Nadadora Joanna Maranhão conversa com Portal Setor3 sobre sua trajetória no esporte

13062907_1176308862413704_7033865803060584981_oJoanna Maranhão nasceu em Pernambuco, no Nordeste do Brasil, e é graduada em educação física. Aos três anos de idade começou a nadar. Sua infância não foi fácil: aos nove, foi abusada sexualmente pelo treinador. Superou esse caso de violência e, aos doze anos, competiu em um Pan-Americano. Antes dos 18, estava nas Olimpíadas, e hoje, com 29, é uma das principais atletas do país.

Além do esporte, a nadadora é idealizadora da ONG Infância Livre, uma instituição de combate a pedofilia através do suporte as vítimas e ações de prevenção. Joanna conversou com o Setor3 sobre machismo no esporte, a lei que leva seu nome e sua atuação no terceiro setor.

Portal Setor3: Quando começou seu envolvimento com esportes? E com a natação?

Joanna Maranhão: Minha mãe me matriculou aos três anos nas aulas de natação por questão de segurança e saúde. Foi assim que comecei no esporte.

Portal Setor3: Quando foi que você começou a atuar como nadadora profissional?

JM: Ingressei na seleção absoluta de natação aos 14 anos.

14352167_1286388284739094_8879016500727894662_oPortal Setor3: Atualmente, como você observa as mulheres na área do esporte?

JM: Ainda carregamos o machismo da sociedade no meio esportivo onde se mostra ainda mais latente. Algumas áreas têm despertado para reflexão e ocupação de nossos espaços, outras permanecem na inércia.

Portal Setor3: Como é a relação das atletas mulheres com a mídia? Você sente diferença na cobertura de esportes praticados por homens aos praticados pelas mulheres?

JM: Sim, a mulher atleta “é o Michael Phelps de saia”, “é o Cielo de maiô”, “é o Neymar do futebol feminino”. As jogadoras de vôlei de praia são musas antes de serem atletas e isso só vai mudar quando a mulher atleta se empoderar, e não aceitar esse tipo de veiculação de nossa imagem.

Portal Setor3: Sobre a sua ONG, a Infância Livre, há quanto tempo ela existe? Qual o principal objetivo e como ela foi criada? Você pode contar, resumidamente?

JM: Atuamos desde 2014. Somos um grupo de voluntários que tinha como objetivo atuar no combate a pedofilia de alguma forma. Iniciamos com a ideia de dar suporte jurídico, psicológico e até financeiro para crianças de baixa renda vítimas de abusos sexuais, porém, a procura foi quase zero pelo silêncio que rege toda temática da pedofilia.

A partir daí, passamos para o ponto X: a verbalização e educação sexual. Sendo assim, hoje, nosso trabalho consiste em palestras pelo Brasil junto a crianças, adolescentes e pessoas que trabalhem com infância sobre minha história, as leis que dão suporte as vítimas e ensinamento do tipo de carinho permitido e o tipo de carinho abusivo.

Portal Setor3: Você observa mudanças no trabalho da Infância Livre desde o sancionamento da Lei Joanna Maranhão, em 2012? Se sim, quais?

JM: Não atuamos diretamente na parte jurídica, nosso foco é na educação sexual como profilaxia. A lei Joanna Maranhão é sem dúvida um passo, mas legalmente precisamos de muitos outros.

Portal Setor3: Como foi sua participação durante a elaboração da lei? Você acompanhou de perto?

JM: Fui ao Senado em 2009, quando o projeto de lei estava sendo votado. Pude falar aos senadores sobre minha história e a importância da aprovação dessa lei.

Portal Setor3: Depois de contar sua história abertamente na mídia, quais críticas você recebeu? Para alguma delas você tomou providências jurídicas?

JM: Algumas pessoas me acusam de inventar essa história para estar na mídia. Meu abusador me acusou de calúnia e difamação. A família dele o defende, alguns amigos próximos a ele também. Isso me machucou muito por um tempo, levei anos para verbalizar o que vivi e ser acusada de mentirosa quando eu estava expondo toda aquela experiência horrível me doeu muito. Mas hoje meu foco é em manter meu equilíbrio e conversar com o máximo de crianças a respeito da temática.


Data de publicação: 30/03/2017
Crédito do texto: Gabriela Lira Bertolo