O Movimento LGBT na Atualidade – para onde vamos?

Este foi o tema da última roda de conversa na biblioteca do Senac Francisco Matarazzo na última sexta-feira (17/5), no Dia Internacional Contra a Homofobia.

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O público da roda de conversa questionou fatos pessoais da vida dos participantes. (crédito da imagem: Susana Sarmiento)

Sexta à tarde e a sala da biblioteca do Senac Francisco Matarazzo cheia de jovens e adultos ouvindo atentamente a história de vida de três pessoas transexuais. Idades e origens diferentes. Foi uma roda de conversa sobre O Movimento LGBT na Atualidade – para onde vamos? com Alexandre Peixe, artesão, cenotécnico, homem trans e ativista, integrante do Instituto Brasileiro de Transmasculinidades (IBRAT), Ariadne Ribeiro, psicopedagoga, especialista em Educação Sexual pela UNISAL e em Dependência Química pela Universidade Federal de São Paulo e mestre em Ciências e Doutorando em Psiquiatria e Psicologia Médica pela Unifesp, e Rawena Beatriz Silva Sampaio, agente de Prevenção do Instituto Cultural Barong, mediado com Roseli Tardelli, jornalista e idealizadora da Agência de Notícias da Aids e autora do livro O Valor da Vida – 10 Anos da Agência Aids.

Com tema central em diversidade, esse encontro foi o último das rodas de conversa que iniciaram no começo do mês e passaram pelas seguintes unidades: Senac São Carlos, Senac Vila Prudente, Senac Limeira e Senac Francisco Matarazzo. A ideia desse último encontro celebrou o Dia Internacional Contra a Homofobia.

De acordo com a ONG Transgender Europe, entre 1º de outubro de 2017 e 30 de setembro de 2018, 167 transexuais foram mortos no país. O estudo foi realizado em 72 países e contabilizou um total de 369 homicídios de transexuais e indivíduos não-binários, indicando um aumento de 44 casos em comparação com a pesquisa do ano passado e de 74 casos com relação a 2016. No Brasil, foram contabilizadas 171 mortes, em 2017, e 136 em 2016. Nessas duas situações, o país ocupou o primeiro lugar no ranking.

“Você pede para isso acontecer. É como se você tivesse chamando o cara para te abusar. Meu irmão mais velho me batia todos os dias e minha irmã sempre foi parceira”, afirmou Adriadne sobre a fala de sua mãe no período que tinha dificuldades para aceitá-la. Por um período, ela morou em Heliópolis e compartilhou que teve alguns momentos que precisou se prostituir para conseguir dinheiro para se alimentar. Aos 18 anos, foi estuprada e descobriu após três meses que tinha contraído o vírus do HIV.

A youtuber Rawena compartilhou que hoje trabalha com testes de HIV e sífilis no centro de São Paulo. Do Maranhão, ela saiu de casa pela primeira vez com 15 anos e seu pai foi buscá-la para viver novamente na residência com seus pais até os 18. Sua mãe nunca aceitou sua identidade. Quando completou a maioridade, decidiu ir para Bauru, interior de São Paulo. Depois com a ajuda de uma cafetina chegou na capital paulista. Quando conseguiu sair da situação de prostituição e exploração, a jovem contou com a ajuda do marido na época. “Hoje sou feliz nessa cidade, quero novos caminhos e consigo me manter com o trabalho que faço na ONG Barong”, disse e compartilhou a emoção que foi se inscrever na academia com seu nome retificado.

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“A pior coisa é quando a pessoa olha para você e enxerga outra coisa. Aí você precisa contar sua história”, pontua Rawena, uma das participantes da roda de conversa. (crédito da imagem: Susana Sarmiento)

Já Ariadne comentou como foi o processo de retificação de seu nome: “Só queremos ser o que somos. Antigamente tínhamos que fazer uma avaliação com psiquiatra no Hospital das Clínicas nas partes íntimas e hoje vamos ao cartório realizar esse tipo de solicitação”.

Alexandre compartilhou que o parto da sua filha foi normal e amamentou com ajuda de bombinha até os dois anos de idade. “Ela é saudável e sempre dividi minha transsexualidade com ela. Contei que eu nasci como menina, mas me identifiquei como menino. Em 1991 não se falava em transsexualidade, ainda mais no interior de São Paulo. Foi todo um processo”, revela e ainda compartilha que sua filha sempre passou por situações de preconceito na escola e outros espaços por aceitar naturalmente: “Hoje ela tem uma relação comigo de militância também”.

Já a jovem Rawena comentou que todos os dias conversa com seu pai, sua relação com ele é boa, mas a mãe ainda não conseguiu aceitá-la. Já a Ariadne possui sim uma boa relação com a mãe dela. “O amor que minha mãe sente é grande demais e transforma. Ela é e sempre foi uma mulher forte. Ela mesma desenhou a casa que ela vive hoje. Ela virou para o ex-marido dela e disse: se você está incomodado com minha filha, você sai da minha casa. Eles se separaram. Ela me ensina a amar da forma mais pura. Na vida temos que fazer escolhas e trazem consequências para o resto da nossa vida”.

O tema da superação foi comentado por todos os participantes. Alexandre se lembrou da quantidade de vezes que apanhou, além da violência psicológica. Também ressaltou do aumento da quantidade de casos de suicídios de jovens na população trans. “A minha arma está no que estou fazendo aqui. Antes de ser trans, sou cidadã com direitos e deveres como todos”. Enquanto a Ariadne comentou que também passou por várias situações de violência e contou com ajuda de muitas pessoas: “Prostituição só é bom para quem gosta. Eu quero que vocês descubram seus talentos”, afirmou ao público. A jovem maranhense Rawena disse que sempre sofreu por ser garoto e ter a voz fina. Seu grande sonho é ser uma estilista conhecida.

Lua Silva de Oliveira, 20 anos, estava no público da roda de conversa e é aluna do curso livre de Educador Social do Senac Francisco Matarazzo. A jovem do Jardim Pantanal, extremo zona leste de São Paulo, já foi bolsista três cursos, um deles foi o Senac no Programa Educação do Trabalho. “Para mostrar como era um bom filho para minha mãe, eu sempre mostrei pelos estudos. Ela nunca aceitou minha homossexualidade. Quando tinha 14 anos, minha mãe se juntou com companheiro homofóbico e nossa relação piorou”, revelou. Foi morar na casa da sua madrinha, depois do primo na zona sul que incentivou a retornar para escola pública para concluir os estudos e nos últimos três anos mora sozinha e trabalhava numa farmácia na região de Perdizes na zona oeste de São Paulo. Recentemente está desempregada e busca trabalho na área de terceiro setor. “O Senac me ajuda a criar relações com as pessoas e me mostrar caminhos. O Programa de Educação para o Trabalho, por exemplo, me ajudou muito a me desenvolver na comunicação e lidar no mercado de trabalho. Meu sonho é conseguir ingressar na faculdade de jornalismo”.

Agência de Notícias da Aids: http://agenciaaids.com.br/