotidiana. Temos que levar a sério seus comentários e averiguar o que eles gostam”.

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Espanhola ressalta a importância de mediador ser um leitor e considerar a opinião do leitor independente de sua idade. (Crédito da imagem: Sofia Colucci)

Sobre a importância do papel dos mediadores e deles se reconhecerem como sujeitos de linguagem, Lara pontua que qualquer leitor pode ser mediador, mas é imprescindível ser leitor. Não pode sair do papel de leitor, quando se torna mediador. “Se nós não abstraímos de sermos educadores, também supõe que vamos errar, há riscos de esquecer e estamos tentando que cada um faça sua própria construção mesmo sem respostas. Se existe desigualdade, de alguma maneira sentir o que tem que cumprir, muitas vezes é debaixo para cima, da juventude ao adulto”. Ela ainda lembra de uma situação em que um motorista de ônibus voltou a ler incentivado pela filha adolescente.

A espanhola ainda observa que o verbo ler tem diferentes significados. Ela sugere ao mediador reconstruir sua própria história, identificar as chaves da mediação ou inclusão. “Quando somos mediadores e educadores, temos a oportunidade do encontro com a leitura. E de que práticas de leitura e como aplicar isso no dia a dia? Também precisamos lembrar por que queremos que nossas crianças leiam, por qual caminho, esse processo de indagação se clareia. Não há um modelo válido, são todos”.

Bel se recorda do primeiro encontro de formação de mediadores de leitores que contou com 40 pessoas na região de Parelheiros. Ela tomou um susto, porque achava que iria aparecer menos pessoas. A principal reclamação foi que a biblioteca da escola estava fechada. Os participantes do encontro achavam que não gostavam de ler. “A nossa primeira pergunta na formação foi para eles: Teve algum momento de sua vida que ler foi gostoso? E como levar isso para outra pessoa?”. A educadora ainda compartilha que para ela qualquer um pode ser um mediador e isso ficou muito forte, quando viu uma mãe que não sabia ler e “leu” uma obra para seu filho.

A educadora ainda sugere dicas ao público, como: leitura compartilhada, conversas sobre obras lidas, ler também o que se escreve na leitura, observar o que lemos e para quem, cine debate com filmes sobre obras e indicações de leitura.

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Pedagoga defende a leitura por prazer e o diálogo sobre as obras lidas. (Crédito da imagem: Sofia Colucci)

Já Patrícia defende a importância de mediadores acompanharem as políticas públicas nessa área. “A leitura em si não é uma atividade para acessar outros conteúdos. Ela não é só isso. Ela ocupa um lugar de ensinamento. Também usada para ensinar uma atitude, uma moral”.

Site do evento: http://seminarioprimeirainfancia.com.br/