O ambiente digital e a captação de recursos são tema de plenária no Festival ABCR

14679“Nós percebemos que os movimentos sociais vêm crescendo em velocidade maior do que no passado”, disse Anna Robinson, do Change.org, a maior plataforma de abaixo-assinados do mundo. A fala aconteceu durante a segunda plenária do Festival ABCR na manhã do dia 5 de maio, que tinha como tema a “Captação de Recursos pelo Mundo”.

Anna foi a primeira das convidadas a abrir as falas e focou na participação em causas sociais por meio da tecnologia. Segundo ela, o aumento no engajamento gerou impacto nas captações e rompeu com modelos antigos de ação, além de vir alterando as relações entre pessoas e governos. Como exemplo, ela citou Laxmi, que sofreu um ataque com ácido aos 14 anos na Índia. Depois de cinco anos, a garota conseguiu mobilizar uma campanha que proibiu a venda desse tipo de substância em seu país.

Um dos dados mais interessantes que apresentou foi que o Brasil lidera o crescimento dessas atividades na internet. “A cada hora, uma petição atinge sua meta no planeta”, disse ela, reforçando o quanto cidadãos estão ativos. E ressaltou o perfil deles: são indivíduos comuns (e não ativistas, como se poderia imaginar), que quase nunca tinham participado de ações sociais anteriores e que estão na faixa dos 30 anos. “As pessoas se importam com o mundo. A apatia é um mito”, afirmou.14680

É também por conta dessa explosão de iniciativas que se pode observar o declínio nas formas de participação tradicionais, como os partidos políticos. As possibilidades de velocidade, alcance e abrangência de um público novo também trazem grandes responsabilidades, diz Anna. Ela explica que a população não quer só que as agendas sejam produzidas por lideranças, pois desejam participar dos processos. O diálogo e a abordagem “de baixo para cima” criam laços muito fortes, segundo ela.

Logo após a representante do Change.org, foi a vez de Darian Rodriguez Heyman, escritor internacional, explanar sobre o poder das histórias numa sociedade digital. Ele reforçou a ideia de participação em um mundo no qual as pessoas têm amplo acesso à informação. “Todo mundo se acha mais esperto. Como sua causa será reconhecida? ”, questionou.

14682“Dizemos o que fazemos e o ouvinte tem que entender por que é importante”, disse ele sobre a maneira como as organizações costumam apresentar seus trabalhos. Ele propõe uma inversão nesse modo de apresentação: “me diga logo por que é importante e depois me fale por quê! ”. Para auxiliar as instituições, ele elaborou um modelo de quatro passos para responder a famosa pergunta “o que você faz”.

O primeiro consiste em explicar o problema que a ONG se propõe a resolver. O segundo aponta a solução encontrada pela organização. Já o terceiro trata de mostrar as atividades e programas desenvolvidos de maneira resumida. Por fim, o quarto passo indica a maneira que o interessado pode ajudar – participando ou doando. Segundo Darian, essa fala precisa ser ensaiada para que possa acontecer em poucos minutos e em ocasiões diversas, seja pegando o elevador ou participando de um evento. Ela também deve ser flexível para cada programa executado pela instituição. “Quando o ouvinte faz uma pergunta, ele mordeu a isca. Ele quer saber mais”, explicou.

Para encerrar sua aparição, ele abordou o fato de que pessoas não doam para organizações – elas doam para outras pessoas. Daí a necessidade de frisas a causa no momento de explicar o seu trabalho. É justamente isso que faz com que alguém tenha interesse em ajudar. Ela encontra no porta-voz da instituição uma maneira de atingir um objetivo maior. Concluindo, Darian comentou que o chamado à ação é fundamental, afinal, tem mais chance de realizar uma doação quem é convidado a fazê-lo.

14683Nick Allen, membro do Nuevo Fundraising, foi o último convidado a falar na plenária. Ele veio para ressaltar o quanto a tecnologia se tornou presente e indispensável. Brincando com a plateia, perguntou quem ali possuía um smartphone, deixando claro, diante da maioria das mãos levantadas, que não há dúvidas da importância de olhar com atenção para essa característica da sociedade atual.

Apesar de tudo nesse campo digital mudar muito rapidamente, ele mostrou a possibilidade de se criar uma base de doadores com celulares, uma vez que muita gente checa seus e-mails por meio desses aparelhos. “Cada vez menos se usa o computador de mesa”, disse. Para isso, são necessárias mensagens de e-mail chamativas, como as usadas na campanha presidencial de Bernie Sanders: “ele usa letras grandes, muitos links, mensagens diretas. Fica fácil apoiar, tem botões enormes”, mostrou. Em países como os Estados Unidos, é possível também realizar doações por SMS.

O feedback após alguém realizar um ato como esse também é muito significativo – e pode, inclusive, gerar mais apoio. Mensagens de agradecimento podem vir acompanhadas de novas possibilidades de apoio, oferecendo brindes, por exemplo. O desafio é conseguir a atenção do público. Para dar outros exemplos de boas práticas, ele citou a plataforma DoSomething.org, que envia mensagens com ações pelo celular e os usuários têm oportunidade de ajudar alguma causa e, além disso, compartilhar a experiência dentro do sistema.

Todas as falas dos convidados se concentraram em apontar o ambiente digital como um universo de amplas e variadas oportunidades. E, o mais importante, que vem dando certo para as organizações que se adequam para usá-lo da melhor maneira.

8º Festival ABCR

Entre os dias 4 e 6 de maio, ocorreu um evento voltado para captação de recursos a organizações da sociedade civil no no Centro de Convenções Rebouças em São Paulo. Participaram deste encontro profissionais da área de captação e mobilização de recursos de organizações da sociedade civil; gestores de associações e fundações; acadêmicos, estudantes, pesquisadores e demais interessados em compreender a situação atual e as tendências desse segmento.


Serviço:

Acesse o site do evento: http://festivalabcr.org.br/


Texto: Natália Freitas
Foto: Priscila Furuli Fotografia

Data original da publicação: 11/05/2016

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