Nós e as desigualdades no Brasil

Evento traz diferentes especialistas para analisarem dados do último relatório da Oxfam Brasil.

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Esther Solano pesquisa há 10 anos movimento de direita conservador em Brasil e Estados Unidos. (crédito da imagem: divulgação)

“As pessoas naturalizam as desigualdades”, afirma Jaílson de Souza e Lima, geógrafo, mestre em Educação e doutor em Sociologia da Educação, fundador do Observatório de Favelas do Rio de Janeiro e o Instituto Maria e João Aleixo, foi um dos palestrantes do debate Nós e as Desigualdades na terça-feira passada (09 de abril) no Tucarena na zona oeste de São Paulo. O evento apresentou os dados da segunda edição da pesquisa Oxfam Brasil/Datafolha, acesse aqui: https://bit.ly/2D6Wz57

A pesquisa foi feita em todo país de 12 a 18 de fevereiro. O objetivo dela é ampliar o debate sobre as desigualdades no país. O levantamento indica que a sociedade brasileira percebe os problemas da distribuição de renda no país, mas ainda não entende o real tamanho delas.

A maioria dos brasileiros (86%) acredita que o progresso brasileiro está diretamente ligado à redução da desigualdade econômica entre ricos e pobres, 94% concordam ainda que o imposto pago deve ser usado para beneficiar os mais pobres do país. 77% afirmam que defendem o aumento de impostos para as pessoas muito ricas para financiar políticas sociais. 64% afirmam que as mulheres ganham menos só pelo fato de serem mulheres – na primeira versão do estudo, de 2017, eram de 57%. Já a parcela dos que concordam que a cor da pele interfere no nível de rendimentos aumentou de 46% para 52% no mesmo período.

Dois em cada três brasileiros elegem “fé religiosa”, “estudar” e “ter acesso à saúde” como as três principais prioridades para uma vida melhor. 72% acreditam que a cor da pele influencia a contratação por empresas 81% acreditam que a cor da pele influencia a decisão de uma abordagem policial e 71% concordam que a Justiça é mais dura com negros. Já 86% discordam que mulheres deveriam se dedicar somente a cuidar da casa e dos filhos, e não trabalhar fora.

A população brasileira rica tem dificuldade de se classificar como tal: 85% dos brasileiros que acreditam pertencer à metade mais pobre do país. 53% acham que o valor da renda mensal para a pessoa ser classificada como pobre é entre R$ 700 e R$ 1.000. Entre os entrevistados com renda mensal acima de cinco salários mínimos, 19% acreditam que a pobreza vai até as pessoas com rendimento de R$ 2.000, e, para 11% desse grupo, o teto é R$ 5.000.

O primeiro painel foi As Desigualdades no Imaginário Brasileiro. A mediação dessa conversa ficou com Tauá Lourenço Pires, coordenadora de programas da Oxfam Brasil, historiadora e com experiência na coordenação de projetos, assessoria em planejamento estratégico e sistematização. Participaram: Esther Solano, socióloga com doutorado pela Universidade Complutense de Madrid, professora do curso de Relações Internacionais da Unifesp e professora do Mestrado Interuniversitário Internacional de Estudos Contemporâneos de América Latina da Universidad Complutense de Madrid; e Henri Grazinoli, diretor e roteirista, co-fundador da produtora Social Docs, especializada em contar histórias de impacto social.

Esther Solano explicou que estuda há 10 anos sobre o avanço dos conservadores moderados no Brasil e outros países. Ela ressaltou um dado publicado no estudo sobre o discurso de meritocracia, que entre 2017 e 2019 variou um pouco a percepção de que, por meio de trabalho e estudos, as chances de uma pessoa pobre se nivelam àquelas de uma pessoa rica: 58% da população duvidam e 41% concordam que “uma pessoa de família pobre que trabalha muito tem a mesma chance de ter uma vida bem-sucedida que uma pessoa nascida rica e que também trabalha muito”.

Combater a corrupção se tornou o transformou a grande preocupação dos brasileiros, segundo a pesquisadora. Ela explicou que o episódio da Lava-Jato ajudou a aumentar o discurso de criminalização do fazer política e corrupção na naturalização do jeito brasileiro. “Essa deslegitimidade abre o pensamento que o papel do Estado, ataque ao serviço público e político e ao mesmo tempo quer políticas públicas. “Há uma contradição. Temos um consenso contra o Estado Mínimo, são contra a redução de direitos, mas não conseguem entender nem enxergar uma narrativa da diminuição do Estado”, sinaliza.

Esther ainda fala da fé como saída com um papel “sacralizador”. “Estamos com muita dificuldade de conversar com a Igreja Pentecostal”. E ainda ela afirma: “Os movimentos sociais são considerados aqueles que mexem nos privilégios e não direitos. Eles estão dividindo o país e culpabilizando as feministas. Ela fala que há uma forma ostensiva e como será possível administrar tudo isso: “As saídas coletivas não são reconhecidas”.

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Jaílson enfatiza a importância da escuta e considerar as potências desenvolvidas nas periferias. (crédito da imagem: divulgação)

Jaílson comentou que a pesquisa primeiro aponta para a tese simbólica de que o campo progressista sempre valorizou coisas mais objetivas do que as subjetivas, as simbólicas. A ideia, segundo ele, é construir novas possibilidades dentro do real.

Esse processo de produção sustenta e reproduz através do machismo, racismo e pelo patrimonialismo institucional. E se expressa várias vezes tem política fiscal e de crédito. Ele ainda falou da diferença térmica entre bairros do Rio de Janeiro, enfatizando a falta de arvores nas favelas, e fala da estrutura sistemática, de reprodução da desigualdade.

