Seminário Diálogos sobre os Desafios Socioambientais Contemporâneos – Sesc Vila Mariana

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Crédito da imagem: Julia/Sesc Vila Mariana

Na última quinta-feira aconteceu no Sesc Vila Mariana o seminário Diálogos sobre os Desafios Socioambientais Contemporâneos, iniciativa que discutiu temas ligados à sustentabilidade, políticas públicas e responsabilidade social.

A tarde do primeiro dia, além de palestras sobre energias renováveis e importância de agentes sociais, a mesa das 14h30 abordou Natureza como Bem Comum. Foram convidados: o líder indígena Ailton Krenak e Cristina Adams, professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP) e mestre em ciência ambiental. A mediação contou com presença do docente também da EACH-USP, Sidney Raimundo.

Cada palestrante teve meia hora para expor sua fala. Cristina iniciou e teve como foco principal a discussão sobre apropriação entre meios comuns. Baseou-se nas perspectivas da Escola de Economia Política, da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, cuja pesquisadora mais conhecida foi Elinor Ostrom, ganhadora do Prêmio Nobel de Economia no ano de 2009.

Comparou os bens públicos com recursos naturais, no sentido de que todos podemos ter acesso a eles, mas que é importante usá-los de forma moderada e consciente. “Existe um alto risco de indisponibilidade. Podemos imaginar que alguém visite uma unidade de conservação. A visita em si não caracteriza uma possível indisponibilidade, mas é necessário relembrar o número de invasões para a retirada de madeira e garimpo”. Para ela, isso demonstra a dificuldade em controlar os potencias usuários de recursos naturais.
“Boa parte dos recursos naturais que dependemos podem ser considerados recursos comuns. Água, floresta, mata e ar puro são exemplos importantes, tanto para satisfazer necessidades básicas como alimentação e vestimenta, quanto outros aspectos – religiosidade, espiritualidade, entre outros”, explicou a profissional.

Cristina disse que a partir do ponto de vista da economia política, os meios comuns possuem duas características principais. A primeira delas é que estes são finitos, de forma que a cada unidade que utilizamos, sobra menos para o próximo usuário que irá utilizá-lo. “Falar sobre a sustentabilidade desses recursos dependerá da sua regeneração natural, que varia de acordo com o bioma”. A segunda é a dificuldade em controlar a extração desses recursos. “São itens naturalmente vulneráveis a exploração”, completou.

De acordo com ela, para que o manejo sustentável ocorra, é necessário criar regras de uso ou adaptar as já existentes as que não estão funcionando. “No caso dos pesqueiros, por exemplo, já estamos perto do limite de viabilidade ecológica e econômica para novas espécies. Na Amazônia, ainda temos um estoque madeireiro disponível”. Para ela, este é um desafio.

Crédito da imagem: julia/Sesc Vila Mariana

Ressaltou a importância dos serviços ecossistêmicos, que são complexos positivos do qual a natureza fornece de uma forma geral, para o bem-estar da humanidade. “Se usufruirmos de recursos naturais de maneira consciente, eles não ficam indisponíveis aos próximos”. Cristina alertou: é importante se preocupar com a fragilidade destes recursos.
Finalizou sua fala pontuando que a atual conjuntura política não é favorável a preservação ambiental e que é importante levar em consideração a contexto cultural de povos locais. “Existem pessoas que moram nas florestas. Pescadores, povos nativos e muitos outros. Eles têm sua diversidade religiosa e de saberes. Antes de determinar regras, é necessário levá-los em consideração”. De acordo com ela, a atuação de movimentos sociais é positiva para a preservação destes hábitos. Acrescentou também que é de extrema urgência um governo de caráter mais inclusivo.

Em seguida, Ailton Krenak iniciou sua exposição. Ativista de direitos humanos liderou em 1987 a luta por princípios inscritos na Constituição Federal do Brasil. Além disso, fundou o Núcleo de Cultura Indígena e no ano de 2016 recebeu título de professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, passando a fazer parte do corpo docente. Assim como Cristina, baseou sua fala em uma linha de raciocínio, que dessa vez foi o princípio de pensamento coletivo.

“Encontros como esse me fazem pensar na geografia do planeta terra e avanço da tecnologia. Penso que chegaremos em um ponto de afastamento entre ser humano e natureza. Nós somos inteligências originais”, disse o indígena ao expor seu ponto de vista sobre modernização excessiva. “Inteligência artificial é algo que nos coloca longe do planeta, e nos desconecta do aprendizado humano. É falho pois, para que continue
funcionando essa prática, é necessário que seja reinventado com o passar do tempo”.

Crédito da imagem: Julia/Sesc Vila Mariana

Em seguida, convidou a plateia a refletir sobre o vasto território brasileiro. Ailton, aproveitando o gancho das pontuações finais de Cristina, falou sobre a quantidade de indivíduos que vivem nas mais afastadas regiões em diversos lugares do país. “Existe um esquema de organização, governança, e conhecimento de onde esses povos tiram sua subsistência”, acrescentou. Para ele, o significado de subsistência vai além de necessidades humanas e pode ser entendido como algo essencial para a reprodução da cultura tradicional. “Devemos olhar para esses mundos e entendê-los, não os reduzir”.

Integração, interação e expansão devem ser conceitos sempre presentes em uma sociedade coletiva, disse. Ainda pontuou sobre isolamento, e, de acordo com ele, esta seria uma tendência do ser humano. “Nós nos refugiamos na nossa rotina, nosso dia a dia.

Também falou sobre desenvolvimento local, dizendo que, pode ser benéfico, porém egoísta. “Não é interessante olhar esse conceito como um reduto para que nós pensemos apenas na nossa realidade como ideia de planeta”. Disse que o ser humano, enquanto organismo vivo, é responsável pelo bem-estar comum. “Enquanto estamos agarrados a Terra, devemos ser capazes de pensar e atuar em sua extensão”. Para ele, o consumo
também deveria ser pensado de forma sustentável.

Ressaltou, durante sua exposição, que a sociedade civil deve, a cada dia mais, se organizar e reivindicar seus direitos. Lembrou o episódio que discursou dentro da Assembleia Legislativa em defesa da Emenda Popular da União das Nações Indígena. “Há 27 anos, quando eu vi meu povo sendo ameaçado, em protesto pintei meu rosto na frente de mais de 200 homens brancos engravatados. Nunca vou me esquecer da importância desse dia”, pontuou.

Mais eventos do Sesc São Paulo, informações sobre cursos e a programação completa do mês de junho podem ser encontrados em: https://www.sescsp.org.br/


Crédito do texto: Gabriela Lira Bertolo