O olhar indígena para preservação da água

Na Arena Petrobrás, responsáveis por dois projetos de valorização dos saberes indígenas pela preservação da água no sul e centro-oeste do Brasil.

 

A dificuldade avaliar a riqueza da diversidade de saberes tradicionais não impactou de forma negativa os projetos de preservação de bacias e nascentes nas regiões sul e centro-oeste do Brasil. Ao contrário, a cultura da oralidade e da valorização dos elementos da natureza impulsionaram as ações de preservação da água. Esse foi o eixo central do painel A perspectiva indígena sobre a conservação ambiental, com a apresentação de dois projetos: Berços das Águas (MT) e Ar, Água e Terra Guarani (RS), na Arena Petrobrás, na Vila Cidadã no Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha no 8º Fórum Mundial da Água.

A primeira a falar foi a representante do Ar, Água e Terra Guarani, que já mostrou um mapa comprovando que muitos territórios indígenas estão localizados em unidades de conservação. A iniciativa foca no povo guarani, que está no Brasil há três mil anos e possui atualmente 50 mil pessoas. Essa comunidade também vive em países, como Bolívia, Paraguai, Uruguai e Argentina. Nesses países são 220 mil indígenas. “Os guaranis mantêm formas da agrofloresta e conectam técnicas tradicionais para promover a biodiversidade”.

Ela compartilha que atuar com povos indígenas há uma dificuldade de dados, porém encontraram formas de quantificar ações para mostrar no projeto, como a construção de mapas do uso da terra, desde habitação, trilhas, serviços como postos de saúde e escolas e conversão produtiva de unidades de conservação da natureza. Eles trabalharam com 10 aldeias no Rio Grande do Sul, envolvendo oito municípios e sete bacias hidrográficas (Guaíba litoral médio; rios Cai,Gravataí, Mampituba, Sinos e Tramandaí) . Por meio de fotos, mostrou os diferentes tipos de residências e escola indígena bilíngue chamada Karapi Nhé e Katu.

“Mesmo trabalhando com uma aldeia, temos especificidades dentro de cada aldeia. As demandas e lideranças possuem ideias e propostas diferentes”, atentou a gaúcha. Ainda comentou que a segurança alimentar foi garantida por meio de ações de agroflorestal. O manejo territorial foi outra prática adotada seguindo jeito deles. Também foram realizadas oficinas nas escolas, trilhas, construção de viveiros e até práticas de educação ambiental. Foram incluídas crianças e formação de lideranças desse povo.

O olhar indígena para preservação da ág
Crédito da imagem: Susana Sarmiento

Em uma foto, a representante do projeto mostrou o mapa construído e as categorias construídas e sua área conservada. “Quase 100% da área conseguiram preservar em prol da sustentabilidade e hoje o manejo é para a sobrevivência da comunidade”. Ela ainda disse que os indígenas se relacionam bem com os elementos da natureza por considerarem sagrados. “Para eles, as águas, a terra, o sol possuem espíritos e merecem muito respeito. Espero que nós vejamos eles como aliados e parceiros nos projetos de preservação da natureza”.

Berço das Águas

Com o cenário do Mato Grosso, Artema Lima, representante do projeto Berço das Águas, falou sobre o trabalho realizado com 10 povos indígenas. “Essas terras estão no ápice do desmatamento e precisam da conservação da cultura desses povos. Trabalhamos com 10 povos de etnias diferentes e usam o mesmo recurso hídrico e banco genético de sementes. Eles são nossos aliados da conservação e riqueza da biodiversidade”.

O objetivo do projeto é implementar planos de gestão territorial que abrangem esses 10 povos. O foco está no Rio Juruema que corre risco de construção de hidrelétrica e outros riscos pela indústria do agronegócio. As principais temáticas perpassam por: proteção dos territórios, formação de jovens e lideranças, fortalecimento de rituais e segurança alimentar.

O olhar indígena para preservação da ág
Crédito da imagem: Susana Sarmiento

Para identificar as principais aldeias, a equipe conseguiu mapear o território, a partir de expedições com esses indígenas, estudantes, professores e especialistas e posteriormente foi desenvolvimento um étnico zoneamento para identificar essas áreas atuais e futuras, analisando as próximas roças e aonde eles podem abrir novas aldeias, uma gestão territorial importante para definição de acordos ao uso da terra responsável e relacionado com educação. Já foram mais de 38 expedições e 24 hectares de roças plantadas, além de construção de barracões de sementes e 70 mil mudas de plantas. Ocorreram ainda vários eventos de intercâmbio e rituais com pajés.

A palestrante ainda explicou sobre a criação da Rede Juruena Vivo com informações e mobilizações de recursos para discutir as ameaças desse local e os povos atingidos diretamente.

“Os planos de gestão se tornaram planos políticos. Eles utilizam junto com gestão local. Isso é bem tocado pelas lideranças, pensando até no manejo tradicional. Hoje há um empoderamento em diversas ações relacionadas com a gestão”, disse e ainda mostrou ao público o livro feito sobre pensamento indígena e um caderno de metodologia de construção de plano de ação. “Essas são ações para valorizar os povos indígenas e que eles saíam da invisibilidade”. No final, houve a fala da indígena Severa Idioriê sobre o projeto Berços das Águas e ressaltou a importância dos povos indígenas serem ouvidos para ações de preservação ambiental.

Para conhecer as ações, os interessados podem acessar:

Projeto Ar, Água e Mar

www.iecam.org.br/projeto/

Berços das Águas

https://www.facebook.com/operacaoamazonianativa/

www.amazonianativa.org.br

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