O diretor da Universidade Internacional de Periferias fala ainda que tem uma tendência de saída individual para resolver o problema da desigualdade e as pessoas que estão ocupando espaços importantes de poder na gestão pública não necessariamente vivenciaram situações de desigualdade. Ele ainda comentou que está sendo nas periferias o paradigma da potência. “Nós, da periferia, somos educados para termos vergonha de morar na favela, ter estudo em escola pública e nossos pais trabalhadores. Lá estudamos e buscamos soluções. Os democratas e progressistas sempre enxergam a favela com discurso da carência. Como se fossemos vítimas infelizes, sendo que somos sujeitos potentes para enfrentar essa situação. Temos que ver como cada um de nós ajuda a ver como reproduz a desigualdade. Se não fizermos isso, olhar por aquela pessoa, tratar com respeito e com dignidade. Compreender as desigualdades e a luta da agenda. Trabalhar além da pauta e sobreviver, esse é um dos principais desafios. Temos que sair para além do debate: afirmar nossa agenda, nossa proposta e nossa força fraterna”.

O cineasta Henri comentou sobre a produção do documentário Novo Capitalismo em que aborda realidade de negócios sociais e compartilhou o impacto desse trabalho em sua vida profissional. Após essa produção, decidiu criar uma empresa especializada em produções sobre organizações da sociedade civil, uma comunicação com causa. Ele ainda enfatizou a importância de contar histórias de vidas de pessoas no processo transformador de uma causa.

Ela ainda comentou que apesar da maioria reconhecer a desigualdades e há necessidade para uma comunicação eficiente para fazer com que as pessoas falem mais sobre isso não fique somente na academia. Outro desafio é como falar de pessoas para pessoas e que elas enxerguem com mais clareza a situação dos dados da pesquisa. “Necessário não ficarem apenas nos números, mas algo emocional para dentro das pessoas. Se pegarmos, vermos como funciona os rituais e como mexe com as pessoas pelos rituais e a tradição oral. As pessoas precisam conhecer suas histórias”.

Políticas públicas para redução das desigualdades

A jornalista da TV Cultura, Adriana Couto, mediou a segunda mesa, com as seguintes participantes: Luana Passos, economista e pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais, Marta Arretche, cientista política e pesquisadora da Universidade de São Paulo e no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). A ideia central do painel é confrontar as políticas consideradas pela redução das desigualdades com as expectativas da população e como elas podem ser avançadas na opinião da população.

A economista primeiro pediu para o público refletir sobre o que a sociedade pensa sobre práticas redistributivas e desigualdade intersecional. Ela comentou e ressaltou a importância de políticas públicas para combater o racismo. Ainda comentou da importância da reforma previdência impactar o alto escalão do funcionalismo público, acompanhado do sistema tributário. Além disso, Luana sugeriu o combate aos privilégios fiscais que já impactaria 25% na melhoria no Imposto de Renda de pessoa física.

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A segunda mesa foi direcionada a políticas públicas para combate das desigualdades. (crédito da imagem: divulgação)

No final, Luana enfatizou a importância de ter políticas destinadas para idosos, classificando como políticas de cuidado. “Nesse caso, há um cruzamento de vulnerabilidade sem falar de sobreposição de vulnerabilidades”.

“Somos um país injusto e tivemos avanços importantes para defender essas conquistas”, afirmou Martha e ainda complementou a reflexão: “Tivemos políticas que não resolveram, mas avançaram muitas agendas”. Ela ainda comentou da importância do aumento do salário mínimo entre os anos 1995 e 2015 e o Sistema Único de Saúde construído de forma progressiva na democracia. E as mulheres estão ocupando mais os cursos de graduação, situação bem distante do Brasil nos anos 1960, por exemplo.

Ela defende que os temas precisam ser popularizados para todos conhecerem e serem capaz de entender os detalhes. Isso afetaria as desigualdades. “Não são as preferências, mas as disposições. Exemplifico com uma situação: na época da campanha, todos os candidatos colocaram no plano de governo a isenção dos dividendos, que favorece enorme o fator desigualdade. E os dois candidatos que foram para segundo turno não incluíram, mas importante conhecer o impacto disso ao país. “Nosso debate é muito fraco frente às políticas contra as desigualdades”.

A apresentadora da Globo News Flávia Oliveira enfatizou que os dados são calculados pelo índice GINI há um século. “Apesar da existência do dados, nós estamos falando sobre o assunto desigualdade recentemente. Já o Índice de Desenvolvimento Humano, conhecido como IDH, veio em 1990. Antes havia uma obsessão para cálculos em torno do Produto Interno Bruto Per Capita”. Ela defendeu as métricas nesse tema por ter democratizado a conversa.

A jornalista carioca citou a Pesquisa das Características Étnico-Raciais da População: um Estudo das Categorias de Classificação de Cor ou Raça, com dados de 2008 e publicado em 2011. “Sempre cito essa pesquisa. Porque fica claro que a cor da pele tem relação direta no mercado de trabalho. Nos anos 1980, falava muito da boa aparência que era bem direcionado a pessoas negras e pardas”.

Ela ainda opinou que não é discutido política pública em escala universal em gênero e raça. Também chamou atenção para o debate orçamentário e ser conversado e compactado com toda a sociedade. “Todas as políticas públicas nasceram dessas redes de solidariedade, que se ajudam. A gente se sustenta. Agora, o que precisamos? Transportar essa percepção para as medidas do debate orçamentário, fundamental envolver Ipea, Tribunal de Contas, todos os ministérios. Não por arcabouço de políticas, mas por políticas que possam ser identificadas e desenhadas a partir de um novo debate orçamentário”.

Acesse aqui a pesquisa: https://www.oxfam.org.br/nos-e-as-desigualdades-2019